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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Apenas um Lápis



O rapaz chegou para pendurar as cortinas.

Precisava de um lápis para marcar os pontos na parede, para fazer os furos. A moça prontamente trouxe o lápis. Ele o usou várias vezes, pôs no bolso da calça.

A moça o ajudava, enquanto ele estava pendurado na escada. Entregava a furadeira, pegava de volta. Passava a trena, pegava a trena. Passava a bucha, o parafuso.

Pronto. Todas as cortinas estavam no lugar, inclusive o quadro do Elvis, finalmente fora pendurado.

A moça estava feliz, as coisas estavam no lugar, tudo logo estaria harmonioso.

Se despediram. O moço foi embora. A moça começou a passar pano no chão, pra limpar a sujeira, tirar aquela parede em pó de sobre os móveis e cantos. O cheiro de limpeza já se sentia quando a moça deu um grito:

- Não acredito, não acredito!

Lembrara que o lápis havia ficado no bolso do rapaz, que foi embora com ele. Era apenas um lápis, sim, apenas um lápis. Mas aquele lápis era a única lembrança palpável daquele que ela ainda amava, mas fora embora. Um presentinho bobo, daqueles de extrema simplicidade, que carregam toda uma história de duas almas que se amam, mas não podem ficar juntas.


domingo, 28 de dezembro de 2014

Janela Aberta


- Moço, me ajuda. Essa janela não para aberta, cai toda hora! E hoje tá calor demais!

- É, moça. Essas janelas que abrem de baixo pra cima são complicadas. Com o tempo, a pecinha fica frouxa e ela fecha. Mas um pedacinho de papel quebra o galho. Me arranja um, que eu amasso ele bem amassadinho e firmo ele aqui do lado, ó.

A moça abriu um caderno que estava sobre a mesa, passou os olhos rapidamente sobre a folha examinando-a e, sem pestanejar, rasgou a ponta do papel, de fora a fora.

O moço se interessou pelo que estava escrito. Era manuscrito e uma letra bonita, por sinal. Ele não se conteve e disse, com tom pesaroso:

- Ô moça... Que pecado. Você rasgou isso que é tão bonito, isso é poesia...

A moça deu de ombros e replicou sorrindo:

- Ah, isso era um rascunho!

O moço sorriu, aliviado:

- Bem vi que você é diferente. Você é a primeira pessoa que me dá poesia para manter a janela aberta.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Previsão do Tempo



No início, o fim foi terrível, como todo fim
Nossa doce rotina ainda estava fresca,
pairando pelo ar da casa
Tuas impressões digitais
ainda estavam nas capas dos discos, na escova de dentes, na minha pele
Olhar para aquele lado da cama e não te ver
era tão triste, me fazia chorar,
eu enfiava o rosto no travesseiro e gritava, para  expurgar aquela dor na minha alma
Dormia de exaustão, imersa nas nossas lembranças
Acordar era um castigo, os dias tinham um peso incalculável
Respirar era pesado, viver era um sacrifício
A cada amanhecer eu acordava um pouco menor
Deixava uma porção da minha vida
Diluída nas horas da madrugada
Os dias entraram, saíram, nunca mais te vi
Teu cheiro, antes impregnado nos lençóis,
hoje é uma vaga lembrança em minha memória
Eu não tenho a menor das notícias sobre tua vida,
Simplesmente teu passado te tragou,
como o mar traga pequenos barcos, em noites tempestivas
Era um domingo de sol, tinha tudo pra ser lindo, mas foi o início do fim
Hoje pareço em paz,
mas não posso chamar esse mormaço de paz se ainda me inspiras tanta saudade
Parece paz, mas só de ouvir teu nome, numa boca qualquer,
me arrepio inteira, sinto que ainda estou presa naquele domingo de sol,
que fechou o tempo da minha vida, 
que fez desabar a tempestade
que até hoje só chove saudade e nostalgia.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Nem todo mundo é feliz no Natal



No descaso de quem amamos residem nossas maiores decepções. Tristeza nos deixa de cama, feito gripe das brabas. Mas tristeza acomete a alma, e alma de cama não pode ser tratada como uma simples gripe.

Queria entender _porque não me lembro_ do que é feito o vírus maldito e tão poderoso que paralisa e imbeciliza os adolescentes que, há bem pouco tempo, ainda eram crianças amáveis, felizes com o que tinham e adoradores de seus pais _ou mães, nesses tempos modernos de “pães”.

A poucas semanas do Natal, a alma daquela mãe estava doente, agravando-se cada dia mais. Moravam juntas: mãe e filha. A menina, agora adolescente, naqueles rompantes estapafúrdios típicos da idade, já não tinha brilho nos olhos pela sua mãe que, como quase todas as mães, fazia de tudo pela filha. Ao contrário, a cada exortação da mãe, Íris, a filha, revirava os olhos, bufava, expressando profundo cansaço e descaso, como se sua mãe fosse da Idade Média e completamente inadequada aos seus dias.

À medida em que o ano passou e o vírus diabólico da adolescência se desenvolveu no corpo e nos olhos de Íris, um abismo se abriu entre as duas. A situação piorou quando a menina, uma ainda pífia criança, autointitulou-se madura e arrumou um namorado.

Coisa triste é dividir a casa com quem mais se ama e continuar sozinho. Aquele ano _e devo dizer que nos seguintes também_ foi assim. Íris respondia a qualquer expressão de sua mãe com atos silenciosos, com olhos fumegando despeito, deboche e até certa raiva. Numa tarde de novembro, bloqueou a mãe no whatsapp, canal que mais usava para namorar. Algumas vezes chegou a fazer planos de fugir com o grande, único e verdadeiro amor de sua vida, o namorado, de 13 anos.

