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domingo, 14 de dezembro de 2008

Cachoeiro de Itapemirim: aqui jaz a Arte


Em tudo quanto é discurso em Cachoeiro tem alguém dizendo de boca cheia que a cidade já ostentou o título de "Atenas Capixaba". Lindo! Mas quer saber? Vá encher a boca para falar nisso (bem) longe de mim.

Não sou contra a Arte, em absoluto. Mas pra quê ficar olhando só pra trás? Lembro-vos que a mulher de Ló, ao olhar para trás, virou uma estátua de sal. E é isso que ocorre a quem para de caminhar para ficar contemplando o passado: vira estátua. Nada vê, nada ouve e não se move. Devo dizer que respeito profundamente nosso passado cultural tão glorioso, todavia, venho vos alertar: estamos petrificados.

Moraes, Monteiro, Cardoso, Sampaio, Clio, Marão, Fassarella, Barata, Paixão, Grillo, Fabris, Barretto, Tognere, Mofatti, Mourad, Costa... eis alguns dos nomes de nosso presente, capazes de encher um parágrafo!
São apaixonados pelo Cinema, pela Música, pelo Teatro, pela Pintura, pela Poesia, pela Crônica. Todos muito artistas. Todos cachoeirenses. E todos mergulhados em talento, vontades e em possíveis frustrações.

Bem fez Roberto (o Carlos) ao sair de Cachoeiro para ganhar a vida lá fora. Ficasse aqui e estaria anônimo, morrendo noite a noite, de boteco em boteco, como aconteceu a Sergio Sampaio, que morreu solitário, adoecido pela frustração e exalando genialidade.

Parece absurdo, mas sou capaz de ver os irmãos Newton e Rubem Braga visitando escolas e distribuindo a esmo exemplares de seus livros.

Estou cansada de ver Cachoeiro constantemente fora dos circuitos culturais. De ver os raros eventos com um público ínfimo. Cansada de ver pessoas vazias se aproveitando dos encontros culturais para se encher da coisa errada. Cansada.

Estou cansada de saber de picuinhas entre os músicos por tamanhas pequenezas. Cansada de ver nossos atores se apresentando lindamente para uns 20 amigos em um teatro de 300 lugares. E já cansei de ouvir notáveis reclamações quando é cobrado um ingresso para um evento cultural.

Mas acima de tudo, estou cansada, cansada mesmo é de ver pessoas que não estão nem aí para a Arte misturadas com aquelas que a amam verdadeiramente. Não combina. Quem não ama a Arte, a atrapalha.

Arte para ser Arte tem que ser trabalhada, detalhada, desejada. É simples, não há sacrifícios: quem ama a Arte ensaia mais, esboça mais, ouve mais, rascunha mais. Em quem isso doer não há lugar. Quem reclama disso, está fora.

Portanto, peço-vos encarecidamente que tirem as mãos de seus instrumentos, deixem microfones, pincéis e canetas, desçam do palco, embolem seus papéis. Chega de estrelismo, precisamos de muito mais que envolvimento. Precisamos de comprometimento.

Ah, e por último vos peço, pelo amor de Deus: deixem que a Atenas Capixaba enfim descanse em paz.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Estranha Intimidade


“Seu colo, talvez, seja o último que eu reconheceria.
Mesmo à luz do dia, eu não o saberia.
Da cumplicidade que nunca tivemos
é que sinto mais saudade.
A sua voz não me é tão familiar.
O menor gesto de carinho me constrange.
Não conheço o caminho que leva ao seu coração.
Eu não sei cantar a música da sua alma.
Acho que nunca soube te amar.
O que eu te ofereço, você não aceita;
talvez porque não compreenda.
Somos um projeto de plenitude.
Entretanto, nem todos os projetos prosperam;
alguns tornam-se irrealizáveis.
Papel queimado.
Vela derretida.
Fim da linha.
Resta somente um mosaico lancinante de remorso,
saudade, vontade, culpa.
Tenho ódio da minha infantilidade,
que me impediu de ser uma filha mais próxima.”




