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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Autorretrato


A multiplicidade das sensações
A tempestade dos sentimentos
O terremoto dos desejos
A sede pela justiça
Um labirinto espelhado
à procura de mim mesma
O espelho quebrado que me multiplica,
me divide em várias,
me atormenta e me alucina, 
me afasta e me aproxima
Os cacos do espelho
refletem meus traços, 
mas não me fazem refletir
Eles me incendeiam
e me instigam cortes na veia
Me acusam por ter nascido
Mas defloram alguma beleza nisso.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (04/15)


“Meu mundo caiu
e me fez ficar assim…”
                                                                                                          ( Maysa)

Acredito que a vida escolha determinadas pessoas para vivê-la intensamente. É impossível viver com profundidade sem conhecer dores específicas. Até os dez anos eu tive uma vida feliz, tranquila. Fora o trauma de ter perdido um irmão recém-nascido, aos dois anos, não tive dores consideráveis até os meus dez. 

Por ter perdido meu irmão sem ao menos conhecê-lo, quis compensar o meu pai de alguma forma e, por isso, colei nele. Assistia às corridas de F1 com ele aos domingos e me apaixonei por futebol. Ele me ensinou todas as regras e as manhas desse esporte ainda tão masculino. Anos depois cismei até de ser jogadora, e apesar de ter ganhado medalhas na escola, definitivamente isso não era para mim. Mas meu pai e eu éramos uma dupla e tanto. Torcedores do Mengão, não perdíamos um jogo. E na cidade, torcíamos para o Estrela do Norte F.C. Íamos aos sábados de manhã assistir aos treinos, e às noites de quarta, ao estádio assistir aos jogos. Minha mãe deixava, sob a condição de eu não faltar aula no dia seguinte. Sempre deu certo. No fundo, sempre quis mostrar para o meu pai que ele não precisava ter um garoto para se sentir acompanhado. Tudo o que pude fazer para ser um “parceirão”, eu fiz. 

Uma crise já havia se instalado em nossa casa quando eu tinha dez anos. Meu pai, que era maquinista de trem da Rede Ferroviária Federal S.A., perdera o emprego no ano anterior e minha mãe passou a sustentar a casa fazendo salgadinhos, doces, bolos e tortas sob encomenda. O clima ficava cada dia mais pesado e eu me tornei uma bolinha de ping-pong arremessada de um para o outro. Eles mal se falavam.

Um dia meus pais tiveram uma discussão horrível, dentro do carro, a caminho da igreja. Ele estava levando minha mãe para uma reunião de mulheres e eu estava indo para brincar com as filhas das mulheres reunidas. Eles brigaram porque ele a estava levando de má vontade. Eu fui ao bar da esquina chamá-lo e interrompi sua sagrada sinuca. Super mal humorado, ele começou a brigar e minha mãe gritou que se ela pudesse dirigir, não o importunaria com isso. Foi a primeira vez que ouvi uma palavra dura, feia, da qual eu desconhecia o peso:

-- No dia em que mulher minha tirar carteira de motorista, vai ser carteira numa mão e divórcio na outra.

Divórcio. Aquilo me estremeceu, ainda mais porque minha mãe concordou. Descemos ela e eu do carro. Minutos depois, meu pai voltou até à igreja, me tirou da brincadeira com as meninas e me chamou para uma conversa franca e definitiva. Me levou para o salão de festas da igreja, ainda me lembro da roupa que eu usava e do tom de azul das cadeiras de plástico em que nos sentamos, frente a frente. O clima estava deveras solene, eu pressentia a explosão de uma bomba.

Uma pergunta seguida de uma revelação me mudariam para sempre:

-- Filha, você quer que seu pai vá embora? 

Meus olhos arregalados e o arrepio no meu corpo inteiro o responderam. Eu meneei a cabeça. E eis sua revelação, sua promessa, ameaça, agressão ou sei lá o quê:

-- Bom, eu tenho um outro filho. Ele é mais velho que você. Hoje sua mãe falou em separação, você ouviu. Se você não quer que seu pai vá embora, trate de tirar da cabeça dela essa ideia, senão eu vou embora cuidar do meu outro filho e você nunca mais vai ver seu pai. É isso que você quer?