Íris queria protestar. Não tocava na comida que sua mãe deixava pronta para ela. Deixava furtivamente as correspondências sobre a cômoda da sala, sem qualquer aviso. Uma vez ela chegou a tirar do varal apenas as suas roupas, deixando todas as de sua mãe lá, penduradas.

(Imagino que ingratidão de filho deve doer mais que a dor do câncer, aquela que nem morfina dá conta. Mas só imagino, não tenho filhos. E não sei se quero tê-los.)

Em 13 anos, aquela era a primeira vez que não havia espaço para a sua mãe no Natal de Íris. Ela iria para a casa do namorado, passar o Natal com a família dele, abandonando a própria família naquele pequeno apartamento adoecido há alguns meses. “Que boba! Taca-lhe uma surra!” Diriam alguns à mãe de Íris, mas ela não suportaria ter a presença da filha à contragosto. Há vezes na vida que não há nada que podemos fazer senão esperar voltar quem amamos para cuidar de suas feridas. Deixa a menina pensar que sabe da vida, deixa ela pensar que é madura, deixa ela acreditar que é dona da verdade. Cair faz parte do processo de crescimento e essa menina optou pela dor, vai aprender e a primeira lição que a vida há de lhe ensinar é que mães nunca são desnecessárias.

Na tarde daquele Natal, a mãe de Íris ficou muda, como há muito já estava, apenas observando de soslaio a filha, que desfilava saltitante do quarto pro banheiro, cantarolando e dando gritinhos de ansiedade. Naquela tarde sua mãe fez que não viu a filha tirando a graça das ondas de seus cabelos com aquela prancha que a deixava com cara de industrializada, tampouco deixou de reparar que a menina carregava os olhos e os cílios de lápis e rímel pretos, o que a vulgarizava e tirava-lhe todo o tom pueril. Resignada, sua mãe apenas observava. É inútil descrever as dores. Para conhecê-las é mister senti-las.

Apesar do amor infinito que a mãe de Íris sentia por ela, ela não se opôs a nada. Suspirou fundo quando ouviu a menina, já com a porta da sala entreaberta lhe dizer: “Feliz Natal, mãe”. Do corredor, podia-se ouvir a voz exultante de Íris: “Amor, daqui a pouco estou aí! Te amo!”.

Sobrou naquela sala uma solidão palpável, um silêncio imperial que gritava. De qualquer cômodo daquele pequeno apartamento era possível ouvir as batidas do coração da mãe de Íris.

À meia-noite ela partiu um pedaço do panetone que ganhara de seus patrões e se aproximou da janela. Era o primeiro Natal que não preparava a Ceia, que Íris tanto festejava todos os anos. Da janela, seu corpo refletia todas as cores dos pisca-piscas das janelas do prédio em frente ao seu. Enquanto mastigava lentamente aquele seco pedaço de panetone, ouvia os fogos de artifício e vozes muito felizes e alteradas, vindas de todos os andares e prédios próximos ao seu.

À meia-noite e cinco, a mãe de Íris se deitou. Tornou-se filha e sentiu uma saudade dilacerante de sua mãe e de todos os Natais que puderam viver juntas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Segredos Modernos


Aí você se pega discutindo a reportagem do telejornal com você mesmo, sentado, sem postura, no sofá da sala.
E faz as contas, percebe que todo dia, conversa virtualmente com metade do mundo; 
pessoalmente, com menos de cinco pessoas.
Abre a geladeira e vê vários potinhos com pequenas porções de comida.
E também repara que fala sozinho quando toma banho.
Seca sozinho uma garrafa de vinho de quinta categoria em plena terça-feira, ouvindo música de primeira.
Se deita e abraça os seis travesseiros.
Antes de dormir, se pega acarinhando os próprios cabelos e pensa que não tem notícias das pessoas com quem você mais riu junto.
E também percebe como é difícil não pensar em quem já te fez chorar tanto.
De madrugada, vai à cozinha beber água, mas não acende nenhuma luz, pois sabe exatamente onde está cada coisa: ninguém além de você mexe nelas.
Pela manhã recebe as correspondências, sem perspectiva alguma; há muito só chegam contas a pagar.
Na rua, olha as vitrines e repara na cafonice das pessoas, chega a debochar e novamente lá está você discutindo consigo mesmo a coragem que certas pessoas têm de se vestirem assim ou assado.
E quantas vezes você já mandou sua mente parar de te acusar daquilo que poderia ser, mas não foi _e nem vai mais.
Todo dia, disfarça para os patrões, e pra atendente da padaria também.
Passa mais horas no trabalho que em casa, mas quem se importa, se há apenas paredes e coisas à sua espera?

Eu não saberia fazer igual a você



Eu compreendo
Quando você finge me desprezar
E faz que não está se importando, sim,
Eu compreendo
De alguma maneira você precisa se defender
Deve ser mesmo frustrante experimentar a paixão
E voltar para a segurança de um relacionamento morno
Sabe, no teu lugar, eu também tentaria te desprezar
Para me manter convencida e segura
Tentaria desviar meu olhar sempre que corresse risco de você me flagrar te admirando,
Te deletaria das minhas redes sociais,
Da lista telefônica
Tentaria parecer uma muralha fria e intransponível
E, como você faz tão bem,
Conteria o ímpeto de voar em você
E te abraçar apertado, desesperada e em silêncio,
Deixando meu coração bater forte
 ao matar a saudade do teu calor na minha vida
Sim, eu compreendo essa tua dureza e até admiro:
É preciso muita coragem
Para ser tão covarde assim,
e essa coragem me falta, 
por mais que eu tente, ela nunca vem.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Acredite na Lei do Retorno!


Então você se decepcionou. Está triste, seu mundo caiu, como cantou Maísa. Acontece. Acontece todo dia. Ei, pode enterrar a cara no travesseiro e chorar. Por um dia você pode morrer de chorar, até por duas semanas ou um mês. Coma dois quilos de chocolate, escute Nirvana, pense em sumir. Faz parte do luto. Só não banque a vida loka, postando fotos nas baladas, na academia, no fast food com os best friends, não!