(Texto vencedor do XVI Concurso Nacional de Contos e Poesias da FAFIMAN - Faculdade de Filosofia de Mandaguari, PR, em 2004)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"Ah, vida real, como é que eu troco de canal?"


Na madrugada passada eu tive um pesadelo.

Sonhei que eu brincava de pique-pega numa rua super movimentada de Cachoeiro, mas no meu sonho, era uma rua sem saída e tranquila. E já estava de noite.

De repente uma senhora me falava apavorada que era pra eu ir pra minha casa e tomar muito cuidado com o tubarão, que essa era uma noite em que ele atacaria... eu ri, peguei as duas mãos dela e lhe disse, firmemente: “Olha, não existe tubarão nenhum, isso é uma lenda, uma bobagem sem sentido algum que o povo fala...”Mas ela continuou esbaforida e recolheu as crianças dela da rua.

Sabe como são os sonhos e os pesadelos... completamente desconexos... de repente eu estava deitada, em minha cama, no meu quarto. Coberta até à cabeça. E o quarto, era o meu, de criança, na casa em que vivi dos primeiros dias de vida até meus quinze anos... na "rua do Roberto Carlos"...

De repente comecei a sentir como se fosse um cachorro, sei lá, um bicho muito grande me roçando as pernas, soltando aquele bafo quente no meu pescoço, algo aterrorizante. Eu pedia pra parar, mas o animal continuava, em silêncio. Dele eu só ouvia a respiração, quente e profunda. No meu pesadelo eu tentei gritar pela minha mãe, duas vezes, com aquela voz de menina, agudinha... "Mãe, mãe!" mas a voz não saiu. Eu fiquei desesperada. No pesadelo eu já estava de joelhos sobre a cama, com a coberta nas costas, chorando, em desespero, aos prantos.

Daí eu tentei gritar pela minha mãe de maneira grave, quase falada: "mãããããe"...

Então, aqui, na vida real, eu acordei todo mundo. Eu gritei pela minha mãe na vida real também.

Acordei com as pernas muitíssimo cansadas, ofegante e até agora não sei se me senti realmente aliviada... talvez no meu pesadelo ela aparecesse, e faria dele, um sonho...

Senti uma profunda e indescritível tristeza em meu coração. No escuro, chorei baixinho, sob carinhos que tentavam me consolar, sem saber de nada: "Calma, fica calma, foi só um pesadelo, já passou, está tudo bem..."

Eu precisei dela nesta noite.

E eu trocaria minha realidade pelo meu pesadelo, só por mais alguns segundos, apenas para vê-la abrindo aquela porta e vindo ao meu encontro...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Por tão pouco...


Foi quase, né Felipe?!

Por muito pouco, Felipe Massa não levou o título de campeão mundial de F1 de 2008. Por 1 ponto, 1 ponto o deixou como vice-campeão...

Então, quanto vale 1 ponto?

Às vezes fazemos tão pouco de 1 ponto... às vezes fazemos tão pouco daquilo que nos parece pouco... entretanto, nem todo “pouco” é pouco, ou pelo menos, nos leva a mais um pouco... complicado, não? Muitas vezes um pouco nos leva a grandes feitos...

Quem borda sabe quanto vale 1 centímetro a mais de linha. Por vezes, faltando pouquíssimo, a bordadeira tem de arrematar, recolocar uma linhazinha pequenininha no fundo da agulha só para completar seu trabalho.

Há quem fique “pendurado” na escola por 1 ponto (isso deve dar uma revolta)...

Um bilhetinho para abrir o dia, alegra a alma até o anoitecer...

Uma notinha a mais na partitura dá o diferencial do acorde, da música...

Uma horinha bem aproveitada no final de semana, vale por toda semana que se passa longe de quem se ama...

Às vezes basta uma palavra para mudar o dia de outra pessoa. E quantas são as vezes que deixamos de fazê-lo por julgarmos uma palavra tão pouco?

