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terça-feira, 23 de julho de 2013

À Grande Rainha de Concreto





A casa é grande, obra-prima do ilustre artista
Há brinquedos espalhados pelo chão,
são vestígios de um lar
Decerto houve vida por aqui
 

Hoje os livros estão mudos,
fechados e unidos aos bandos, por todos os cantos
O silêncio é irresistível,
ele me abraça sem me envolver
e silenciosamente me sugere saudades
Mas eu não sinto saudades de nada
Não quero pessoas,
fico bem com as palavras silenciosas
Olho através dos janelões,
a grande cidade está ali,
como que ajoelhada, com o rosto em terra, diante de mim
Como quem reverencia uma alma maior,
que de maior só tem tristeza e exasperação
Meu coração é como o concreto da rainha,
que se prostra, como que indigna de tocar-me com seus olhos gélidos
O céu está gris,
me cobre com seu frio cortante
Por que não chora?
Por que não desaba?
Será que, de tão observada, o inspirei?
Ah, grande rainha de concreto!
Indigna sou eu que, diante de tua realeza,
apresento-me com cacos de alma e vestígios de vida
Dou-lhe o que me resta: minha palavra
Que quando o teu céu finalmente chorar,
eu me misturarei em suas lágrimas
e beijarei a tua boca.