Se tua falsa alegria tem gosto de vingança, teu paladar está precisando de apuração. Alegria não cabe em entrelinhas, tampouco se sujeita a indiretas. Alegria forçada é feito silicone, todo mundo vê que não é natural.

Não se envergonhe por sofrer, mesmo que seja por alguém que não mereça uma fisgada da tua dor. A lei do retorno é infalível, meu bem. Passe o tempo que passar, um dia, você terá superado toda a decepção e será mais forte. Ah, e com toda, toda certeza, feliz. Naturalmente feliz. E não há post, selfie, indireta ou argumento mais persuasivo que ter a felicidade de ser mais forte hoje por conta de uma dor do passado. 

Se é tempo de sofrer, permita-se sofrer.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Com o amor não se brinca




Ela estava triste. Gostava dele, mas ele tinha namorada. Mesmo assim ele a procurava, gostava da companhia dela. Ela era inteligente, temperada, sincera. Ele se sentia vivo ao lado dela, mas não era capaz de largar sua namorada, insossa, sonhadora que, ingenuamente, o amava sozinha.

Mas como disse, sua amante era inteligente e pessoas inteligentes sabem o que tem que ser feito, doa o tanto que doer. Imersa em sua sinceridade, ela lhe rogou uma praga:

- Um dia você vai encontrar alguém que vai te sacudir tão forte, que você não poderá respirar sem ela.

Ele, com um sorriso sacana, lhe respondeu:

- Mas eu já te encontrei, amor!

Ela teve certeza de que ele ainda não passava de um menino inexperiente. Decidida a não mais o encontrar, lhe disse:

- Não se brinca com o amor, Felipe. Um dia ele há de engolir você.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Eu prefiro ser essa poesia ambulante



E então, como falar de uma cidade onde nunca se esteve? Como descrever o sabor de uma comida, as propriedades de um vinho que jamais fora provado? Como saber das dores do parto sem jamais ter parido? Assim compreendo a poesia. Escrever poesia não é meramente o ato de escrever. Escrever qualquer pessoa alfabetizada o faz.

Poesia nada mais é que uma declaração de enfermidade, um atestado de loucura, uma cicatriz. 

Poesia é insanidade consciente. Poesia é um ato de desespero, de alguém que já não aguenta mais sentir aquela pressão interna _e infernal_ de palavras vivas, dos sentimentos endemoniados, borbulhando dentro de si.

Poesia é um vômito sentimental, um grito desesperado que, geralmente se faz em silêncio, madrugadas adentro. É preciso ter um coração verdadeiramente vivo, uma alma que se espreme e se revira dentro da própria pele, e uma bruta sensibilidade para fazer poesia.

Em verdade, acredito que todo poeta é uma poesia viva. Cada vez em que ele escreve, mutila um pedaço de sua alma e o expõe ali, em palavras. Sim, poesias são pedaços do poeta. Quem lê poesia, lê uma declaração de loucura, já que é preciso ter febre na alma, delírios insuportáveis para escrevê-las e um quê de insensatez. E é por expurgar suas dores e declarar suas sandices que os poetas são livres. A loucura é libertadora. As pessoas ditas comuns não dão ouvidos aos loucos, elas são doentes demais para isso. Os “sãos” passam pela vida. Os poetas a vivem de verdade, em dor, loucura e desespero. A medida da paz é o tormento, é preciso um pouco de tormento para viver em paz.

Em um mundo de disfarces, dissimulações e mentiras, só mesmo um louco para expor em vitrine a própria alma. Conviver com esses seres estranhos e esquisitos nem sempre é reconhecido como uma bênção, mas quem se inclina a ouvi-los, ainda que uma vez apenas, não permanece do mesmo pequeno tamanho. A magnitude da vida reside em seus pequeninos detalhes. A poesia é uma lente.

Talvez a poesia exista mesmo só para isso, para legitimar a vida. 

A poesia é uma doença incurável. Às vezes isso é uma bênção. Às vezes, uma maldição. Eis o abismo onde se equilibram esses pobres-diabos, portadores da maior riqueza da existência humana.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Tudo se Transforma



Sou recicladora.
Reciclo dores, medos, tristezas, desilusões.
Não há matérias-primas mais genuínas que estas.
As transformo em pensamentos, poesias.

Eu causo dolorimento nas dermes,
Afago as almas cansadas,
Reviro intimidades,
Remexo sentimentos escondidos...
Não há dor que não me sirva,
Não há tristeza que não se transforme.

Dor guardada é lixo. Adoece, enfeia.
Mesmo assim, há quem as abrace e se envenene
Contudo eu prefiro poetizá-las.
Meu ofício é a reciclagem,
é transformar a dor em liberdade.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

C'est la Vie...


Decidimos nos jogar do precipício juntos
Ele me deu a mão e apertou firme
Demos um passo à frente e ganhamos o vazio
O amor nos abraçava,
flutuávamos naquela imensidão de  carinhos e descobertas
De repente senti um solavanco no braço,
ele havia se desprendido de mim
Quando olhei para o lado, ele já não estava,  
estava lá em cima, cada vez mais distante
Ele levara o paraquedas, não me avisara
[Gente precavida é de uma inocência perigosa]
E de flutuar, passei a cair em queda livre
Fechei os olhos, já não me permiti surpreender
A covardia passou a fazer parte do meu cotidiano, 
ele foi apenas mais um
Acordei meses depois,
mais ferida que antes,
mas mais forte também.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tira-teima



Depois que ele foi embora, ela passou meses juntando os próprios cacos. Foram pouco mais de oito, nove semanas juntos, mas foram tempos avassaladores, tais quais a dor que ela ainda sentia quando se lembrava dele, de seu sorriso ou da forma em que ele arqueava a sobrancelha direita ao falar.