Desesperadamente eu chorei. Chorei muito. Senti o quê? Raiva dela? Raiva dele? Medo? Raiva desse irmão que nunca tinha ouvido falar? Ansiedade? Curiosidade? Pavor? O que eu estava sentindo? Aquele turbilhão significava apenas uma coisa: eu estava crescendo. Violenta e bruscamente. Naquela noite, fui arrancada da minha doce infância, deixei de ter dez anos e fiz quantos? Dezoito? Vinte e cinco? Trinta e dois? Não sei quantos anos avancei naquela noite com aquela conversa. Simplesmente foi imputada a mim, uma menina de dez anos, a responsabilidade de manter casados os meus pais.

Senti enjoo, uma adrenalina avassaladora, proporcional ao medo daquela bomba que acabara de ser jogada dentro de mim. Quando minha mãe me reencontrou para irmos embora, bastou me olhar pra notar que eu estava estranha, mas neguei. Fiquei calada, tentando digerir cada palavra que eu acabara de ouvir da boca do meu pai, tentando fugir daqueles estrondos explodindo dentro de mim mesma.

Lembro-me que foi o início de uma fase dificílima. Não me abri com ninguém. Todas as noites, eu chorava muito antes de dormir. Comecei a suplicar à minha mãe que engravidasse. Inconscientemente, eu acreditava que um novo filho prenderia meu pai a nós.


Minhas notas na escola despencaram. Minha mãe foi chamada lá várias vezes, as professoras diziam a ela que não entendiam meu novo comportamento. Subitamente me tornei distante, meio que indiferente, absorta, fechada no meu mundo devastado por aquela ameaça bombástica. Até que numa tarde, muitos meses depois, minha mãe resolveu me contar sobre o meu meio-irmão. Ela preparou muito o terreno e me disse, com todo jeito possível. E eu, sorrindo de nervoso, só consegui dizer:

-- Eu já sabia.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (03/15)

“Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro, o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse, eu queria outra vez, mamãe,
começar tudo, tudo de novo.” 

(Herivelto Martins)


Então eu chegava da escola, tinha meus picos de ansiedade e frustração que logo normalizavam. Sem luminária, lata, lixeira ou bailarina, mas empunhando um hibisco vermelho recém-colhido, eu rumava para a cozinha, presenteava a mamãe e, vez ou outra, mostrava para ela uma prova recebida na escola.

Eu tive dois padrões extremamente antagônicos na minha casa. Minha mãe era muitíssimo rigorosa comigo. Sempre exigindo meu máximo, meu melhor em tudo. Um olhar mais sério dela, e eu já tremia inteira. Deus me livre desapontá-la. O olhar decepcionado de minha mãe era (e continua sendo) o último que eu queria ver. Infelizmente o vi muito mais que quis.

Do outro lado do universo dos pesos e medidas estava meu pai. Extremamente comunicativo e piadista. Gostava de me colocar pra dormir e contava histórias de sua infância pernambucana para mim. Meu pai estudou pouco, mas é um homem muito inteligente e curioso, interessado. Não há assunto em que ele não se posicione e argumente. Com ele aprendi a me apaixonar por geografia, mapas e língua portuguesa. Nossos maiores passatempos eram ficar brincando de “qual é a capital” ou ficar conjugando um verbo em todos os tempos possíveis: pretérito, presente, futuro, futuro do pretérito, pretérito-perfeito, pretérito-mais-que-perfeito, e por aí nós íamos.

Um dia eu cumpri todo o ritual "expectativa de ganhar uma escrivaninha x hibisco x frustração por não ter ganhado uma escrivaninha x hibisco x mamãe x prova". Eu devia ter uns 08, 09 anos. Minha mãe estava acabando de lavar a louça para servir o almoço. Eu estava escondendo a prova atrás de mim e quando eu passei a prova para frente e mostrei a ela, ela instantaneamente mudou o semblante e fechou a cara:

-- Oitenta e cinco? Isso é nota que você tire?

-- Calma, mãe, deixa eu te explicar. Essa foi a maior nota da turma, a professora até me deu os parabéns, porque além de mim, uma pessoa tirou 75 e o resto da turma, todo mundo, tirou nota vermelha. 

Neste momento, meu pai estava chegando do trabalho para almoçar e ouviu o que eu havia acabado de dizer. Minha mãe, inexorável, respondeu:

-- A nota do filho dos outros não me interessa. Oitenta e cinco não é nota que vo-cê tire.