As dimensões das coisas, das palavras, das pessoas estão completamente inversas nos dias de hoje. Uma palavra salva um dia. Uma palavra amaldiçoa uma vida.

O dinheiro não é tudo, mas tornou-se a grande procura da maioria das pessoas. E são poucas as pessoas que sabem que ter muito dinheiro não faz nem um POUCO de sentido para dar-lhes a felicidade.

Não deixe de fazer um pouco por julgar ser tão pouco. O mundo anda tão farto de frieza, que um pouquinho de calor humano já se faz notório, é quase que... terapêutico!

Se Felipe não tivesse perdido 1 pontinho nas corridas anteriores, hoje ele estaria consagrado como o grande campeão. Contudo, ele perdeu esse pontinho bobo, ficou dependendo dos outros...
(e pontinhos bobos às vezes não podem ser recuperados, nem nos campeonatos mundiais, nem na vida!)

Abrindo mão de pontinho em pontinho, podemos ser derrotados por nós mesmos. Vida que passa, sem graça, sem sentido... Felipe nos provou que 1 ponto ganha sim, um campeonato.

Um ponto é pouco. Mas faz toda a diferença!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Oba, hoje estou triste!!!

"220 desencapado
Sei que sou um desastre em potencial
De mão na cintura você me pergunta
se vai ficar mais alto o meu baixo-astral"
(Herbert Vianna)


Quando me sinto triste
as palavras vêm me visitar,
ficam farfalhando em volta de mim
E eu me faço de inocente,
fico quase imóvel,
analisando cada uma delas
E de repente eu acendo a luz,
pego caneta e papel
e as capturo, uma a uma, na folha
Isso me satisfaz, me alivia a alma,
me dá um prazer indizível...
Hoje eu acordei dissonante,
minhas sensações estavam esquisitas
minhas intenções, desafinadas
Comecei a trazer à memória
cenas que eu nunca vi,
que não me pertencem e que só me envenenam
Dei vida aos mortos
Provoquei os meus sentidos com questões sem sentido algum
Hoje eu preparei meu próprio veneno
e o bebi pausadamente,
sentindo-o descer vida abaixo,
estourando cada célula do meu sossego
Hoje eu me entristeci
por ver minhas fraquezas expostas a mim mesma,
por sentir medo de fantasmas (que absurdo!)

[Dizem que eu sou o cisne que ainda não se viu refletido
nas águas do lago e que ainda acredita ser o patinho feio]

Entretanto, o que fica disso tudo
são as palavras presas aqui na tela do computador
e a minha alma bailando leve outra vez...

(Aah... já começo a esboçar o meu melhor sorriso...
Que bela paisagem é a minha vida!)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

MARIA DA PENHA (às vítimas da violência doméstica)


Arrancaram os trilhos da cidade,
o trem já não passa de lembrança.
Ficamos ilhados,
sem comunicação com o outro lado da rua.
Nos condenaram às sentenças mais atrozes.
Deram-nos opções, as piores.
O campo está seco,
talvez falte-nos o pão.
Nessa terra que era minha,
abracei o estrangeiro,
convivi com o inimigo.
No ar pairava o cheiro do álcool.
Vi a face da covardia.
Ele, em suas mãos, trazia a força descontrolável,
covarde e odiosa.
Em seus olhos morava a maldade.
Num convívio ébrio e violento
tive a alma machucada,
conheci dores que, nem mesmo a eternidade me fará esquecer.
Mas,
de dor em dor,
de decepção a decepção,
minha essência não subjugou-se.
Lancei-me, então, à tempestade.
Andei pela minha cidade sem os trilhos,
meus passos tropeçaram no desconhecido.
Sem comunicação com outros corações, isolei-me.
E vi do alto o campo, outrora infértil,
agora encharcado de esperança...
...Nesse momento a minha alma recusa a dor.
Quando o dia amanhecer
Vou esticar meu coração sob o Sol
para que se evapore cada gota de humilhação
e fique em mim a certeza de que,
apesar dessa praga,
ainda verei meu campo lindamente florido.



