Seja muito bem-vindo ao Copo de Letras!! Sirva-se sem moderação. ;)

domingo, 25 de outubro de 2009

3ª do singular


Ele entrou sem fazer barulho
e tomou conta do pouco que ela era
Antes dele
ela nem sabia que o amor existia
Mas ele criou para ela
um cenário de paz
e a paz deu medo nela,
medo de voltar à sua semi-vida
Então ele apagou todas as marcas
que os pés dela deixaram pelo caminho
Assim, voltar ela já não podia
e ainda que voltasse,
em si mesma ela não mais caberia
Ele fez-se o amor em sua vida,
como uma flor exuberante
a enfeitar galhos secos
e tão cheios de desesperança
Ele revelou-se a cor mais linda, a preferida
e a palavra que a ela faltava
Ela desejou ter o mesmo destino dele
e ser todo dia, a sua paixão
Mas nem sempre ele está com ela
e por isso ela quase enlouquece
À noite
a saudade os espanca
e a distância os deixa aflitos
Há noites
em que ele sente os pensamentos dela
o tocando e beijando-lhe a face
E ela percebe as asas de seu carinho
sobrevoando a sua cama
Todas as noites
as estrelas contam para ela
que dele fluem notas tristes
E ela perde os sentidos
Arde de saudade
Delira de ciúme
Respira vontades
e chora poesia.




terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ai que sodade docê...


Saudade não é vontade. Porque vontade passa.
Saudade me desafia e se instala aqui, até que você finalmente volte...
Saudade é teimosia.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Artes em Guerra


Estamos em guerra
A tortura é a ausência
e a sentença de morte é a saudade
Tu me atacas com música
Eu contra-ataco com poesia
Clave de sol, clave de fá
Lirismo, trovas e versinhos
melodiando duas vidas silentes
poetizando dias gris
E nesse combate replicante
Tu me cercas com acordes lindos
e eu me rendo com palavras de mel
Nos abraçamos nesse bombardeio de bem-querer
Nos colocamos na mira, de peito aberto
E soltos, pelo mundo dissonante,
Tua musicalidade me guarda
e minha poesia te quer.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Mel com casca de Ferida


O amor em silêncio é feito mel com casca de ferida
É doce, mas sangra
O amor em silêncio é feito água parada
está meio viva, meio morta
O silêncio fala
o amor às vezes cala
A noite não passa
o dia acelera
O amor espera
a vida urge
Silêncio
Carinhos
Silêncio
Mimetismo
Silêncio
Tormento
Silêncio
Mel
Silêncio
Ferida
Silêncio...
melzinho com casca de ferida...
Silêncio...

Como é difícil a digestão das migalhas!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Poesi-ar


Abro os meus olhos
Tudo é resto:
meu todo é resto
Há cacos de esperança
espalhados pelo chão
Preciso multiplicar frações
Sinto as pontas afiadas do silêncio
ferindo o que eu luto para manter intocado
O ar me falta
Meu coração dispara aflito,
corre para o precipício da exasperação
e grita um caminho
que meu corpo já não aguenta mais seguir
Preciso escrever
Morrer em palavras
Matar-me em figuras
_explosões em catarses
suicídios sem eufemismos_
Renasço
Não mudo a realidade
O todo continua resto
O silêncio faz sangrar os meus sentidos
Mas depois do grito,
depois da morte em palavras vivas,
Revivo
Acho que ainda tolero um pouco mais isso.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Papo de terapia...


Dia desses tive o sono da tarde abortado pela campainha... putz! Quem se atreve a me incomodar nessa hora tão sagrada? Depois de tantas tentativas e de toquinhos no celular, vi-me obrigada a atender...

Era uma pessoinha tão especial, que eu não me perdoaria em ter optado pelo meu maravilhoso sono... e por questões éticas, não direi de quem se trata...


