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sábado, 29 de março de 2014

Luminária, lata, lixeira e bailarina



Tive duas grandes frustrações na infância.

Eu morava numa rua sem saída e, todos os dias em que eu voltava da escola, sentia meu coração acelerar ao começar a andar na minha rua. Sempre tive a esperança de encontrar em frente da minha casa um caminhão de alguma loja de móveis da cidade, desembarcando o meu sonho.

Como eu nunca flagrava o momento dessa entrega, eu entrava em minha casa ansiosa e ia com o coração a mil para o meu quarto. Eu queria jurar que os meus pais teriam sido mui criteriosos e teriam feito tudo cronometradamente de modo que, quando eu chegasse ao meu quarto, ela já estaria lá, montada, à minha espera: a minha escrivaninha!

Eu sempre sonhei com uma escrivaninha no meu quarto, com direito à luminária, uma lata linda e decorada para os meus lápis e canetas, uma lixeira simpática no cantinho, para eu jogar os meus papéis _até hoje a sensação de embolar os meus rascunhos e jogá-los fora é indizivelmente prazerosa para mim!_ e, para coroar, sobre ela a minha segunda grande frustração de infância: a caixinha de música. Daquelas que tocavam o "Lago dos Cisnes" ou "Love Story" e tinham uma bailarina, com saia de filó, rodopiando, majestosamente, em seu centro.

Ah, como eu sonhei, como eu desejei com todas as minhas forças, cada dia da minha infância, encontrar com a minha escrivaninha, no meu quarto, com luminária, lata, lixeira e bailarina!

No entanto, esse encontro nunca aconteceu para mim. Eu escrevia, desenhava e ouvia música na cabeceira da mesa de madeira de oito lugares, imponente, que ficava na sala de jantar. Eu sempre fingia que a sua ponta era a minha escrivaninha e ignorava todo o seu restante. Eu não precisava _e nem queria_ todos aqueles metros de madeira, nem das suas outras sete cadeiras caprichosamente estofadas de veludo verde militar; eu só precisava do seu primeiro metro e de uma única cadeira para me sentir escritora, nada além disso.

Hoje vejo o quão fáceis de realizar eram os meus maiores sonhos irrealizados. Talvez isso seja culpa minha, eu nunca os revelei para a minha mãe. Não dessa maneira. Não com a devida importância.

Depois que eu me via no meu quarto tal qual eu o havia deixado pela manhã, antes de ir para a escola, o desapontamento passava, eu recobrava o ritmo _como quem volta de um afogamento_ e ia almoçar, contando os detalhes da minha rotina escolar, entregando o hibisco vermelho para a minha mãe, que eu quase todo dia colhia do pé de hibisco que tinha na minha rua ou ainda, mostrando a ela alguma prova recebida na escola.

Além das duas grandes frustrações, eu tinha um vício crônico: eu nunca entrava no meu quarto sem dar uma conferida no chão da sala, à procura de uma carta. Eu sempre esperei _também_ por uma carta.
Via de regra, chegavam contas e não eram para mim, mas era extasiante o sentimento de flagrar alguma correspondência ali, deixada pelo carteiro, perto da porta, no chão da sala. 

Aliás, eu adorava chegar à minha rua e ver o carteiro, de porta em porta, depositando cartas! Ele nunca soube, mas a sua presença ali sempre acendeu uma alegria esperançosa e inexplicável no meu coração. Talvez porque eu adorasse ouvir da minha mãe as histórias de sua infância, entre os seus nove irmãos, filhos da minha avó guerreira e do meu avô, carteiro.

Não sei, realmente eu não sei se ser neta de um carteiro explica essa minha emoção maravilhosa, mas nunca chegou a carta que mudaria a minha vida. E também nunca chegou a escrivaninha. Nem luminária. Nem lata. Nem bailarina.

Muitos anos já passaram. Decerto os meus sonhos de menina escritora, melomaníaca e romântica incurável continuam aqui, dentro de mim. Eu continuo esperando que a vida me traga a grande notícia. Sim, eu continuo espiando os seus cantos. Pressinto que, um dia, ela há de me surpreender com luminária, lata, lixeira e bailarina.

Com luz, coração, depósito e canção.