(Seria este um desabafo ou apenas mais um devaneio do meu eu-lírico?!)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

12 de Outubro


12 de outubro, Dia das Crianças...

Quando eu era criança, os morros eram mais altos e as escadas, bem mais compridas. O engraçado é que não me cansava...
A roda gigante era muito, muito mais alta e o algodão doce do parquinho, muito mais fofinho!

Quando minha mãe me gritava do portão pra eu parar com a brincadeira com a molecada da rua, eu tentava ao máximo ignorá-la, até que não tivesse mais jeito, e eu fosse _contrariada_ pra casa. Hoje eu chego em casa e não há alguém me esperando; tanto faz se eu chegar duas horas mais tarde ou não chegar.

Quando eu era criança, gostava de ouvir conversa de adulto, ficava na espreita, atrás da porta, ouvindo os desabafos e os conselhos das amigas da mamãe e dela própria. Hoje, legal mesmo é ouvir as brincadeiras da minha filha com suas bonecas. (Papo de adulto é um saco!)

Eu achava que meu pai era um herói! Ele me colocava pra dormir (não sem antes me fazer um carinho nos cabelos e me dar um beijo de boa noite). Ele era um camarada amável e engraçado. Eu poderia jurar que ele me amaria para sempre... hoje, nos falamos _no máximo_ duas vezes por ano: no aniversário dele e, às vezes, no meu.

Minha mãe sabia tudo!
Ela continua sabendo, mas mora lá do outro lado do oceano.

Quando eu era criança, achava a ‘tia’ da escola linda e perfeita. Eu não sabia calcular a idade, nem o peso das pessoas. Hoje eu vejo, de vez em quando, a ‘tia’ da escola e não acredito como pude por tantas vezes querer ser uma mulher de rosto tão comum... ah, e acertar com precisão a idade das pessoas não tem gosto de nada... nada!

Quando eu era criança, passava tardes inteiras com meus lápis de cor e papéis em branco, criando e desenhando o mundo do meu jeito. Hoje ainda tenho lápis de cor e papéis em branco também. Mas minhas tardes são vazias, cheias de nada, imersas em saudades e preocupações. E se rabisco papéis, é para fazer contas. Ou a lista do que está faltando.

Quando eu era criança, eu dormia cedo, eu dançava em frente ao espelho, eu tinha uma amiga invisível! Hoje eu tenho insônia, não danço nem em pista de dança e tenho mais de cem contatos no celular. Amigos? Três, no máximo.

É, cresci. Cresci como acontece com todo mundo.

Hoje eu choro mais, a minha dor dói mais do que quando eu esborrachava o joelho no cimento grosso. Hoje eu tenho TPM, eu menstruo, tenho que arrancar pelos na cera fria. Hoje eu estou na vitrine de uma sociedade. Tenho satisfações a dar (ou pelo menos, tem gente vigiando, esperando diariamente por elas...)

Bom mesmo é ser criança. É dormir no meio da festa, no colo do pai. É arrancar os sapatos que apertam. É simplesmente não sorrir, caso não esteja a fim.

Ser poeta é estar criança. É ver mais cor, sentir mais sabor. É esquecer-se logo do machucadinho e correr pra brincadeira novamente.

12 de outubro é o “Dia das Crianças”. E quer saber?
12 de outubro é meu também!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Barbie Girl é o escambau!


Para quem só conhece meu lado poesia, eis aqui uma surpresa: eu sou meio revoltadinha com algumas (muitas) coisas desse mundo e tento me expressar com as palavras menos doces.

Sexta-feira passada, fim de tarde, chego com minha filha da escola e ela, numa felicidade radiante me diz: “mamãe, semana que vem vai ter festa na escola e eu vou dançar com a minha turma!!! Você quer ver?”

Sem titubear eu disparei: “Claro, Luísa! Dança pra eu ver se você está sabendo mesmo!” E, para minha triste (e quase suicida) surpresa, ela se posicionou e começou: “Sou a Barbie Girl, se você quer ser meu namorado, fica ligado, presta atenção na minha condição, é diferente, sou muito exigente...”

