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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Ensaio sobre a Cegueira




Excepcionalmente, ontem tive que sair de casa às 04:20h da madrugada. Como é por volta desse horário que o meu sono chega, eu não dormi, emendei.

Ainda estava escuro, era noite. As estrelas ainda salpicavam o céu. 

Fiz todo o meu trajeto observando as pessoas à minha volta e minha alma gritava, horrorizada, dentro de mim: 'quanta apatia em seus olhos! Essa é a rotina delas!'

Eu ansiava em ver o Sol rompendo o céu. Quando ele finalmente começou a sair, eu me senti tão bem! O olhei enquanto pude, minha alma sorriu, maravilhada. Mas reparei que as pessoas continuavam com seus olhares inertes, para o celular, conversando com alguém, para o nada, engolidas pela repetição da 'vida'.

Então eu orei bem baixinho: 'Deus, cegue os meus olhos se em algum dia eu me tornar indiferente a um milagre tão espetacular desse. Tenha misericórdia dessas pessoas e, por favor, não me deixe nunca ficar como elas. Amém.'

sábado, 3 de agosto de 2013

Epitáfio - Recomendações




Quando eu morrer, será "de repente" para todo mundo. Para mim, será "até que enfim".

Quero que peguem minha sensibilidade com cuidado e a levem para um lugar longínquo e totalmente isolado. Lembrem-se de que ela foi a minha causa mortis. Não a invejem, não a queiram, nem pensem em roubá-la para si. Não mexam com ela.
Se possível, levem junto o meu coração, esse tonto, que sempre cedeu aos caprichos da soberana sensibilidade. Explodam os dois, para o bem de todos. Destruam-nos completamente, sem chance de pairar alguma de suas partículas por aí.
Deixem meu caixão lacrado. Aliás, coloquem meu corpo no mais simples de todos, não quero nem janelinha de vidro. Quis muito ser olhada enquanto estava viva, de modo que, quando eu enfim já não estiver mais, não percam tempo e nem gastem vossa hipocrisia em me espiar descansando. Quero que minhas feições se dissolvam em vossa memória e deixar de ser o assunto já no dia seguinte. Não, não percam tempo falando em mim. Tempo é dinheiro. A vossa vida continua e, a essa altura, eu já serei passado. O mundo globalizado a qual vós pertencestes não vos permite lembranças, lágrimas, tampouco sentimentos.

Ah, e não me levem flores. Deixem-nas enfeitando a vida.
E se descobrirem uma forma de distribuir a "vida toda que eu tinha pela frente" entre aqueles que querem muito viver, o façam, não hesitem. Mas façam isso com cuidado extremo. Levem minha vida pura, destilada, sem sequer um vestígio de contaminação pela maldita sensibilidade. Minha vida diluída na ignorância deles os fará pessoas felizes.
Lamento que a mim não seja possível fazer uma transfusão de ignorância, o segredo da felicidade.