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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Palavras são tiros



Mais uma vez eles terminaram. Ela estava furiosa, acabara de ouvir dele as palavras mais pesadas dos últimos tempos. Mandou-o embora. Ele foi. Sabia que poucos dias depois se falariam novamente e reatariam, como nas outras oito vezes dos últimos três meses.

Ela se sentiu aliviada. Pela primeira vez não estava com remorso, tampouco com medo de se arrepender. Ele foi ferino com ela e, no fundo, ela estava até agradecida por isso. Com todos os insultos ela juntou forças para arrancá-lo de vez da sua vida e prosseguir.

Dessa vez ele não ligou horas depois, como das outras vezes. Ele sabia que tinha sido estúpido demais. 

Passaram alguns dias. Ele criou coragem e ligou. Ela atendeu. Com voz determinada, mas delicada. Não sabia ser rancorosa, ela sabia que rancor dá câncer. No entanto disse a ele que era mesmo o fim. Ele não acreditou, ela sempre o perdoava! Então ele lhe pediu perdão. Ela perdoou, mas lhe explicou que perdoar não era a mesma coisa que aceitar e que não voltar para ele não era um ato de orgulho, mas de respeito por si mesma. Ele não aceitou, chorou. A ligação durou mais de quarenta minutos. 

Três dias depois sem dar notícias, ele apareceu no prédio dela, sem avisar. Quando ela desceu à portaria, encontrou-o sentado na calçada, chorando. Ele estava desesperado. A pediu para andar um pouco com ele. A noite estava quente, a lua cheia iluminava a rua. Ela aceitou. Deram uma volta pelo quarteirão, andando lentamente. Ele mal falava de tanto soluçar. Ela só ouvia, com os braços cruzados atrás das costas, dizendo com o seu corpo que não sentia o menor receio de estar ali. Nada a comovia, estava curada. Estava ali por humanidade, não por arrependimento. Não queria negar a ele a chance de se abrir, de se desculpar, de se redimir. 

Sentaram-se no ponto de ônibus no final da segunda quadra. Havia alguns carros treinando baliza a alguns metros deles. Dali ouviam um grupo de jovens rindo, na casa da frente. A rua estava bastante iluminada. Com a luz presente daquele jeito, as lágrimas dele ficavam em evidência. Ele não se importava. Chegou a se sentar no chão, bem perto dos pés dela. Estava arrependido. Mais que arrependido. Falava até em suicídio. Ela, no entanto, não sentia nada. Talvez se sentisse algum fio de ódio, seria um sinal de sentimento, mas nada.

Ele olhava para ela, reparava o quanto estava mais linda. Ela tinha uma trança caindo sobre seu ombro direito, esmalte claro nas unhas. Como ele amava a sua simplicidade! Ele suplicava que ela voltasse pra ele. Ela dizia que não. Relembrava-o  das queixas que ele mesmo fez inúmeras vezes, quando os comparavam a outros casais, como se todos fossem sempre mais felizes que eles. Ele, porém, disse a ela que era feliz com ela sim, mas não sabia. E com essas palavras, finalmente despertou um sentimento dentro dela. Ela sentiu-se malograda. Ela sabia que a felicidade no amor é evidente, ninguém é feliz no amor sem saber que é feliz no amor, oras!

 E com esse argumento infeliz, ele a perdeu, para sempre. 

Voltaram até à portaria do prédio dela do mesmo jeito, andando lentamente, ele chorando e ela, de braços cruzados atrás das costas, o ouvindo. Ela subiu de volta para o seu apartamento e ele voltou para a sua casa cabisbaixo, lento e com os braços cruzados atrás das costas, dizendo com o seu corpo que estava completamente rendido à solidão avassaladora que ora chegava para o engolir. 

Ele sabia que acabara de receber dela o último abraço de sua vida.

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