Eu, tão amante das palavras, não tenho sequer UMA para descrever meu desapontamento. Quem seria a irresponsável por tamanha afronta? A professora de Educação Física? Pega ela, agora!

Meu Deus, o que aquela infeliz e vazia da Kelly Key pode ensinar para minha filha e toda sua geração? Melhor eu nem me ater muito nisso.

Diariamente, ao levar minha filha à escola, eu observo os alunos que vão em volta da gente, sobretudo as alunas. Chocante. Meninas de 12, 13 anos, seminuas, com seus corpos expostos, falando num tom altíssimo, xingando os meninos, como se fossem um deles. Vez ou outra passo por uma criança esperando por outra criança. Será que elas já ouviram falar em Cartola? Tom? Vinícius? Toquinho?

Não é uma ciência exata, mas é quase. É evidente que a música influencia e denuncia direta e claramente o perfil e o comportamento das pessoas, sobretudo das crianças e dos adolescentes. Quando Luísa começou, toda empolgadinha, a dançar aquele lixo sonoro, eu fiquei do lado de cá, matutando “Meu Deus! Tanta coisa boa pra dançar, fazer coreografia e uma infeliz d’uma “professora” me vem com ‘Uma loura legal e que sabe o que quer, decidida, fatal, mas dengosa’”?

Pra começar, minha filha _ainda_ não é loura. Fatal? Meu Deus, por onde anda a beleza da infância, destilada, de tão pura? O que seria uma menina de 07 anos fatal? De novo, não quero nem pensar nisso.

É estarrecedor ver meninas de 07, 08 anos se vestindo como mini mulheres. Já não vejo meninas usando maria-chiquinha, sainhas rodadinhas, mas é constante vê-las maquiadas, de calças apertadinhas, meinha-arrastão, que avanço!

A única coisa que pude fazer como mãe foi massacrar minha raiva na hora e hoje, na segunda-feira, ir direto à diretoria da escola registrar minha indignação. Enquanto eu puder dar banhos de MPB, de ótimas letras e de conteúdos poéticos à minha filha, farei. Mas a guerra de braço é desigual, eu sei. Tudo na mídia hoje é “embalado” às batidas de Kelly Keys, de Perllas, de Latinos falando abertamente de sexo, bundas, bolinações, de “meninas fatais”... ah! Peraí, peralá!

Fiquei imaginando Luísa e sua turminha dançando “O Caderno” de Toquinho ou a sua “Aquarela”, ou ainda, o “Passarim” do Tom. Eu não sei o que vai dar na escola hoje, a diretora me assegurou que iria acabar com os ensaios e trocar a música.

Talvez pareça intransigência minha. Pensem o que quiserem, mas minha filha de 07 anos cantando, inconscientemente, que é uma vagabundinha fatal, nem pensar!

Barbie Girl é o escambau!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Classificados




Aluga-se um fim de tarde
Com direito a pôr-do-sol e doces palavras de brinde
O prêmio é oferecido por um coração sozinho,
Que deseja aplacar a solidão ao menos, nesse fim de tarde
Podem concorrer quaisquer abraços,
Ainda que não aparentem bom estado
_ neste caso, a aparência é o que menos importa
o que importa, são os Celsius que eles têm..._
Aluga-se um fim de tarde
E um par de ouvidos para ouvirem teus sons mais guardados
Aluga-se um fim de tarde
Com quatro pés entrelaçados sob a coberta,
No prenúncio da tempestade
Aluga-se um fim de tarde mobiliado de carinhos,
De todas as cores e tamanhos,
Com cheirinhos da nossa infância
Aluga-se um fim de tarde
Para descansar o corpo e reciclar a alma
Para esquecer das culpas e metades
Aluga-se um fim de tarde
Para quebrar o silêncio,
Para ter ao menos,
uma boa lembrança da vida.