:)


Entretanto, passamos algumas horas juntas e, ao contrário do que muita gente pensa, não somos puramente duas palhaças que vivem às gargalhadas, fazendo piadas de qualquer coisa ou relembrando historinhas de nosso passado pueril... o fato é que naquela tarde (nada vazia!) tivemos uma conversa tão visceral que estou meio enjoada até agora...


A questão foi: "do que eu gosto? Em quê eu sou especialista ou, em quem?"


Estaríamos nós antenadas ao novo?
Seríamos nós grandes conhecedoras do que é "impossível não conhecer"??


A princípio, chegamos a uma triste constatação... não! Não somos preconceituosas com o novo, mas um tanto resistentes. Não temos paciência para descobrir um novo Cd, um novo autor, um novo filme (por mais tradicionais que sejam). Isso até sentirmos um profundo interesse que vem ou do nada, ou de alguém especial.


Daí quase choramos. Sentimo-nos rasas por um breve instante.


Altos devaneios... análises profundas... papo de terapia...


Bem, confesso que não gosto mais tanto assim de coisas que eu gostava há alguns anos. Confesso também que descobri coisas novas... somos fases... um dia uma música nos revela o mundo; noutro... já não estamos tão interessados nesse mundo assim...


Rimos. Descobrimos que não paramos no tempo. Não, não somos rasas... não sabemos todas as músicas de um determinado compositor... não lemos todos os livros de um único autor... somos mosaicos... temos fragmentos de cada um que fez parte de cada fase de nossa história... e não há nada de raso nisso...


Torço o nariz mesmo para certas novidades... volta e meia me vejo deslumbrada por uma arte que já me foi apresentada antes, mas nem prestei atenção. Simplesmente não era o momento. Talvez resida nisso a beleza indizível da arte: seu poder de ser antiga, mas sempre fresca...


Depois dessa tarde de sono abortado... não me sinto mal em dizer que não conheço coisas que pessoas ao meu redor acham vitais... tipo: "Massa Janis Joplin!! Você gosta, né?!" E eu simplesmente respondo: "Não conheço nada dela!"


... a cara das pessoas... coisa indescritível... "Como assim você não conhece Janis Joplin? Em quê planeta você vive, menina?"


Aiai... a partir de hoje, tenho a resposta: "No meu planeta! E aqui, as coisas acontecem quando têm que acontecer... não adianta marcar um encontro com essa tal de Janis, porque eu (ainda) não vou!!"


E no mais... sou especialista em muita coisa sim... em um pouco de tudo... em nada de muita coisa... mas em nenhuma sou completamente especialista. Sou livre. E talvez amanhã, em uma esquina desse meu mundinho... quem sabe, eu não tope com a Janis???

terça-feira, 16 de junho de 2009

Juntar pedaços


Acordo para viver
minha vida lenta acelerada
Por quem arranco meus pelos em dor?
[aqueles olhos não querem ver]
Esboço rabiscos do futuro,
são traços cheios de vazio
Por quem espero?
[não vou enlouquecer no cais]
Vivo de óbvios obscuros
Respiro nexos desencontrados
Em escala industrial
vou estocando meus desvarios
Por quem mergulho em sonhos?
[somente eu durmo _ e durmo para esquecer]
Meu calor é desbancado por uma avalanche
de bytes frios e programados
Por quem choro?
[aquele peito é impermeável]
Virei fantasma em carne viva
Nada é real, tudo é anseio
Nada é movimento, tudo é igual
Bebo descaso em doses homeopáticas
Juntar pedaços
Montar inteiros
Sou inteira pedaços.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O Mar (à minha amada mãe)


O mar
criação esplendorosa de Deus
abriga vida, é forte, atrai olhares maravilhados...

Mãe
criação esplendorosa de Deus
abriga vida, é forte, atrai olhares maravilhados...
mãe, tu és mar!

Pois em ti há vida,
Pois tu me deste a minha vida,
Indo e vindo, indo e vindo...
Muito agitada, se necessário,
Um tanto violenta em tuas convicções,
Tão cristalina a qualquer momento,
Calma, quando eu preciso chorar,
Indo e vindo...