Lentamente a saudade doída foi se acalmando e se transformando em uma breve lembrança. Teria ela o esquecido ou guardara tudo numa caixa de memórias abandonadas?

Era dezembro. Reencontrara um antigo pretendente. Cara desses interessantes, que a atraía, mas que jamais tivera oportunidade de estar junto dela. Ele a convidou para enfim fazerem o tira-teima. Afinal, seus mundos davam voltas, quase se esbarravam, mas quase.

Ela aceitou. Não tinha medo de correr nenhum dos riscos oferecidos pela paixão. Iria passar o Natal e o Ano Novo com ele. Estava de mala pronta. Iria para o Chile. O encontraria para cessar as ilusões e, definitivamente, saber se ele era o amor da sua vida.

Sentia-se ansiosa, feliz. Estava confiante. O desconhecido a fascinava.

Na manhã do embarque, conferiu a passagem, enfiou-a na bolsa de mão, que estava pendurada em seu ombro esquerdo. Levantou a alça da mala e rumou em direção à porta. Quando girou a maçaneta, porém, o telefone tocou. Por alguns segundos, ela quase o ignorou, mas atendeu, ainda segurando a alça da grande mala.

A voz, do outro lado da linha, disse apenas:

- Por favor, não desliga. Sou eu.

Ao ouvir essas palavras, a bolsa deslizou do ombro e parou em seu antebraço. Seu coração parecia bater dentro dos ouvidos. Ela não mais sentia as pernas, como se sua pressão arterial tivesse ido ao zero.

Há amores que julgamos superados, mas só estão intocados na caixa.

Já é setembro e ela ainda não conhece o Chile.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Caos no mundo cão

"Da onde vem o tiro?"


Há tempos que não saímos à noite. Se saímos, estamos tensos. O medo da violência já é respirável, está pulverizado à nossa volta.

Celular é um chamariz. Entretidas nos chats da vida, muitas pessoas se expõem ao risco de um assalto sem se dar conta.

Andar com joias, nem pensar. Aliás, nada que se pareça com uma pode ser exposto.

Os assassinatos ao vivo já não nos chocam tanto. Estão nos cauterizando, dia-a-dia aumentando as doses da violência e todas as suas variações cavalares.

Nossas casas já estão acomodadas entre grades, fios de alta tensão, cacos de vidro e qualquer coisa que dificulte a entrada de um estranho. Ainda assim, podem ser invadidas a qualquer hora, seja noite, seja dia.

Aqui em Campinas, desde o último dia 1º não se pode mais pagar as passagens no transporte público com dinheiro, somente com o cartão eletrônico. O argumento da empresa é o de garantir mais segurança aos cidadãos. Legítimo ou não, a triste verdade é que estamos nos adequando à violência, mudando nossa rotina e nossos costumes, mudando nosso percurso e horários à medida que os índices da brutalidade disparam.

Acredito que não haja inversão mais desanimadora e perigosa que essa, que nos mantém tensos, enclausurados, à mercê da violência e, parafraseando Herbert Vianna, sem saber o calibre do perigo, da onde vem o tiro.


O sentimento de invasão é sentido em uníssono pela população, que vai, cotidianamente se adequando à violência. É um paradoxo viver numa sociedade que super valoriza o ter em detrimento do ser, se na realidade, não se pode ter nada. Nem vida.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

"Isso?"



Somos dados. Números. Inscrições. Logins.
Engoliram a vida, nos deram mediocridade, anularam nossas chances e ninguém repara nisso.
Eu não aguento mais o tic-tac, o ponto, a estatística.
Não é possível que a vida seja só isso,
esse corre-corre sem emoção, sem brilho, sem pulsação.
Será que exagerei na expectativa?
Quando eu era criança,
eu tinha pena dos escravos, 
das pessoas obrigadas a viver sem tocar na vida.
Eu tinha pena de mim mesma, mas eu não sabia.
O que eu mais rejeitei, me engoliu.
Se isso é vida, que passe depressa.

Mas eu ainda não acredito que a vida seja só isso...

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A primavera não espera



"- Você se equivocou. Deu boas vindas à primavera ontem, dia 21 de setembro, mas ela só começa amanhã, dia 23."

Ora, ora. Que lapso o meu! Um leitor atento me corrigiu. Como pude me confundir? 21 de setembro não sempre foi o clássico primeiro dia primaveril?

Não me livro do bicho homem, sempre com essa mania de achar que controla o incontrolável, que determina o indeterminável. 

"-Me desculpe. É que as flores, por aqui, estão explodindo já há algum tempo. Mesmo entre as avenidas, sob viadutos, perto do asfalto quente ou dos semáforos, não importa. Para qualquer lugar que eu olhe, elas estão lá: grandes, imponentes, coloridas e vaidosas. Quem há de dizer a elas para esperarem pelo 23 de setembro, se elas não esperaram nem pelo 21!! Marque aí no teu calendário, amigo. Mostre a elas. Enquanto isso, vou adorando daqui a beleza multicor dessas delicadas flores, pisando sobre o chão amarelo, coberto de ipês. Que estupidez a delas, não esperaram pela data oficial... eis que por aqui, há muito, já é primavera!"

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A melhor ideia de Deus

Eu sei que sou confusa e quando você me compreende, me confunde mais ainda.


É que eu não sei como acontece.

Já te mandei embora um monte de vezes. Na hora eu senti um alívio infinito, como se pudesse respirar livremente outra vez. Não que você me prendesse, ao contrário, você sempre me deixou livre para o que eu quisesse ser ou fazer, mas mesmo assim, te mandar embora me dava sensação de liberdade.

Mas aí passavam poucas horas e eu começava a me flagrar olhando para o celular, como quem espera por uma ligação. Às vezes você ligou, às vezes, não. E quando ligou, te tratei com desdém, para manter o charme. Mas confesso: eu estava com o coração acelerado, vigiando aquela tela onde os minutos se trocavam e as horas também.

