Seja muito bem-vindo ao Copo de Letras!! Sirva-se sem moderação. ;)

terça-feira, 24 de março de 2009

Ponto de vista


Ela, com o rosto inchado, de tanto chorar.
Moça nova, problemas gigantes, de gente mais velha.
Chorou por algumas horas a fio,
fez no travesseiro, uma poça de lágrimas e de restinho da maquiagem.
Resolveu ir até o banheiro lavar o rosto,
estava desolada, chegara à exaustão.
Não acendeu a luz, aproveitou a luz que vinha da sala,
estava evitando se ver no espelho.
Na penumbra,
deu três passos em direção à pia e abriu a torneira.
Percebeu então algo diferente na parede, bem ao seu lado;
arrepiou-se toda e deu um pulo para trás.
Viu-se obrigada a acender a luz para ver o que era aquilo.
Tudo mudou então.
Talvez outro coração veria um bicho-folha,
um mais cético teria visto um Heteropteryx dilatata...
...o seu coração porém, viu uma simples esperança.
E nada lhe seria mais oportuno...
Lavou então, o rosto ainda riscado das lágrimas,
mas sua alma já estava diferente.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Estradas


Dentro de mim há longas estradas
Que se queimaram com o sol dos imprevistos da vida
Em seu chão quente
não posso pisar com meus pés descalços
E quando caem as noites
Minhas estradas ficam geladas
Nelas
Sopra o vento das frias solidões
E minha pele arde nas profundezas de maciças tristezas
Tenho marcas de acidentes terríveis
Meu coração é de vidro
e já se quebrou em muitas esquinas erradas
Mas sou uma andarilha
que não se cansa em procurar pelo seu destino
E que às vezes já se perdeu em tantos [des]caminhos
Já confiei em placas de cores vibrantes
e por elas cheguei a destinos indesejados
Já fui forasteira em minhas próprias estradas
e agora eu sei que caminhos difíceis
também são caminhos
Quero chegar onde mora o amor
À sua sombra
Fico menos exposta aos sóis da vida real
e ao frio cortante das solidões
E assim eu vou pelas estradas que sou
Sou estradas de concentração
Sou estradas de taquicardia
Sou estradas de acelerações viscerais
E de tremedeiras também
Sou estradas de fomes e de sedes
De dedos estalados e de palavras sussurradas
De lindas paisagens e de lágrimas menores
Sou estradas de viagens inesquecíveis
e de luzes ofuscantes, que iluminam olhos atentos
_ou cegam olhos fracos
Mas somente quando amo é que sou livre
Corro para o amor pelas minhas estradas tortuosas
Ele é meu destino, meu destino de liberdade
Por ela me renovo a cada amanhecer
É a esperança de encontrá-la que me move
Em seus braços hei de alcançar minha paz,
descansar meu coração e libertar-me dos dias tristes
Sendo o amor em liberdade, meu destino,
meu perfeito destino em paz, liberdade e amor.


domingo, 1 de março de 2009

Pavor de Janela


Ela é linda. É meu amor.
Já lhe ofereci tudo,
Mas ela, educada, apenas agradece.
Às vezes eu a vejo em pé, próxima à janela,
Com a cabeça encostada no vidro
E com olhar absorto, misterioso
Finjo não perceber sua saudade, suas vontades vãs
Quase morro
Com aquele resto de sorriso em sua face.
Ela gosta de janelas
Janela da sala, da cozinha, do carro, de trem....
Sempre ela, os pensamentos, o resto de sorriso e o olhar de janela...
E quando ela nota que eu a observo
Logo fica séria
E pergunta se eu quero alguma coisa
Desapontado, sempre respondo que não
Mas eu sei que sim
(e ela também sabe)
Nisso tornou-se a nossa vida:
Ela bebendo minhas sobras de esperança
E eu a flagrando feliz nas janelas
Em paisagens onde não posso tocá-la,
Onde eu sequer existo.



(Publicado na Revista Cachoeiro Cult, edição de Fevereiro de 2009)