E, por mais que eu me afaste de ti,
Bem sei onde te encontrar,
Pois tu és mar!

Mãe,
Da vida eu nada sei
Talvez, um dia
eu deixe de ser uma simples poça
e seja agraciada com a bênção de também ser mar...

Contudo
enquanto esse dia não chega
Ensina-me com a tua transparência
e ama-me, com toda tua força

Bem sei que, mesmo que um dia eu seja mar,
Para ti nunca deixarei de ser
Uma pocinha indefesa
Mas isso não me incomoda,
Pois és, para mim também,
Muito mais que o próprio mar,
Um oceano, de maturidade, exemplo, respeito, amor...

Sim, mãe, sou a tua continuação
E, pelos oceanos, em toda a Terra
Essa sublime sucessão sempre ocorrerá,
Até que o Criador nos leve...

...ficarão então, nas pocinhas,
os exemplos, a saudade e o amor, eternizados...
e eu te amarei por cada exemplo,

em toda saudade e profundo amor... para sempre!!





ESTA É A MINHA SINGELA HOMENAGEM A TODAS AS MAMÃES PELO NOSSO DIA, COMEMORADO NESTE ANO EM 10/05!!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

T.P.M.: Tocou, Perguntou, Morreu


Hoje eu li algumas definições para a TPM:

Todos Problemas Misturados, Tendência a Pontapés e Murros, Tô Pirada Mesmo, Tire a Porcaria da Mão, Tente no Próximo Mês, Tempo Para Meditação, Totalmente Pirada e Maluca, Total Paranoia Mental e Tendência Para Matar (ótima essa!!)

A que mais se enquadra comigo vai no título desse meu desabafo...

É, ser mulher não é nada fácil. Os homens reclamam desse nosso estágio mensal, mas só nós mulheres é que sabemos que o buraco, definitivamente, fica mais embaixo...

Na TPM eu fico completamente louca. Meus chegados reclamam das minhas variações hormonais, mas o que eles não sabem, é que eu também não me entendo; sou imprevisível pra mim mesma. Faço coisas que não faria, sinto desprezo profundo por tudo o que eu realmente amo, eu choro e, sobretudo sofro, sofro muito, pois TPM pra mim, é também, um período de altos remorsos, daquelas coisas pequenas, que ficaram láááá atrás, mas que minha mente insiste em remoer...

TPM é chata mesmo. Meu corpo dói todo, eu incho, se vejo uma folha seca ao vento, dano a chorar (sensibilidade dolorida e extremada), também tenho graves ataques de riso, nervosismo a mil, coragem pra dar na cara de qualquer imbecil que me atrase... é tudo muito, tudo plus, tudo mega, tudo hiper, extra super...

Eu sempre defendi uma ideia de que deveria ser instituída uma lei para as mulheres em franca TPM, a “Lei da Jaula”. Uma vez detectada: “Opa, essa não sou eu, essa sou eu na TPM”, a mulher deveria desfrutar do direito de isolamento, variável de 7 a 10 dias. Nesse período, ela iria pra jaula, um canto especial, com muitos chocolates, travesseiros, Cds de músicas suicidas, talvez uma TV, mas tudo em perfeito funcionamento (caso contrário, já viu...) bem longe de filhos, crianças, maridos, sogras, vizinhos, chefes, em suma, longe de seres humanos! Alívio garantido para nós e, sobretudo para os pobres mortais que convivem conosco!

Quero pedir profundo perdão àqueles que sofrem com minhas patadas, explosões, ou ainda, com a minha indisfarçável cara de nojo. Nunca vou _ou vamos_ conseguir explicar esse turbilhão de transformações hormonais, que é avassalador.

A TPM virou tema de piada, mas garanto que ela mata. Se não mata a mulher, ela mesma mata alguém. Acreditem, tudo o que eu mais queria era ser sempre um anjinho e jamais me digitransformar no incrível Hulk!

Portanto, não considerem absolutamente nada do que dissermos ou expressarmos nesse período.
Apenas respirem fundo.