Já consegui ficar mais de dez dias sem te ver, sem te atender, sem te sentir.

Desde o primeiro dia que ficamos juntos, no entanto, estou sem compreender.

No início duvidei muitíssimo do teu sentimento. Por muito tempo pensei que todos os sacrifícios que fazia eram por você mesmo, pelo ego, como se ficar comigo tivesse se tornado uma questão de honra. Sim, porque já te falei barbaridades, já disparei sobre você meus olhares mais frios, e você? Manteve-se concentrado, à minha volta, esperando pelo tempo certo de me agradar de novo.

Eu até que cedi algumas vezes e reatei por admitir minha saudade, mas na maioria, mesmo com saudade eu fiz pouco caso e deixei claro que você era insistente demais, como se eu me deixasse vencer pelo cansaço. Jamais! Voltei porque quis, porque senti saudade, porque senti muito a tua falta.

E cada vez em que a gente reata, eu percebo que a minha guarda fica um pouco mais baixa. A tua paciência comigo tem me desarmado, muitas vezes, me desmontado. Fico perplexa com o teu desprendimento, com tudo o que te vejo enfrentar para estar uns poucos minutos a mais comigo.

Já perdi a credibilidade com as pessoas de tanto que falei que nunca mais voltaria pra você.

Fico constrangida com o jeito que você me olha, como se eu fosse a melhor ideia de Deus. Eu não sou.

Te falei dos meus segredos para te assustar, mas você quem me assustou quando decidiu mergulhar nos meus problemas, nas minhas crises, patologias. Eu sei que sou confusa, mas você querer me compreender _e conseguir isso_ me confunde mais ainda.

Você diz que não entrou na minha vida por acaso, que é meu anjo protetor. 

Já ri disso. 
Já cogitei isso. 
Já acredito nisso.

Muita coisa em você me irrita e essa lista de coisas me enlouquece. Você tem hábitos que precisam ser corrigidos e às vezes tropeça no português, mas mesmo quando eu, furiosa te critico, ou firmemente delicada te corrijo, você continua a me olhar como se eu fosse a melhor ideia de Deus e esse é o teu maior argumento. Como discutir? Como não aceitar?

Daí eu me sinto uma monstra, mas mesmo assim, não esboço culpa.

Numa noite de segunda-feira, no entanto, foi você quem me salvou dos meus remorsos, quando me socorreu no chão do meu quarto, escuro. Foram dezenas de cortes na perna. Eu mereci cada um deles, por cada olhar de rispidez que te dei. Você me abraçou forte. Me salvou de mim mesma. E reatamos, mais uma vez.

Sempre fui passional e não sei lidar com esse sentimento calmo que tenho por você. Não trocamos mensagens desesperadamente apaixonadas, não falamos em morte como o limite de uma separação, mas mesmo sob olhos brilhantes do passado, eu jamais senti essa paz que vem de você. Parece que estamos juntos há anos, mas ainda só tivemos um inverno.

Você, por fora, não tem muita coisa que eu julgava imprescindível no meu príncipe encantado, mas o jeito que você me olha e me trata tiram de mim quaisquer argumentos.

Talvez a melhor ideia de Deus tenha sido juntar nós dois.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Eleições - estamos todos [des]encantados



Em 1998 eu tinha 17 anos e meu voto era facultativo. 
Corri atrás de toda a burocracia e providenciei meu título de eleitor 
para votar. 
Eu votei, pela primeira vez, orgulhosa e voluntária. 
Ingênua. 
Os anos passaram, meu voto tornou-se o
brigatório.
Nos chocamos com as falcatruas, roubalheiras deslavadas, flagrantes
irrefutáveis, mas não o bastante para fazermos além de reclamar,
reclamar, reclamar.
Qualquer paisinho chinfrim lá de fora parece ser mais desenvolvido e
atraente que o Brasil, que sadicamente, adoramos censurar, mas
convenhamos: foi emocionante cantar o Hino Nacional à capela na Copa do
Mundo _ainda que tropeçando na letra!
As opções são deploráveis.
Candidatos analfabetos, dissimulados, que insultam nossa inteligência,
nossa dignidade, nossa sanidade.
Às vezes dá vontade de chorar.
Às vezes, nem isso.
Nesse ano não vou votar.
Não transferi o meu título e o sistema eleitoral de ponta do Brasil
ainda sugere que eu o faça fora da minha zona eleitoral, não é
compulsório.
Ainda.
Quem há de atirar em mim a primeira pedra por isso?
Alguém faz além de reclamar por aqui?
Quem? O quê? Onde? Por quem?
Meu desencantamento é com a gente mesmo.
Um povo tão perfeitamente colonizado, que até hoje se deslumbra com
espelhinhos e bugigangas, que se fascina com qualquer lembrancinha 'made in world'.
Que lixo de sistema.
Que triste tudo isso.
Que gigante, que nada...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Palavras são tiros



Mais uma vez eles terminaram. Ela estava furiosa, acabara de ouvir dele as palavras mais pesadas dos últimos tempos. Mandou-o embora. Ele foi. Sabia que poucos dias depois se falariam novamente e reatariam, como nas outras oito vezes dos últimos três meses.

Ela se sentiu aliviada. Pela primeira vez não estava com remorso, tampouco com medo de se arrepender. Ele foi ferino com ela e, no fundo, ela estava até agradecida por isso. Com todos os insultos ela juntou forças para arrancá-lo de vez da sua vida e prosseguir.

Dessa vez ele não ligou horas depois, como das outras vezes. Ele sabia que tinha sido estúpido demais. 