Meu pai reagiu sorrindo:

-- Deixa eu ver essa prova aqui! Olha!!! _examinando questão por questão_ Essa é difícil, você acertou, muito bem! Vamos fazer o seguinte: depois do almoço, vamos até à sorveteria para comemorar!

E sempre foi assim. Quando eu tirava noventa e seis, noventa e sete, noventa e nove, minha mãe procurava a questão errada da prova e dizia: “Pelo amor de Deus, você errou isso?” E quando eu tirava 100, ela sempre dizia essa frase, que verdadeiramente odeio até hoje:

“-- Não fez mais que a sua obrigação.

Hoje eu sei que o intento dela sempre foi o melhor. Para ela, me exigir a excelência sempre era a forma de extrair de mim o máximo. No entanto, isso explica como me tornei a pessoa ultra exigente que sou e consideravelmente insegura com meus desempenhos e resultados. Não fico à vontade diante de elogios e, ser a melhor em alguma coisa que eu faça, não me faz sentir melhor, apenas satisfeita por ter cumprido com a minha obrigação de ser excelente. Se isso soa como um castigo, não a mim. Eu seria mil vezes de novo filha da minha mãe. Eu a amo, a amo desesperadamente. Ela me conhece tão bem, que só de me ver dormindo, já sabe se estou descansando ou fugindo da realidade. Não, nem cogite isso, eu jamais trocaria a minha mãe por outra. Foi com ela que eu tive as brigas mais feias e o amor mais visceral, intenso e desmedido. Minha mãe é a pessoa mais importante da minha vida. Se sou pouco, se sou razoável ou um bólide, não importa: eu devo meu tudo a ela. Mas foi bom ter meu pai do outro lado, mediando tanta cobrança, me contando histórias, me levando à sorveteria para tomar sorvetes de brigadeiro e de cereja _esse último, meu preferido.

E assim, em meio a tanta disparidade de percepções de mundo, eu caminhava para dias terríveis que me esperavam e eu nem fazia ideia que eu estava prestes a crescer brutalmente logo ali adiante.

Último dia de Paz



Eles foram até ao estacionamento do prédio. Pararam perto do muro, que dava para o jardinzinho que adornava o pátio. Ela estava visivelmente trêmula, mas conseguiu dizer a ele o que queria, embora fosse impossível olhá-lo nos olhos:

- Eu só queria que soubesse que você mexeu demais comigo todo esse tempo, desde aquele dia em que você riu pra mim, na fila da cantina e me perguntou se estávamos na mesma turma. Eu já sabia que estava em perigo. Me apaixonei por você por puro pressentimento, antes mesmo de trocarmos uma palavra. Foi intuição. E também foi doloroso ficar disfarçando por todo esse tempo em que convivemos. A cada vez que você ria de alguma coisa que eu falava, eu sentia vontade de pular em você, num abraço apertado e demorado. Até no teu silêncio eu me inspirava para te dizer o quanto você estava fazendo a diferença na minha vida gris. A gente nunca conversou sobre os assuntos difíceis. A gente sempre falou das provas, trabalhos e bobagens que vivemos lá fora, nessas últimas seis semanas. Não sei da tua vida, você não sabe nada da minha também, mas eu sei que te faço bem. E você me faz bem, demais também. Mas implodi, me contive porque eu sempre soube que a gente nunca poderia, eu vi tua aliança desde o primeiro dia. Por isso nunca te pedi o número do teu telefone. E nem vou pedi-lo agora. Pense em mim como uma incerteza, não esteja certo de que eu algum dia existi... Graças a Deus hoje é o último dia de aula. Você não merece se perder por minha causa.

Ele sentia um nó na garganta e borboletas se remexendo em seu estômago, ao mesmo tempo em que ouvia corais celestiais e via uma cratera se abrindo bem à sua frente. Ela lhe parecia inacessível até então, de modo que, ter sua companhia já era para ele, uma dádiva. Ele sempre quis pedir a ela o número de seu telefone. Queria lhe dar bom dia, telefonar no meio da tarde, mas ela era inatingível e ele já estava mais que abençoado por tê-la como companhia durante as quatro horas das últimas seis semanas de aula. 