Libertad Tracionera



Olhou para a vida e não havia ninguém ao seu lado
Isso não a incomodou,
apreciava [e muito] o silêncio
Olhou para dentro do seu coração e, do mesmo modo,
nele também não havia alguém
Respirou profundamente, sentiu-se livre
Não havia em sua vida com quem se planejar
Não havia alguém a quem dedicar pensamentos e vontades
Não havia alguém para quem ela ansiasse ser a melhor e a única
Não, não havia um amor ali dentro mais
O último partira,
deixara seu coração meio bagunçado,
mas agora já estava tudo no lugar
_arrumado até demais_, concluiu
Sentiu-se esmaecendo
Essas múltiplas ausências únicas começaram a anestesiá-la,
sua pulsação se desencantou,
seu sangue desacelerou, correr por quem?
A sensação de liberdade, outrora maravilhosa,
transformou-se, de súbito, em sufocamento
Ora, como viver sem um amor para amar?
E vida sem amor lá é vida?
Por quem acordar?
Em quem buscar inspiração?
Por quem lutar, por quem viver?
Sentiu seu coração fazendo força para baixo,
tornando-se muito, muito pesado,
crescendo dentro de seu peito,
inchando, transbordando, estrangulando,
inundando as suas narinas
Sentiu-se afogando,
sem flutuar e sem tocar o fundo
Seu coração estava encharcado de liberdade
Inexoravelmente ela estava condenada a ser livre do amor
e sentença alguma lhe teria sido mais cruel.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Na fight





É natural: se você sabe que uma pessoa é forte, você não contém a força.
Bate mesmo. Solta o braço. Ou as palavras. Ou o silêncio. A ironia. A mentira.
Não é por mal, o inconsciente diz que ela aguenta, ela vai sobreviver.
É por isso que eu não tenho paciência pra melindres, nem pra mimimi,
porque eu nunca precisei de alguém intercedendo por mim, 
suplicando para que parassem de me bater.
A covardia da vida foi ter me dado oponentes fracas,
pelas quais o mundo inteiro toma partido, se mobiliza, faz campanha, volta atrás.
Golpe baixo.
Mas também, via de regra, nunca vi um valente paparicado,
dependente de defensores ou de drogas prescritas.
Atitude faz parte. É natural, é instinto.
Eu não preciso _tampouco admito_ que paguem com a própria verdade para
que eu me mantenha de pé. Sacrifícios legítimos são apenas os meus. 
E é exatamente isso que me tira da competição.
Não sou páreo pra quem quer ser.

terça-feira, 11 de março de 2014

Suspicious Minds

Suspicious Minds


Seu nome? Marina. O nome de sua insônia? Diego.

Marina e Diego se conheceram num desses acasos bem acasos mesmo. Não convém explicar esse acaso inocente agora, apenas basta dizer que logo se tornaram amigos. Viajavam muito, num trabalho temporário que tinham. Estavam sempre juntos, muitas vezes de mãos dadas. Em quase todas as viagens ele recostava a cabeça no ombro dela ou até mesmo se deitava em seu colo. Ela acarinhava seus cabelos, o queria muito bem. Sempre que podiam, contemplavam _deslumbrados_ o Sol se pondo, através dos vidros do carro.

No entanto, o tempo do trabalho chegou ao fim. Como eu disse, era temporário. Só que esse novo acaso, que mudou a multicolorida rotina de Marina e Diego, não os impediu de colorirem ainda mais a sua amizade que, definitivamente, desabrochou para além dos vidros do carro.

Tinham uma espécie de relacionamento tão simples e tão confusa de se entender! Eram amigos. Amigos que se telefonavam em plena manhã de terça-feira só para dar bom dia e ficavam mais de uma hora conversando. Depois sumiam um da vida do outro. Passavam uma semana, dez, dezoito dias sem se darem notícia.

Numa surpresa maravilhosa, ele aparecia no novo emprego dela, nos Correios, em pleno entardecer de quinta-feira. Ou de segunda. Nesse espaço de tempo, porém _entre um telefonema e uma visita repentina_, Marina mal dormia. Pensava em Diego mais que deveria. Como ele mexia com ela! Sonhava com Diego, ele era seu pensamento constante.

Num outro acaso da vida, se beijaram. Passaram a noite juntos, nada fôra planejado. No dia seguinte, eram ainda mais amigos. Não tocaram no assunto depois do ocorrido, mas ora! O que pode ser um relacionamento mais almejado pelos humanos que a amizade entre eles?! Amigos se ajudam. Amigos se apoiam. Amigos se escutam. Amigos se aconselham. Amigos se amam _não se amam?!

Depois daquela noite de explosão das cores da amizade colorida de Marina e Diego, no entanto, nunca mais, jamais tocaram no assunto. Marina passou a pensar ainda mais em Diego e nunca pôde saber dos efeitos daquela noite dentro dele.

Retomaram, etão, a amizade em cores neon, naturalmente. Diego a visitava esporadicamente nos Correios. A abraçava forte e demoradamente. Olhava-a com muita atenção, curiosidade e ternura. Beijava-lhe a cabeça, as mãos. Exaltava a sua inteligência e o seu senso de humor. Ela, por sua vez, ansiosa e feliz, desembestava a falar. Mal respirava, emendando uma ideia na outra. Diego pedia-lhe calma e ria. Genuinamente achava graça da vivacidade de Marina. Mas logo depois ele sumia e novamente ficava uma semana, dez, dezoito, vinte e cinco dias sem dar notícia.

Como Marina sofria!