E se possível for, para a "felicidade geral da nação", mantenham distância!!!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ah, aquela maluquinha...


Difícil é saber o que foi que ela viu,
se eu não tenho nada demais,
se trago comigo um histórico até meio ruinzinho...
Ao longo de minha vida, ganhei rótulos implacáveis:
para alguns, sou um tirano, um camarada frio e indiferente
Não sou compreendido por minhas escolhas peculiares,
mas escolhi mesmo andar na contra-mão.
E aquela maluquinha que eu não sei o que viu em mim,
ela me olha com uma ternura tão grande, que me deixa até meio sem jeito
E não, eu não tenho nada demais, mas pra ela eu sou o rei,
ela me trata como cristal
e encontrou meu ouro, há muito escondido dentro de mim;
ela ama minhas peculiaridades, celebra todas!
Contudo, às vezes eu tenho receios e não aceito a aceitação dela,
pois não me é possível pensar que alguém aceita tamanhas estranhezas
Me isolo, desconfio de mim mesmo
e fico matutando... 'Deus! O que foi que ela viu em mim?'
Em meu silêncio profundo não encontro respostas,
sinceramente não sei o que ela vê em mim,
mas adoro ser tratado como cristal!
E pra falar a verdade... vou parar de meditar nisso,
estou perdendo tempo de vida boa;
vou simplesmente aceitar que ela me ama
e buscar com ela a felicidade!!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O Sol e a Vó


"O sol brilha

a traça se cria

a xícara fica fria.

Inha! Inha!

A vó xinga

e fica a Chica

fria, fria..."

(Autora: Luísa Nunes Pinheiro, minha filha de 08 anos)

Merecidas aspas... essa menina tem arte na veia!!!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

1º de Abril - Dia da Potoca



1º de Abril. O que há de diferente nesta data? Por que ela ainda consta no calendário como um evento, se ela já é nossa, do cotidiano, um verdadeiro patrimônio cultural?!
No dia da mentira as pessoas mentem. A diferença é que logo depois elas se revelam, confessam que mentiram. (E todos se divertem, que coisa...)
Seria diferente sua conduta nos outros 364 dias do ano? Seriam dias da verdade?
...
O mundo está tão tresloucado que falar a verdade é algo desagradável, constrangedor, coisa de gente ranzinza, mal humorada, grossa, sem noção mesmo. O conceito da verdade está desfigurado, corrompido. As pessoas estão acomodadas a ouvir mentiras perfumadas, mentiras bem construídas ou descaradas mesmo, já não faz diferença... a verdade é que é muito melhor ouvir mentiras. (ui!!) Verdades são cruéis, são frias, ferem corações, magoam almas... mentiras maquiam a realidade, disfarçam as imperfeições da vida, atenuam o sofrimento... É???
...
As pessoas estão cada vez mais e mais potoqueiras, ainda que se levantem provas a favor da verdade, ainda que seus olhos gritem o contrário. Convivemos com mentiras de todos os gêneros, do “boa sorte” mal intencionado às fraudes descomunais da política. Tem mentirinha, tem mentirão... tudo a mesma porcaria.
...
Não há sentido algum em fazer menção ao dia da mentira. Genial seria instituir o “Dia da Verdade”, um dia inteiro dedicado a falar verdade. Topa? Ah, fala a verdade!!!



(Segundo o Aurélio, potoca significa mentira. Potoqueiro, mentiroso.)