Antes que ele conseguisse pronunciar uma palavra, ela se foi, lentamente. Em completo estupor, seu coração que parecia já ter morrido há tempos, agora pulsava dentro de seus ouvidos. Ele sentia uma lágrima cair de seu olho. Foi-lhe revelado que era tudo recíproco. A verdade velada teria lhe feito menos mal. Ela ter ido embora para lhe deixar em paz foi o que fez com que ele nunca mais experimentasse um segundo de paz a partir de então.

As palavras finais ficaram reverberando dentro dele: 'você não merece se perder por minha causa', 'você não merece se perder por minha causa', 'você não merece se perder por minha causa'... Talvez ele não merecesse mesmo. Olhou para o chão, pegou o celular do bolso, não conseguiu enxergar o que estava na tela. Passou as duas mãos pelos cabelos, esfregou os olhos, sentiu suas pupilas explodindo. Sentiu enjoo, sufocamento, vontade de chorar. Olhou para sua aliança. Ali não era o seu porto seguro, era a prova de uma escolha errada que magoava duas pessoas, agora três. 

Aquele era o último dia de aula.

Estava perdido.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Tudo é Dor



Toda dor dói.
Nascemos aos prantos,
untados no desconforto de quem sai do aconchego morno para o frio mundo.
Nos arrancam de dentro.
Nos cortam.
Nos molham.
Nos secam.
Nos deduzem, mas não nos compreendem.
Nos atiram lá dentro.
Nos retalham em cobranças.
Nos afogam em comparações.
Nos dissecam em preconceitos.
Sempre nos deduzindo, jamais nos compreendendo.
Dói o movimento dos cristais formados no interior dos rins.
Dói a sucessão de contrações para parir.
Dói o corte na carne, a pedra enterrada na derme.
Dói nascer.
Dói crescer.
Dói viver rejeitando o modelo ideal.
Dói viver a rejeição do que se diz natural.
Dói a dor que não tem rosto, é sem nome.
Dói não saber.
Dói saber demais.
Dói o mosaico de saudades inconscientes da segurança do útero de onde saí.
Dói a calmaria nauseante de quem sofre sem saber que sofre.
Dói ter que se explicar a quem nunca vai entender.
Dói tentar caber e ser maior.
Dói ter coração onde é normal ter um código de barras.
Sim, toda dor dói.
Seguimos doendo.
Sempre deduzidos, nunca compreendidos.
Puro dolorimento.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (02/15)

“Quando fores crescido,
hás de querer ser feliz.
Por enquanto não pensas nisso
e é por isso mesmo que o és.”
(José Saramago)

Tive duas grandes frustrações na infância.

Como eu disse, a “rua do Roberto Carlos”, em que eu morava, era sem saída e, todos os dias em que eu voltava da escola, sentia meu coração acelerar ao começar a andar na minha rua. Sempre tive a esperança de encontrar em frente da minha casa um caminhão de alguma loja de móveis da cidade, desembarcando o meu sonho.

Como eu nunca flagrava o momento dessa entrega, eu entrava em minha casa ansiosa e ia com o coração a mil para o meu quarto. Em sua porta, tinha um quadrinho de madeira onde se lia: “Este é o mundo particular de Ludmila”. E era mesmo. Era nele que eu mais sonhava, chorava, planejava, brincava, queria... acho que levei tão a sério essa coisa de “mundo particular”, que cresci estimando muito a privacidade. Sim, a privacidade, para mim, vem antes da letra A no meu dicionário, e é tão importante em minha vida quanto a saúde. Se eu sentir que estou tendo minha privacidade invadida, eu me isolo, mesmo que isso soe como um ato de hostilidade. De fato, obviamente não foi um quadrinho de madeira na porta do meu quarto que fez isso em mim. Mais pra frente voltarei a falar nisso.

Mas voltando à minha ansiedade, eu chegava em casa com o coração disparado, e ia direto para o meu quarto. Eu queria jurar que os meus pais teriam sido mui criteriosos e teriam feito tudo cronometradamente de modo que, quando eu chegasse ao meu quarto, ela já estaria lá, montada, à minha espera: a minha escrivaninha!