Queria contato, queria notícia, queria a presença do Diego, queria o Diego! Mas se continha. Afinal de contas, para os padrões sociais ela já havia extrapolado o limite da (falsa) moral e dos bons (e falidos) costumes. Deveria se resguardar. Ao menos, tentar.

Dormira com ele. Dormira sem eufemismo: entregara-se a ele. E ele a ela?! Ela fez amor. E ele?! Teria feito sexo ou a amara também?! Como saber, se jamais tocaram no assunto?!

Os dias silentes eram, para Marina, de uma agonia sem fim. Queria procurá-lo, mas não podia. Queria telefonar para ele, mas evitava. E quando, enfurecida, decidia esquecê-lo de vez e colocá-lo no patamar de amigos-e-só-amigos, com um pressentimento infalível, Diego ressurgia. Bagunçava todas as gavetas da alma de Marina, que estava há dias tentando organizar-se. Ele sabia exatamente o que dizer para que ela parecesse importante _importantíssima!_ para ele. E sempre parecia que dessa vez Diego nunca mais se afastaria. 

Mas Diego sempre se afastava. Diego sumia.

Numa dessas súbitas aparições de Diego, Marina ficou tão entusiasmada, que decidiu comprar um presente para o seu amigo-muito-mais-que-só-amigo. Marina comprou-lhe um relógio. Não era dos caríssimos, não havia nada de especial naquele relógio senão as expectativas que seus frágeis ponteiros sustentavam. Marina sonhava com aquele relógio no pulso de Diego gritando-lhe, sutilmente, minuto a minuto, a saudade e a urgência dela. Sim, as intenções de Marina eram tão somente as de ser lembrada. Então, Marina, corajosa que só ela, comprou-lhe o relógio e, não satisfeita, confessou-lhe por telefone que havia lhe comprado uma lembrança, sem revelar-lhe de fato o que era. Diego mostrou-se feliz e até lisonjeado com a notícia, mas só. Sumiu pelos minutos, horas, dias e semanas que se seguiram. 

Muito aparentemente, sem saudade alguma de Marina.

Marina guardou com cuidado a caixinha embrulhada em papel vermelho luminoso no fundo de uma gaveta. Nos primeiros dias _quando ainda aguardava por um telefonema ou por uma visita de Diego_, ela pegava a delicada caixinha com tamanha perícia, a acarinhava como se fosse o próprio rosto de Diego e puxava na memória os detalhes do relógio que a caixinha guardava.

No entanto, os dias foram avançando. Diego viajou para a Austrália com a família e sequer procurou Marina para se despedir.

Como esse descaso a resignou! Como Marina se sentiu desimportante! Nem amiga-e-só-amiga-nada-mais-que-amiga ele a considerou.

Então, dia a dia, a imagem de Diego ia esmaecendo na memória e no querer de Marina.

Entre um acaso e outro porém, um dia Marina reparou em Marcel, seu colega de trabalho, que já a notava (e a queria) havia um bom tempo. Marcel e Marina tinham disparidades e simbioses gritantes. Isso a desafiava.

Noutro dia, por um acaso mais que proposital, Marcel e Marina se beijaram, num contexto muito bonito, que também não convém revelar agora. Passaram a noite inteira conversando. Não entregaram seus corpos, mas entregaram suas almas.

Muito rapidamente Marcel entrou de vez na vida de Marina, que sacudiu para sempre a vida de Marcel.

Até que Diego reapareceu, mas Marina já havia o colocado no patamar de amigo-e-só-amigo-nada-mais-que-amigo. Tornara-se indiferente. Diego estranhou, reclamou, mas Marina realmente já não se importava se ele ligava, se ele existia ou deixava de existir.

Numa tarde de domingo, Marcel e Marina estavam na casa dela, rolando no chão entre as almofadas espalhadas, brincando de cócegas e lutinhas, depois de assistirem ao "Antes do Amanhecer" _o filme preferido dela_, que passou a ser um dos preferidos dele também.

Depois que perderam o fôlego várias vezes, Marcel se levantou e foi à cozinha para beber água e se recompor. O telefone de Marina tocou _e como ela adorava aquele toque! Suspicious Minds, do Elvis!_. Ao telefone, era uma colega de Marcel e Marina, que lhes dava uma informação importante, que era preciso anotar. Então Marina, no chão, entre as muitas almofadas, pediu a Marcel, que estava em pé, bem próximo à cômoda, que pegasse uma caneta e um bloquinho na gaveta. Mais ao fundo estava a caixinha de papel vermelho reluzente, já esquecida.

Quando Marina encerrou a ligação, Marcel pegou a caixinha e num tom de pura leveza perguntou-a o que era. Marina meneou a cabeça e disse que não era nada de mais, que o que estava ali não tinha a menor importância _e não tinha mesmo. Marcel então colocou a caixinha no fundo da gaveta novamente e correu para beijar Marina, que o esperava com seus braços para o alto e com o seu sorriso mais bonito.

O mundo de Marina já não cabia mais dentro de uma caixinha bem intencionada.