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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Eu não quero dançar essa dança



A menina olha as outras ensaiando a coreografia, todo dia. Elas estão entrosadas, esfuziantes e concentradas. A menina olha de longe e não se sente parte disso. Ela sabe que não faz parte disso. Estudam na mesma escola, usam o mesmo uniforme, têm os mesmos professores, patrões, mas isso não as tornam iguais. Têm desejos diferentes, saudades contrárias e sensações que não se podem acarear.

Talvez eu seja essa menina que, do meu cantinho, vejo o mundo acontecendo, as pessoas se entendendo, repetindo exaustivamente coreografias que, pra mim, não fazem o menor dos sentidos.

Às vezes me sinto no lugar errado, nascida na época errada. Gosto de músicas que não são do meu tempo, de filmes de outras décadas, autores já idos, palavras em desuso. Até os sentimentos de outrora parecem-me ser diferentes, mais genuínos, talvez mais inocentes, e por isso mesmo, mais verdadeiros. Sinto saudade do amor que experimentei um dia, que existe nos livros e nas memórias dos mais velhos que eu.

Qual é o conceito de amor hoje? Como é ter um amigo de verdade, se tudo demanda tempo e tempo é o que não temos?

Somos todos velhos conhecidos estranhos. Ainda nos surpreendemos com notícias de suicídio de pessoas que nos deram todas as evidências de que pensavam em dar cabo à própria vida. O mundo ficou pasmo com a atitude de Robin Williams, eu não. E nem me espantaria se a manchete principal de hoje fosse a de que Jim Carrey fez a mesma coisa. Isso não é bruxaria, é olhar para além do que se vê. As pessoas hoje, apesar de saberem que o mundo é fake, acreditam naquilo que veem, sem aprofundar um centímetro o olhar. Isso é praticidade. Os sentimentos são rasos, as relações são descartáveis, de uso imediato. Não existem mais amizades, compaixão, empatia, tampouco amor.
É chato ficar daqui, do canto, assistindo ao mundo fake, de belas coreografias. Toda hora alguém passa por mim e diz: “-Vai lá! Dança com elas! Não fica aqui, escondida, você é tão bonita.” E eu sinto um arrepio gelado na espinha, um desgosto profundo por ter que estar aqui assistindo a esses movimentos sem sentido, insossos, mecânicos.

Acordam cedo, trabalham, voltam,  [fazem selfies], dormem.
Acordam cedo, trabalham, voltam,  [fazem selfies], dormem.
Acordam cedo, trabalham, voltam,  [fazem selfies], dormem.
Acordam cedo, trabalham, voltam,  [fazem selfies], dormem.

Dizem que isso dignifica o homem. Com certeza isso foi dito em um outro momento, com outro sentido.

Não acredito que a vida seja isso. Elas são preparadas desde crianças para fazerem esses movimentos, nunca as vi perguntando à direção o por quê, nunca as vi inovando, tentando uma nova ideia ou música. Não tentar é uma expressão de sua praticidade inexpressiva.

E quando digo que eu quero deixar o grande teatro e ir para longe, onde não há ninguém, chamam-me de antissocial, ou de rebelde, até mesmo de louca. Mas eu quero mesmo. Sonho em um dia poder sair de perto dessas poltronas enumeradas e ir para a beira do mar. Eu terei um cachorro, talvez. Cachorros não adentram teatros, de modo que, cachorros continuam essencialmente leais. Quero não ler o programa do dia, não saber dos novos atores e suas coreografias. Não quero ter pessoas ao meu lado e sentir saudade delas, não quero ser um enigma, pois foi isso que nos tornamos. Os problemas matemáticos não são resolvidos sem atenção e concentração, e somos todos isso: problemas matemáticos. Precisamos de um esforço exponencial e exaustivo do outro para sermos simplesmente enxergados, isso é tão triste! Eu não quero mais cumprimentar quem passa por mim aqui no cantinho do corredor do teatro, tentando ser simpática por trás de um sorriso forçado, nem ficar tentando me equilibrar numa postura que não evidencie tanto o meu desconforto diante da estranheza das pessoas que me olham, mas não me enxergam, e simplesmente me atacam com suas opiniões e teorias que, estou certa, jamais perguntei.


Sim, quero uma cabana, um cachorro e o mar. Jogar meu Registro Geral fora. Não sou um número, não sou uma estatística, não sou um dado, não sou mais uma atriz desse grande teatro mastigatório. Quero ter das pessoas apenas vagas lembranças. Quero ter dos sentimentos essa nostalgia que eu sinto bem aqui, perto delas. Não quero notícias, não quero convites, dispenso a área vip. Eu só quero poder contemplar o Sol, amar o calor sem ser chamada de louca por isso. Quero afundar meus pés na areia, poder ficar em silêncio sem ter palavras exigidas. Quero ter sensações, viver em profundidade até chegar meu último dia. Quero, literalmente, morrer na praia. Isso é tão ínfimo para quem vive no glamour do teatro, mas holofotes não me interessam, obrigada. O meu anonimato sempre será o meu sucesso.

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