Lembrou-se de alguém?

terça-feira, 24 de março de 2009

Ponto de vista


Ela, com o rosto inchado, de tanto chorar.
Moça nova, problemas gigantes, de gente mais velha.
Chorou por algumas horas a fio,
fez no travesseiro, uma poça de lágrimas e de restinho da maquiagem.
Resolveu ir até o banheiro lavar o rosto,
estava desolada, chegara à exaustão.
Não acendeu a luz, aproveitou a luz que vinha da sala,
estava evitando se ver no espelho.
Na penumbra,
deu três passos em direção à pia e abriu a torneira.
Percebeu então algo diferente na parede, bem ao seu lado;
arrepiou-se toda e deu um pulo para trás.
Viu-se obrigada a acender a luz para ver o que era aquilo.
Tudo mudou então.
Talvez outro coração veria um bicho-folha,
um mais cético teria visto um Heteropteryx dilatata...
...o seu coração porém, viu uma simples esperança.
E nada lhe seria mais oportuno...
Lavou então, o rosto ainda riscado das lágrimas,
mas sua alma já estava diferente.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Estradas


Dentro de mim há longas estradas
Que se queimaram com o sol dos imprevistos da vida
Em seu chão quente
não posso pisar com meus pés descalços
E quando caem as noites
Minhas estradas ficam geladas
Nelas
Sopra o vento das frias solidões
E minha pele arde nas profundezas de maciças tristezas
Tenho marcas de acidentes terríveis
Meu coração é de vidro
e já se quebrou em muitas esquinas erradas
Mas sou uma andarilha
que não se cansa em procurar pelo seu destino
E que às vezes já se perdeu em tantos [des]caminhos
Já confiei em placas de cores vibrantes
e por elas cheguei a destinos indesejados
Já fui forasteira em minhas próprias estradas
e agora eu sei que caminhos difíceis
também são caminhos
Quero chegar onde mora o amor
À sua sombra
Fico menos exposta aos sóis da vida real
e ao frio cortante das solidões
E assim eu vou pelas estradas que sou
Sou estradas de concentração
Sou estradas de taquicardia
Sou estradas de acelerações viscerais
E de tremedeiras também
Sou estradas de fomes e de sedes
De dedos estalados e de palavras sussurradas
De lindas paisagens e de lágrimas menores
Sou estradas de viagens inesquecíveis
e de luzes ofuscantes, que iluminam olhos atentos
_ou cegam olhos fracos
Mas somente quando amo é que sou livre
Corro para o amor pelas minhas estradas tortuosas
Ele é meu destino, meu destino de liberdade
Por ela me renovo a cada amanhecer
É a esperança de encontrá-la que me move
Em seus braços hei de alcançar minha paz,
descansar meu coração e libertar-me dos dias tristes
Sendo o amor em liberdade, meu destino,
meu perfeito destino em paz, liberdade e amor.


domingo, 1 de março de 2009

Pavor de Janela


Ela é linda. É meu amor.
Já lhe ofereci tudo,
Mas ela, educada, apenas agradece.
Às vezes eu a vejo em pé, próxima à janela,
Com a cabeça encostada no vidro
E com olhar absorto, misterioso
Finjo não perceber sua saudade, suas vontades vãs
Quase morro
Com aquele resto de sorriso em sua face.
Ela gosta de janelas
Janela da sala, da cozinha, do carro, de trem....
Sempre ela, os pensamentos, o resto de sorriso e o olhar de janela...
E quando ela nota que eu a observo
Logo fica séria
E pergunta se eu quero alguma coisa
Desapontado, sempre respondo que não
Mas eu sei que sim
(e ela também sabe)
Nisso tornou-se a nossa vida:
Ela bebendo minhas sobras de esperança
E eu a flagrando feliz nas janelas
Em paisagens onde não posso tocá-la,
Onde eu sequer existo.



(Publicado na Revista Cachoeiro Cult, edição de Fevereiro de 2009)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

É dia de feira



Hoje é domingo. Para a maioria das pessoas, dia de ir à feira.
Acho que eu também vou, estou precisando de umas coisinhas por aqui, coisinhas tão importantes quanto os temperos na comida...
Vou buscar um fardo de carinho, porque tem-me faltado há algum tempo...
Vou buscar também uma caixa grande de alegria, é tão baratinha, sinto-me até um pouco constrangida por não tê-la com frequência...
Quero também um pacotinho de zelo. Sinto muita falta de zelo na minha vida, e é tão gostoso sentir que há zelo na vida da gente...
E vou ver se consigo tudo isso por saudade. É, vou tentar trocar a minha saudade pelo carinho, pela alegria e pelo zelo.