Passaram alguns dias. Ele criou coragem e ligou. Ela atendeu. Com voz determinada, mas delicada. Não sabia ser rancorosa, ela sabia que rancor dá câncer. No entanto disse a ele que era mesmo o fim. Ele não acreditou, ela sempre o perdoava! Então ele lhe pediu perdão. Ela perdoou, mas lhe explicou que perdoar não era a mesma coisa que aceitar e que não voltar para ele não era um ato de orgulho, mas de respeito por si mesma. Ele não aceitou, chorou. A ligação durou mais de quarenta minutos. 

Três dias depois sem dar notícias, ele apareceu no prédio dela, sem avisar. Quando ela desceu à portaria, encontrou-o sentado na calçada, chorando. Ele estava desesperado. A pediu para andar um pouco com ele. A noite estava quente, a lua cheia iluminava a rua. Ela aceitou. Deram uma volta pelo quarteirão, andando lentamente. Ele mal falava de tanto soluçar. Ela só ouvia, com os braços cruzados atrás das costas, dizendo com o seu corpo que não sentia o menor receio de estar ali. Nada a comovia, estava curada. Estava ali por humanidade, não por arrependimento. Não queria negar a ele a chance de se abrir, de se desculpar, de se redimir. 

Sentaram-se no ponto de ônibus no final da segunda quadra. Havia alguns carros treinando baliza a alguns metros deles. Dali ouviam um grupo de jovens rindo, na casa da frente. A rua estava bastante iluminada. Com a luz presente daquele jeito, as lágrimas dele ficavam em evidência. Ele não se importava. Chegou a se sentar no chão, bem perto dos pés dela. Estava arrependido. Mais que arrependido. Falava até em suicídio. Ela, no entanto, não sentia nada. Talvez se sentisse algum fio de ódio, seria um sinal de sentimento, mas nada.

Ele olhava para ela, reparava o quanto estava mais linda. Ela tinha uma trança caindo sobre seu ombro direito, esmalte claro nas unhas. Como ele amava a sua simplicidade! Ele suplicava que ela voltasse pra ele. Ela dizia que não. Relembrava-o  das queixas que ele mesmo fez inúmeras vezes, quando os comparavam a outros casais, como se todos fossem sempre mais felizes que eles. Ele, porém, disse a ela que era feliz com ela sim, mas não sabia. E com essas palavras, finalmente despertou um sentimento dentro dela. Ela sentiu-se malograda. Ela sabia que a felicidade no amor é evidente, ninguém é feliz no amor sem saber que é feliz no amor, oras!

 E com esse argumento infeliz, ele a perdeu, para sempre. 

Voltaram até à portaria do prédio dela do mesmo jeito, andando lentamente, ele chorando e ela, de braços cruzados atrás das costas, o ouvindo. Ela subiu de volta para o seu apartamento e ele voltou para a sua casa cabisbaixo, lento e com os braços cruzados atrás das costas, dizendo com o seu corpo que estava completamente rendido à solidão avassaladora que ora chegava para o engolir. 

Ele sabia que acabara de receber dela o último abraço de sua vida.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Saudade, um chavão

"Nada é orgânico, é tudo programado."

Hoje, ao responder um torpedo de uma amiga, me espantei com a minha própria sinceridade. Terminei o torpedo dizendo: “Quando vamos nos rever? Você é uma das raras pessoas das quais eu consigo sentir saudade.”

E é verdade.

Na “Era da Comunicação” o que somos? Somos a Geração Solidão.

Nunca houve tantas pessoas no planeta. Somos bilhões. Bilhões de pessoas. Bilhões de solidões. Todas plugadas no mundo virtual, com fones acoplados aos ouvidos _surdos para o mundo real_ e olhos atentos à uma pequena tela na mão.

A saudade, coisa que mata, virou um clichê. Assim como chamar qualquer um de “amigo”. Não é a primeira vez em que eu me indigno com isso. Amigo é amigo, colega é colega, conhecido é conhecido. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E saudade mata. Pelo menos leva à míngua. Saudade dilacera. Tira o apetite. Tira o sono. Tira a concentração. Então, saudade mata, sim senhor.

A Geração Solidão é essencialmente saudosista. Sentimos saudade do que nem sabemos, mas sentimos.

Pensando friamente (e por isso me assustei com minha mensagem), não sinto saudade de todo mundo que não está mais presente na minha vida. Realmente sinto saudade de raros, poucos. Há lembranças que me vêm à mente e me fazem sorrir, saudadezinhas gostosas de sentir. Poucas.

Há pessoas que não vejo há meses. Outras, há anos. E sinceramente não me fazem falta. Saudade não é pra sentir de tudo, nem de qualquer época ou de qualquer pessoa. Saudade é uma perspectiva do amor, e amor não se sente de qualquer jeito.

Na Era da Comunicação verbalizamos pouco. Expressamos menos ainda. Haja bateria e emoticons! Somos frios, eletrificados, automatizados, mecânicos, inexpressivos, programados. Há um vazio nessa geração, um esfriamento evidente em nossos olhos.

Na época das cartas e dos DDDs caríssimos havia mais calor humano. Precisávamos mais uns dos outros e demonstrávamos mais isso. A tecnologia não é ruim, talvez a fraqueza seja humana mesmo.

E nesses dias tão desumanos, não me sinto assim por não sentir saudade de todas as gentes. Só não gosto de sentimentos em massa, “modinha da saudade” não rola. É triste que a saudade, sentimento por pessoas especiais, seja um chavão da Geração Solidão, onde ninguém sabe ser especial.


Estou aguardando a resposta da minha amiga...

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Eu não quero dançar essa dança



A menina olha as outras ensaiando a coreografia, todo dia. Elas estão entrosadas, esfuziantes e concentradas. A menina olha de longe e não se sente parte disso. Ela sabe que não faz parte disso. Estudam na mesma escola, usam o mesmo uniforme, têm os mesmos professores, patrões, mas isso não as tornam iguais. Têm desejos diferentes, saudades contrárias e sensações que não se podem acarear.