Eu sempre sonhei com uma escrivaninha no meu quarto, com direito à luminária, uma lata linda e decorada para os meus lápis e canetas, uma lixeira simpática no cantinho, para eu jogar os meus papéis _até hoje a sensação de embolar os meus rascunhos e jogá-los fora é indizivelmente prazerosa para mim!_ e, para coroar, sobre ela a minha segunda grande frustração de infância: a caixinha de música. Daquelas que tocavam o "Lago dos Cisnes" ou "Love Story" e tinham uma bailarina, com saia de filó, rodopiando, majestosamente, em seu centro.

Ah, como eu sonhei, como eu desejei com todas as minhas forças, cada dia da minha infância, encontrar com a minha escrivaninha, no meu quarto, com luminária, lata, lixeira e bailarina!

No entanto, esse encontro nunca aconteceu para mim. Eu escrevia, desenhava e ouvia música na cabeceira da mesa de madeira de oito lugares, imponente, que ficava na sala de jantar. Eu sempre fingia que a sua ponta era a minha escrivaninha e ignorava todo o seu restante. Eu não precisava _e nem queria_ todos aqueles metros de madeira, nem das suas outras sete cadeiras caprichosamente estofadas de veludo verde militar; eu só precisava do seu primeiro metro e de uma única cadeira para me sentir escritora, nada além.

Depois que eu me via no meu quarto tal qual eu o havia deixado pela manhã, antes de ir para a escola, o desapontamento passava, eu recobrava o ritmo _como quem volta de um afogamento_ e ia almoçar, contando os detalhes da minha rotina escolar, entregando o hibisco vermelho para a minha mãe, que quase todo dia eu colhia do pé de hibisco que tinha na minha rua ou ainda, mostrando a ela alguma prova recebida na escola.

Hoje vejo o quão fáceis de realizar eram os meus maiores sonhos irrealizados. Talvez isso seja culpa minha, afinal eu nunca os revelei para a minha mãe. Não dessa maneira. Não com a devida importância, nem na época certa. Contei tudo isso pra ela muitos anos depois, e ela riu tristemente. O que era tão grandioso para mim, não era tão impossível de realizar para ela, mas enfim, isso ficou lá atrás.

Além das duas grandes frustrações, eu tinha um vício crônico: eu nunca entrava no meu quarto sem dar uma conferida no chão da sala, à procura de uma  carta. Eu sempre esperei _também_ por uma carta. Não sei explicar esse meu fascínio por cartas. Sempre achei bonito receber uma carta, saber que alguém parou para escrever algo unicamente dedicado a quem se destina. Eu era uma criança, nem imaginava que viveria a era da Internet... mas mesmo hoje, onde reinam os e-mails, torpedos e “zap zaps”, eu mantenho esse costume dos séculos passados. Eu amo escrever (e receber) cartas. [Para mim isso é normal, uma vez que me sinto pertencer a outro século longínquo, me sinto completamente inadequada aos dias atuais.]


Então, como eu disse, eu sempre esperei por uma carta. Via de regra, chegavam contas e não eram para mim, (graças a Deus!), mas era extasiante o sentimento de flagrar alguma correspondência ali, deixada pelo carteiro, perto da porta, no chão da sala. 

Aliás, eu adorava chegar à minha rua e ver o carteiro, de porta em porta, depositando cartas! Ele nunca soube, mas a sua presença ali sempre acendeu uma alegria esperançosa e inexplicável no meu coração. Talvez porque eu adorasse ouvir da minha mãe as histórias de sua infância, entre os seus nove irmãos, filhos da minha avó guerreira e do meu avô, carteiro.

Não sei, realmente eu não sei se ser neta de um carteiro explica essa minha emoção maravilhosa, mas nunca chegou a carta que mudaria a minha vida. E também nunca chegou a escrivaninha. Nem luminária. Nem lata. Nem bailarina.

Muitos anos já passaram. Decerto os meus sonhos de menina escritora, continuam aqui, dentro de mim. Acho diferente não ter sonhado em ter a boneca que fala ou o joguinho que muda de fase. Eu sempre quis duas coisas que remetem à escrita. Eu nem imaginava que, poucos anos mais tarde, eu descobriria nela a minha libertação. Eu nem supunha que eu traduziria toda a minha dor em linhas. Anos terríveis estavam bem ali, à minha frente, no meu breve futuro. Sem amigos que me compreendessem, eu me fechava no meu “mundo particular” e escrevia, escrevia sem parar. Escrever não resolve o problema, nunca resolveu, mas sempre me deu serenidade para lidar com ele. 