Pois saudade é tudo o que eu tenho.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Palpite


“_ Ele não vai ligar, ele não vai ligar.”

No apogeu de sua espera, essa certeza lhe entristecia como uma sentença. Numa cadência prestíssima, a tristeza lhe acometia. Uma tristeza profunda, solitária; uma tristeza desmedida.

Dentro de si ela sentia a tal tristeza misturar-se com seu sentimento bom numa simbiose tão perfeita, que ela já não sabia onde começava a tristeza, aonde acabava seu sentimento bom.

E essa sensação lancinante a tomava por inteira, fazendo-se insuportável em seu coração. Sentia seu corpo doer. Sentia seu corpo chorar. Chorava o corpo, chorava a alma.

Ela, pelas grades da janela, olhava o céu triste. E o céu parecia compreendê-la. Como uma atitude de solidariedade, estava gris, abatido e chorando. Sim, chovia. Sem vestígio de luz, sem o menor sinal de alegria ou de vida.
Ela, transida de melancolia, sentia a face queimada pelas lágrimas que morriam, ainda quentes, sobre suas pernas.

Naquela tarde deveras infeliz, prostrada, dilacerada, ela contemplava suas impressões. Do que se tratava? Não sabia. Apenas percebia que era um sentimento indelével. E pior, visceral.

Seu peito doía. Parecia-lhe que nele não cabiam tantos (e tamanhos) anseios. Pressentiu uma síncope. Numa tentativa de abreviação dos sentidos, pensou em morrer. Tratava-se de uma avalanche de sentimentos tão violenta que, de fato, sugeria-lhe a morte. E no ápice de seu tormento, desesperada, ela achava isso natural. Contudo, logo se refez:

“_ Cruzes!”

A moça fechava forte os olhos. As lágrimas escorriam-lhe pela face mais ativamente. Seu choro agredia a própria natureza; seu pranto fazia-se mais forte que a chuva.

“_ Ele não vai ligar, ele não vai ligar.”

Um axioma assombroso. Corrosivo.

O silêncio de seu amado tirava-lhe o chão. Poderia até não significar nada, nada grave, mas multiplicava nela um medo atroz. Medo de perdê-lo. Medo de que ele tivesse desistido.

Desesperação. A dor tornava-se ainda mais aguda. Dor, dor, somente dor. O sentimento bom passara.

“_ Meu Deus, o que é isso, o que é isso que não tem fim?”

Questionava em vão. Sentia saudade. Saudade do carinho dele, de sua voz. Saudade de seu desenho contra a luz, de seus segredos. E de suas células. Todas.

No frescor de sua juventude ela tinha o mundo nas mãos. Entretanto, o desprezava. Nada a fascinava. Ninguém, senão seu amado, a encantava. Tornara-se inacessível; a castidade não era a ela, sacrifício algum. Entregava-se apenas a ele. A nenhum outro. Somente ele podia tocar-lhe secretamente.

Num lampejo de agonia, tomou o papel e uma caneta. Tentou escrever algo, mas fracassou. Palavra alguma fora capaz de expressar com exatidão o que vivia naquele instante.

Aflita, ela apertava o próprio corpo, suplicava:

“_ Ai dor... passa, passa pelo amor de Deus, passa...”

Naquela tarde, sua tristeza estava mais triste. Seu coração era um mosaico alucinante de bem e de mal estares.

Sentia uma coragem que quase a assustava. Ela pensava nas gentes e em suas opiniões. Pensava em escândalos e em falácias. (Era muito mais nova.) Mas seu coração escolhia, inexoravelmente, o amado. Cada vez mais ela se importava menos, se importava nada com os conceitos alheios. Ela o queria, o desejava sequiosa e ardentemente.

Naquela tarde de chuva e de melancolia, ela precisava apenas ouvi-lo. Bastaria-lhe. Talvez isso fosse mendicância. Ela preferia chamar de simplicidade.