Talvez eu seja essa menina que, do meu cantinho, vejo o mundo acontecendo, as pessoas se entendendo, repetindo exaustivamente coreografias que, pra mim, não fazem o menor dos sentidos.

Às vezes me sinto no lugar errado, nascida na época errada. Gosto de músicas que não são do meu tempo, de filmes de outras décadas, autores já idos, palavras em desuso. Até os sentimentos de outrora parecem-me ser diferentes, mais genuínos, talvez mais inocentes, e por isso mesmo, mais verdadeiros. Sinto saudade do amor que experimentei um dia, que existe nos livros e nas memórias dos mais velhos que eu.

Qual é o conceito de amor hoje? Como é ter um amigo de verdade, se tudo demanda tempo e tempo é o que não temos?

Somos todos velhos conhecidos estranhos. Ainda nos surpreendemos com notícias de suicídio de pessoas que nos deram todas as evidências de que pensavam em dar cabo à própria vida. O mundo ficou pasmo com a atitude de Robin Williams, eu não. E nem me espantaria se a manchete principal de hoje fosse a de que Jim Carrey fez a mesma coisa. Isso não é bruxaria, é olhar para além do que se vê. As pessoas hoje, apesar de saberem que o mundo é fake, acreditam naquilo que veem, sem aprofundar um centímetro o olhar. Isso é praticidade. Os sentimentos são rasos, as relações são descartáveis, de uso imediato. Não existem mais amizades, compaixão, empatia, tampouco amor.
É chato ficar daqui, do canto, assistindo ao mundo fake, de belas coreografias. Toda hora alguém passa por mim e diz: “-Vai lá! Dança com elas! Não fica aqui, escondida, você é tão bonita.” E eu sinto um arrepio gelado na espinha, um desgosto profundo por ter que estar aqui assistindo a esses movimentos sem sentido, insossos, mecânicos.

Acordam cedo, trabalham, voltam,  [fazem selfies], dormem.
Acordam cedo, trabalham, voltam,  [fazem selfies], dormem.
Acordam cedo, trabalham, voltam,  [fazem selfies], dormem.
Acordam cedo, trabalham, voltam,  [fazem selfies], dormem.

Dizem que isso dignifica o homem. Com certeza isso foi dito em um outro momento, com outro sentido.

Não acredito que a vida seja isso. Elas são preparadas desde crianças para fazerem esses movimentos, nunca as vi perguntando à direção o por quê, nunca as vi inovando, tentando uma nova ideia ou música. Não tentar é uma expressão de sua praticidade inexpressiva.

E quando digo que eu quero deixar o grande teatro e ir para longe, onde não há ninguém, chamam-me de antissocial, ou de rebelde, até mesmo de louca. Mas eu quero mesmo. Sonho em um dia poder sair de perto dessas poltronas enumeradas e ir para a beira do mar. Eu terei um cachorro, talvez. Cachorros não adentram teatros, de modo que, cachorros continuam essencialmente leais. Quero não ler o programa do dia, não saber dos novos atores e suas coreografias. Não quero ter pessoas ao meu lado e sentir saudade delas, não quero ser um enigma, pois foi isso que nos tornamos. Os problemas matemáticos não são resolvidos sem atenção e concentração, e somos todos isso: problemas matemáticos. Precisamos de um esforço exponencial e exaustivo do outro para sermos simplesmente enxergados, isso é tão triste! Eu não quero mais cumprimentar quem passa por mim aqui no cantinho do corredor do teatro, tentando ser simpática por trás de um sorriso forçado, nem ficar tentando me equilibrar numa postura que não evidencie tanto o meu desconforto diante da estranheza das pessoas que me olham, mas não me enxergam, e simplesmente me atacam com suas opiniões e teorias que, estou certa, jamais perguntei.


Sim, quero uma cabana, um cachorro e o mar. Jogar meu Registro Geral fora. Não sou um número, não sou uma estatística, não sou um dado, não sou mais uma atriz desse grande teatro mastigatório. Quero ter das pessoas apenas vagas lembranças. Quero ter dos sentimentos essa nostalgia que eu sinto bem aqui, perto delas. Não quero notícias, não quero convites, dispenso a área vip. Eu só quero poder contemplar o Sol, amar o calor sem ser chamada de louca por isso. Quero afundar meus pés na areia, poder ficar em silêncio sem ter palavras exigidas. Quero ter sensações, viver em profundidade até chegar meu último dia. Quero, literalmente, morrer na praia. Isso é tão ínfimo para quem vive no glamour do teatro, mas holofotes não me interessam, obrigada. O meu anonimato sempre será o meu sucesso.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Amor que não serve



Ao desejares felicidade no amor, não sejas tolo em desejá-lo pela metade.
Não sejas tonto em quereres apenas alguém que te ame incondicionalmente.
Eu cometi esse erro.
Acreditei que um amor me bastaria.
Desejei alguém que me amasse loucamente, sem limites;
alguém que se entregasse inteiramente a mim.
Pois recebi.
Hoje tenho um amor absoluto, um coração que pulsa por mim, que me quer mais que a própria vida.
E eu não poderia ser mais infeliz por isso.
Não me atentei que não faz sentido algum ser amada e não amar.
Hoje recebo os olhares mais apaixonados, que os anjos jamais testemunharam.
E sustento meus olhos frios, distantes, indiferentes.
Fui tola ao desejar somente amor, e amor que não se troca é condenação. 
É amor que não serve para a felicidade.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Palpável Solidão