Quem respira pra mim sou eu


Nem vem!
Não, não me venha com esse papo de que o gelo é gelado.

Eu quero é botar a mão nele e sentir eu mesma, na minha derme, epiderme, hipoderme, tudo o que for derme, enfim! Eu quero é sentir em mim mesma se ele é, de fato, gelado.


Não, não me dê dicas, conselhos... nada disso! Deixa que eu me queimo sozinha!


Pou um objetivo eu tenho tanto calor, que sou capaz de derreter o gelo e vê-lo caindo em gotas por entre meus dedos, pingando no chão, desenhando teu nome...
E se meu calor não for suficiente...
Então o gelo me tomará por inteira, até que a sua frieza toque meu coração.
Mas não terei um coração frustrado, não... ele ficará por algum tempo gelado... mas lá no fundinho, aquecido...



...arriscar (além de emagrecer!) é uma delícia!!
E sempre vale a pena!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Parede em branco



Hoje eu acordei com uma sensação estranha. Não era exatamente um mau humor... era uma introspecção, aquela que te provoca uma vontade de ser invisível, pra que nenhuma outra boca venha te perguntar alguma coisa... acordei com um desprezo profundo pelo telefone e justo hoje ele tocou bastante, tocou e retocou... até arriar a bateria... Eu não quero falar com (quase) ninguém. Claro que até pra mau humor ou introspecções... seja lá o que isso for... há as exceções. Se minha inspiração ligasse para mim, eu atenderia com um sorriso na voz: “oi, amor! É maravilhoso falar com você!”.... “Ah... que dia lindo, não?!” Excepcionalmente adoraria o dia, ainda que por um, dois minutos... o tempo que durasse a ligação. Ou talvez pelo resto do dia, mesmo!

É, mas a inspiração não ligou...

As palavras têm me atormentado, não me deixam mais dormir. Fecho os olhos e elas começam a vir... “poemas, problemas”... “mau humor, introspecção”... daí, já viu, né? Quem dorme? Levanto correndo, acho um toco de papel e derramo as palavras...

Dia desses tive um aborto semântico... poético, gramatical, sei lá... eu estava sonhando com uma poesia (é, poeta sonha é com poesia... essa coisa do amor amado... é pra quem lê, não pra quem escreve...) então, eu estava sonhando com uma poesia. Não pense que era uma cena de amor: eu e poesia, um beijo molhado... claro que não... No meu sonho havia uma casa, de paredes rosa clarinho, e numa delas, (que era branca) tinha pátina, toda espiralada... e pela janela eu podia ver um jardinzinho, simples e floridinho... eu conversava com não sei quem... (talvez sozinha, repetindo a realidade), eu apenas ouvia a minha voz em bom tom, falando o tal poema que talvez nunca mais vai nascer... falava em “dia cinzento como a Irlanda do Norte”, em “gelatina de sombra”...

Não me lembro de mais nada... aqui, no mundo cruel e real, tocaram a campainha... dei um pulo da cama e acabou-se poesia... E a visita inesperada pergunta: “estou te atrapalhando?” E eu respondo: “ ’magina!!!” ( e resmungo: “Você só abortou uma poesia...”)
Ai, minha poesia... Ela estava tão formadinha... imagino seu nomezinho como seria... mas foi tão súbito, que não tive tempo de vir acordando e, como num ritual, ir capturando as palavras borboleteando em minha mente... só agarrei pelo pé essas vagas idéias...
Um dia, quem sabe, eu não junte esses restos de sonhos a outros e crie uma obra-prima?

Mas eu sinto saudade daquela casa, de pátina espiralada, do tom pueril do rosa nas paredes... talvez eu volte... mas isso é quase impossível...

Hoje está um dia assim, meio irlandês, de baixa temperatura, de chuvinha fina e gelada, de céu gris, sem graça... e eu, bombardeada pelas palavras, introspectiva, mas já disse: não é mau humor! Coisas de TPM, talvez... e eu não quero falar com ninguém, mas esse silêncio me endoida...

Liga pra mim?!