Já não sabia mais se queria morrer. Talvez fosse melhor viver. É, viver... vivê-lo! Isso, vivê-lo inteiramente, com o peito dormente de dor, com o corpo fremendo de amor, delirante de paixão, demasiadamente passional... vivê-lo!

Sim, decidira viver. (E do jeito que irradiava certeza, sua respiração bastaria para persuadi-lo.) Uma coragem devastadora ajuntava-se agora à sua tristeza.
Silêncio.

O céu continuava contristado, contudo, havia parado de chover. A dor em seu coração abrandara-se. Ela, melíflua, pensou em seu amado. Com a face ainda riscada pelas lágrimas _ evidências de sua devoção _, fechou os olhos e sorriu, ternamente.

E numa inocência quase que pueril, arriscou:

“_ Que estranho... acho que estou apaixonada...”

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Lá vai a desvairada...


“Lá vai a desvairada.
Sai pelo mundo a se perguntar...
Sua felicidade, por onde andará?
Conta os trocados...
Come um pão (pro Toddynho não vai dar)
Olha as vitrines,
vê um mendigo: ele quer atenção, (ela também!!!)
Lê as placas de propaganda
e dos nomes das ruas...
Chega ao trabalho, nem percebe...
Lá vai a desvairada...
E sua felicidade, por onde andará?
Segue uma luz colorida,
desvia de carros aflitos,
se molha com a chuva imprevista,
não tem uma sombrinha florida.
Vê um cachorro abandonado, ele quer atenção (ela também!!!)
Conta os trocados...
Talvez dê para comprar o perfume do frasco bonito...
Ela pinta o rosto,
Ouve Cazuza,
Consulta o horóscopo,
Vê seus álbuns de fotografias
(e se culpa por já ter sido melhor um dia).
Pensa no carinha da faculdade,
no namoradinho do pré,
no vizinho casado
e no amigo da amiga...
E sua felicidade, por onde andará?
Pega a almofada de estimação no armário
e toma remédios para dormir.
Lembra-se da cachoeira de água fria,
dos caramelos de papéis prateados da infância,
dos cabelos (que já foram compridos)
e do jeans desbotado que cabia.
Esquece da televisão ligada...
...
Acorda
E tudo continua tal qual ela deixou (que tédio!)
Atende ao telefone e ri,
Se encontra no anonimato,
beija a boca e se entrega...
Olha-se no espelho, que linda!
Conta os trocados...
Ainda não dá pra morar sozinha...
... de volta ao mundo real...
Pensa em algodão doce,
mas em sua vida não tem açúcar.
Abre a janela e vê o sol...
...mas, que estranho...
ela continua molhada de chuva.
Meu Deus! Lá vai a desvairada...
Sai pelo mundo a se perguntar...
... sua felicidade... por onde andará?"


(A desvairada sabe-se desvairada... um beijo, querida!)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Receitas para Morrer


# Ame menos;


# Diminua a intensidade;


# Divida o foco;


# Seja mais comedida;


# Tenha atitudes mais responsáveis.


( Nas entrelinhas: MORRA. )

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Casa Nova


Não me traga palavras bonitas
para sossegar meu coração, não.
Se tens medo, me diga:
Pode ser que eu o encoraje,
Mas não me traga palavras bonitas
Para apenas manter-me atrelada.
Não haverá outra chance:
Se vamos morrer em frustrações
Ou em êxtase profundo,
Será nessa _ única _ vida.
E palavras bonitas não derretem
A tristeza dos dias de chuva.
Por isso
Não me traga somente palavras
Não me proponha uma vida pela metade
Não me leve pela contra-mão do amor
O amor é one way
E qualquer hesitação pode custar-nos a vida
Mas o caminho de casa ainda pode ser outro...
... e quando chegares
que me abraces muito apertado
e cantes as palavras bonitas
em melodias que são só nossas
e eu te darei em amor
mais de mil motivos
para morares em mim.