Nada naquele lugar era tão feliz
ao ponto de fazê-la ter vontade de estar ali
Só havia a sua palpável solidão
E a indizível certeza de ser profundamente triste
A bela paisagem não a comovia
Ao contrário, a estranhava
De fato ela era a beleza em pessoa,
Mas sua tristeza não a permitia fazer parte de tudo aquilo
Não cabia esperança naquele corte aberto em sua alma ímpar
Sua palpável solidão _passional_ a exigia inteira e assim ela se dava
Não havia espaço para a leveza bela em sua vida estrangulada
Ora, como podia, ainda assim ser a expressão mais bela da tristeza?
Ela só queria não existir
Mas existia
A tristeza precisava de sua beleza, não a deixaria morrer tão bela,
Tramava tragá-la depois de arrancar toda a sua juventude
A bela se vingava veladamente de sua palpável solidão sendo bela,
Absurdamente bela_
Na mesma medida em que era triste,
Absurdamente triste.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Menininhos



Menininhos veem um carro de corrida, ficam enlouquecidos.
A máquina é potente, impressiona.
É uma adrenalina.
Os olhos brilham.
Então eles fazem planos gloriosos,
de serem os maiores corredores de todos os tempos.
No começo, convencem.
Mostram-se à altura da máquina.
Na primeira curva, porém, enjoam.
Ficam tontos, pálidos.
Pedem para descer e descem.
Menininhos são apenas menininhos.
Têm que viver na estradinha de areia, não nas autopistas.


_cansei de menininhos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Contraproposta Indecente



Amor - sem respirá-lo, eu não vivo
Tua proposta é comovente
Se me tratas tão bem assim,
poderia até amar-te, quem sabe?
Mas teu maior amor não me basta
O que falta, eu não sei, 
apenas falta
Como o mais rico banquete, desprovido de sal
Se aceitares minha metade bem intencionada,
uma porção generosa de mim,
Viverei como quem respira a depender
de um balão de oxigênio
Não o farei plenamente,
tampouco estarei inteira ao teu lado,
mas lá estarei
Serei uma metade, 
de sorrisos esforçados,
de inspirações profundas,
buscando o ar, em desesperação
Serei uma porção de mim mesma, sem forças,
ainda que eu faça força para ser completamente conquistada
Acredite: é insuportável não te perceber
Terás, ainda, que resistir à dura desconfiança
de que eu me apaixono muitas vezes por dia
_todos os dias_
por estranhos que nem eu mesma sei
Se, então, ainda assim me quiseres 
como teu mosaico imontável
de vontades e de distâncias,
então hoje mesmo teremos um acordo
Eu aceitarei o teu inocente amor
e me rejeitarei para sempre por isso.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Causa Mortis: Depressão



As pessoas realmente não sabem o que se passam com as outras. E nem querem saber.

Quantas vezes sorrimos, em um cumprimento, não por felicidade, mas por mera educação. Os olhos denunciam, mas quem olha nos olhos hoje em dia? Quem se importa?

Hoje a felicidade é uma obrigação. Tristeza é frescura. Então simbora ser “feliz” com todo mundo. Vamos postar nas redes sociais nossa vida perfeita e saltitante! Vamos dar força para as outras pessoas, afinal de contas, somos tão fortes!

Quem aguenta tanta pressão? Os amigos estão ocupados demais, desmarcando com a gente, para cumprir outros compromissos. Vamos compreender. Ninguém tem tempo para ninguém.  [Mas o que parecia ser apenas uma confraternizaçãozinha de fim de semana talvez salvaria uma vida! Ah, que exagero!]

O sistema conseguiu automatizar até as amizades. Criaram um novo dialeto cibernético. Criaram uma nova praça de encontro. No chat matamos saudades e relembramos eras mais felizes. Nos engoliram.

Aí o comediante mais incrível do mundo se mata.

Todos se chocaram com a notícia. Ou muitos, não todos.

Alguém havia reparado em como seus olhos eram tristes?

Às vezes esperam tanta força e tanta alegria da gente, como se a gente fosse uma fonte inesgotável de fortalecer e fazer os outros rir, sem direito de chorar, tampouco de se entristecer. Um cara engraçado perde o direito de se sentir triste, ele é uma máquina de fazer os outros sorrir e ponto final. Tá triste? Chama o fulano, ele te anima em dois tempos! Tá caidinho? Liga pra beltrana, ela é uma rocha!

A garota linda, cheia de seguidores do Facebook se cortava, em seu quarto escuro. Quem poderia desconfiar disso?

O cara bonitão às vezes sumia. Dizia que estava estudando, mas eram dias sem fim, que sequer conseguia se levantar da cama.

A depressão mata. Alguém já percebeu isso?

E lamento informar: ainda vai matar muito mais. Aí quem sabe, nesse dia, você faça uma homenagem emocionada ao suicida em suas redes sociais. Quem sabe poste uma foto, até monte um clipe no Youtube e relembre, relembre, relembre...

Não vai mudar nada, mas ainda serve como um bom desencargo de consciência.


Vida que segue.  

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sementes do Desvario



Fita os próprios olhos a fim de encontrar respostas
Passa pelo dia-a-dia ignorando os clamores da própria alma
O coração acende suas luzes, dispara seus alarmes
Mas inexoravelmente adia atitudes,
faz-se de surdo ante aos gritos que vêm de dentro
Faz-se de cego ante ao incêndio causado pelo tempo, que corre
Estoca vontades, adia carinhos, aborta momentos
Abre rotas de fuga e é tragado pela terra
Some. Desaparece.
Mas encontro-o, em sonhos,
enquanto a realidade ainda não nos permite encontros
Cala-se. Esconde-se. Esquiva-se.
Recolhe-se. Planta-se . Colhe-se.
Que terremoto foi, em minha vida, sabê-lo!
Que nova semente foi essa, plantada em meu coração,
a semente do desvario.
Desconhecida, mas tão querida
Por desconhecê-la,
não sei ao certo o tempo que precisa para erigir da terra,
Crescer e fazer-me sombra,
Mas por tanto querê-la, espero
Pois as sementes do desvario, tão raras,
Ainda hão de encher-me a vida
com suas doses de loucura.