Eu cresci à força. Os anos seguintes, como eu disse, foram duríssimos. E até hoje, eu continuo esperando que a vida me traga a grande notícia. Sim, eu continuo espiando os seus cantos. Pressinto que, um dia, ela há de me surpreender com luminária, lata, lixeira e bailarina.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Que venha o impeachment!


 Eu não tenho carro, e também não ando de ônibus. Não por frescura, mas graças a Deus, posso cumprir meus compromissos indo a pé. Então eu não senti diretamente o impacto do preço da gasolina, que já tá custando um rim.

Tenho sentido impacto nos “nãos” que tenho vivido. "Hoje não tem merenda na escola, alunos." "Filha, deixa o resto da compra no carrinho porque, de novo, o dinheiro não deu." "Eu sei que seu avô está enfartando, mas não há leitos." "Filha, infelizmente eu não vou poder, de novo, comprar calcinha pra você. Eu sei que você tá precisando, mas a conta de luz veio muito mais cara nesse mês, mesmo com toda economia que a gente fez." "Picolé no final de semana? Nem pensar! Não tenho dinheiro pra isso, meu amor, entenda a mamãe."

Eu, francamente, estou exausta de ver escândalo sobre escândalo explodindo na mídia, feito as bombas no Oriente Médio, o governo com sua cara blasé e o povo revoltadinho, postando um monte de mimimi sem eira, nem beira nas redes sociais. Povo burro ou masoquista, sei lá. Reza a lenda que esse povo brigou tanto pela democracia e agora cogita, de boca cheia, a volta da ditadura militar. Não prestou atenção nas aulas de História do Brasil, só pode.

O povo fala tanto em direitos, mas quando cisma em defendê-los, sai quebrando e explodindo tudo o que vê pela frente, feito bárbaros, completos imbecis com quem não se pode argumentar.

Nada muda se nada muda. E como nada tem mudado, pelo visto, nada vai mudar.

Eu não vou entrar no âmbito das planilhas e dos dados estatísticos porque, além de eu ser péssima em matemática (sempre preferi História), eu acho tudo isso muito chato. Desse modo, eu não estou inteirada de quantos milhões da nossa verba foram cortados e desviados, eu não estou a par de quantos por cento o Fulaninho e sua quadrilha têm embolsado, eu também não sei a proporção dos rombos na saúde, na educação, na segurança pública... só sei que é tudo estratosférico, praticamente imensurável para mim, reles “pãe de família”, que não conta com Bolsa alguma, tampouco com pensão alimentícia.

Mas também não sou ingênua de tacar pedra no atual governo como se algum outro fosse salvador. Não tenho um plano B. A culpa é nossa, povo. Quando é que a gente vai exigir um governo que tenha, no mínimo, o terceiro grau para assumir a direção do país? Quando é que a gente vai se interessar pela nossa Constituição? Porque lembrar vagamente das cláusulas pétreas (?) é simplório demais. É nada.

É preciso, no mínimo, interesse naquilo que nos diz respeito, é preciso, no mínimo, dar-nos respeito, e não, ficar de beicinho reclamando da Dilma e “deles”.

Eu fico decepcionada em ver alguns amigos, muito inteligentes por sinal, defendendo o atual governo. Chega de tapar o sol com a peneira, não tá dando certo, admitamos. Se agredir é um extremo, defender é o outro. Está na hora da gente parar com esse cabo de guerra, com essa Babel e passar a falar a mesma língua, urgente.
Aproveito o ensejo para pedir a esses meus amigos que me tratem como uma bárbara-imbecil-completa-com-quem-não-se-pode-argumentar. Me poupem do mimimi. Eu não tenho paciência pra rever esse filme, cheio de palavrório e sem ação. Eu aceito o rótulo de imbecil, a amizade continua, na boa.

Minha certeza reside no não que diz “não aguentamos mais”. Cortes, juros, propinas, escândalos... acham mesmo que o impeachment é a solução? Sai ela, entra quem, Zé Povinho? Antes de mudar de presidente seria mais sensato mudar de povo, esse monstro gigante que desconhece a própria força e a usa da maneira errada, que só se envergonha de verdade quando perde na Copa, de goleada, e que não teve paciência de ler esse texto até aqui por julgá-lo grande demais.

