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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Estranha Intimidade


“Seu colo, talvez, seja o último que eu reconheceria.
Mesmo à luz do dia, eu não o saberia.
Da cumplicidade que nunca tivemos
é que sinto mais saudade.
A sua voz não me é tão familiar.
O menor gesto de carinho me constrange.
Não conheço o caminho que leva ao seu coração.
Eu não sei cantar a música da sua alma.
Acho que nunca soube te amar.
O que eu te ofereço, você não aceita;
talvez porque não compreenda.
Somos um projeto de plenitude.
Entretanto, nem todos os projetos prosperam;
alguns tornam-se irrealizáveis.
Papel queimado.
Vela derretida.
Fim da linha.
Resta somente um mosaico lancinante de remorso,
saudade, vontade, culpa.
Tenho ódio da minha infantilidade,
que me impediu de ser uma filha mais próxima.”




(Texto vencedor do XVI Concurso Nacional de Contos e Poesias da FAFIMAN - Faculdade de Filosofia de Mandaguari, PR, em 2004)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"Ah, vida real, como é que eu troco de canal?"


Na madrugada passada eu tive um pesadelo.

Sonhei que eu brincava de pique-pega numa rua super movimentada de Cachoeiro, mas no meu sonho, era uma rua sem saída e tranquila. E já estava de noite.

De repente uma senhora me falava apavorada que era pra eu ir pra minha casa e tomar muito cuidado com o tubarão, que essa era uma noite em que ele atacaria... eu ri, peguei as duas mãos dela e lhe disse, firmemente: “Olha, não existe tubarão nenhum, isso é uma lenda, uma bobagem sem sentido algum que o povo fala...”Mas ela continuou esbaforida e recolheu as crianças dela da rua.

Sabe como são os sonhos e os pesadelos... completamente desconexos... de repente eu estava deitada, em minha cama, no meu quarto. Coberta até à cabeça. E o quarto, era o meu, de criança, na casa em que vivi dos primeiros dias de vida até meus quinze anos... na "rua do Roberto Carlos"...

De repente comecei a sentir como se fosse um cachorro, sei lá, um bicho muito grande me roçando as pernas, soltando aquele bafo quente no meu pescoço, algo aterrorizante. Eu pedia pra parar, mas o animal continuava, em silêncio. Dele eu só ouvia a respiração, quente e profunda. No meu pesadelo eu tentei gritar pela minha mãe, duas vezes, com aquela voz de menina, agudinha... "Mãe, mãe!" mas a voz não saiu. Eu fiquei desesperada. No pesadelo eu já estava de joelhos sobre a cama, com a coberta nas costas, chorando, em desespero, aos prantos.

Daí eu tentei gritar pela minha mãe de maneira grave, quase falada: "mãããããe"...

Então, aqui, na vida real, eu acordei todo mundo. Eu gritei pela minha mãe na vida real também.

Acordei com as pernas muitíssimo cansadas, ofegante e até agora não sei se me senti realmente aliviada... talvez no meu pesadelo ela aparecesse, e faria dele, um sonho...

Senti uma profunda e indescritível tristeza em meu coração. No escuro, chorei baixinho, sob carinhos que tentavam me consolar, sem saber de nada: "Calma, fica calma, foi só um pesadelo, já passou, está tudo bem..."

Eu precisei dela nesta noite.

E eu trocaria minha realidade pelo meu pesadelo, só por mais alguns segundos, apenas para vê-la abrindo aquela porta e vindo ao meu encontro...

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Por tão pouco...


Foi quase, né Felipe?!

Por muito pouco, Felipe Massa não levou o título de campeão mundial de F1 de 2008. Por 1 ponto, 1 ponto o deixou como vice-campeão...

Então, quanto vale 1 ponto?

Às vezes fazemos tão pouco de 1 ponto... às vezes fazemos tão pouco daquilo que nos parece pouco... entretanto, nem todo “pouco” é pouco, ou pelo menos, nos leva a mais um pouco... complicado, não? Muitas vezes um pouco nos leva a grandes feitos...

Quem borda sabe quanto vale 1 centímetro a mais de linha. Por vezes, faltando pouquíssimo, a bordadeira tem de arrematar, recolocar uma linhazinha pequenininha no fundo da agulha só para completar seu trabalho.

Há quem fique “pendurado” na escola por 1 ponto (isso deve dar uma revolta)...

Um bilhetinho para abrir o dia, alegra a alma até o anoitecer...

Uma notinha a mais na partitura dá o diferencial do acorde, da música...

Uma horinha bem aproveitada no final de semana, vale por toda semana que se passa longe de quem se ama...

Às vezes basta uma palavra para mudar o dia de outra pessoa. E quantas são as vezes que deixamos de fazê-lo por julgarmos uma palavra tão pouco?

As dimensões das coisas, das palavras, das pessoas estão completamente inversas nos dias de hoje. Uma palavra salva um dia. Uma palavra amaldiçoa uma vida.

O dinheiro não é tudo, mas tornou-se a grande procura da maioria das pessoas. E são poucas as pessoas que sabem que ter muito dinheiro não faz nem um POUCO de sentido para dar-lhes a felicidade.

Não deixe de fazer um pouco por julgar ser tão pouco. O mundo anda tão farto de frieza, que um pouquinho de calor humano já se faz notório, é quase que... terapêutico!

Se Felipe não tivesse perdido 1 pontinho nas corridas anteriores, hoje ele estaria consagrado como o grande campeão. Contudo, ele perdeu esse pontinho bobo, ficou dependendo dos outros...
(e pontinhos bobos às vezes não podem ser recuperados, nem nos campeonatos mundiais, nem na vida!)

Abrindo mão de pontinho em pontinho, podemos ser derrotados por nós mesmos. Vida que passa, sem graça, sem sentido... Felipe nos provou que 1 ponto ganha sim, um campeonato.

Um ponto é pouco. Mas faz toda a diferença!