Que venha então o impeachment, mas só depois do Carnaval. Aí a gente pinta a cara de verde e amarelo, e estende a festa.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Podendo ser ou não...




Então chegamos àquela fase crítica
em que queremos prolongar a convivência
já sabendo que nada pode haver entre nós, 
a não ser isso que temos hoje, que tem data para acabar. 
E me sinto atormentada, sei que você também. 
Ao mesmo tempo que você foi uma sorte imensa, 
você foi um passaporte para meus pensamentos mais perigosos, até destrutivos. 
Quem disse que era pra me tirar tantos sorrisos assim, facilmente? 
Quem disse que era para gostar das mesmas coisas que me atraem? 
Quem disse que era pra dar tempero àquelas conversas profissionais? 
Agora estou cansada, 
foragida dos meus próprios pensamentos, 
não tenho mais onde me esconder. 
Eu não posso te querer, mas sorrindo, eu te quero. 
Sorrindo, eu não posso e, por não poder, 
sem sorriso terei que prosseguir. 
Vai ser difícil, mas quando foi fácil? 
Sei que muito de mim irá contigo, 
mas exatamente isso eu sou: 
uma coleção de pedaços de todos que podendo ser ou não, não foram.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione - (01/15)

  “O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano…”

(Paratodos – Chico Buarque)

Tá. Não é bem assim. Meu pai não é paulista, mas meu avô é pernambucano sim, senhor.

Sem muitas delongas, vamos lá: meu pai é pernambucano, minha mãe é mineira e eu, espiritossantense. Popularmente todos os espiritossantenses se autointitulam “capixabas”, mas capixabas são os nascidos na capital, Vitória. Só. Como ocorre entre os paulistas e paulistanos, cariocas e fluminenses, baianos e soteropolitanos, enfim.
Sou de Cachoeiro de Itapemirim, terra de Roberto Carlos. E também de Luz Del Fuego, Sérgio Sampaio, Rubem Braga. E também de Rudson Costa, Aroldo Sampaio, Milena Paixão. Se ainda não os conhece, não sabe o que está perdendo, mas ainda há tempo, viva a internet!

Cachoeiro de Itapemirim foi batizada por Vinícius de Moraes como a “Capital Secreta do Mundo” e também ostenta o título de “Atenas Capixaba”, por ser um celeiro de artistas excelentes. Mas, voltando a Roberto Carlos, sou da terra dele. O diferencial é que morei meus primeiros catorze anos de vida na rua em que ele também morou, onde hoje inclusive, está o museu do “Rei”.
Estou falando da rua João de Deus Madureira, uma rua sem saída. O movimento de carros era (e deve ser ainda) relativamente pequeno. Então eu chegava da escola, almoçava e ia brincar na rua. Religiosamente, pelo menos duas vezes por dia, nossa brincadeira na rua era interrompida por turistas querendo saber qual era a “casa do Rei”. Passei minha infância sendo interrompida por turistas para lhes mostrar onde era a casa do “Rei” Roberto Carlos. Minha mãe nunca gostou muito de que eu brincasse na rua, mas deixava. No fim da tarde ela me gritava do portão e quando não dava mais pra eu fingir que não tinha ouvido, entrava.
Quando eu tinha 13 anos, Roberto _o Carlos_ fez um show em Vitória, mas antes ele passou (“secretamente”) por Cachoeiro, para visitar os vizinhos de sua época: dona Gilda e seu Viana. Idosos, esses senhores faziam parte da história de Roberto Carlos e ele foi visitá-los, com Maria Rita, sua esposa na época.
Não sei como a notícia que o “Rei” estava na cidade se espalhou, de modo que, em poucos minutos, a nossa pequena rua sem saída foi invadida por centenas de fãs. Era noite. Eu morava do lado oposto da casa do seu Viana, mas era inquilina da dona Gilda, morava no térreo e ela, no sobrado! Como eu frequentava desde que era bebê a sua casa, subi os catorze degraus de mármore branco sem a menor cerimônia e me juntei à ela, à sua família, ao “Rei” e à Maria Rita, muitíssimo simpática, por sinal.
Lembro-me bem que eu fiquei abobada, olhando profundamente para aquele casal de outro mundo, observando a grossa corrente de prata no pulso do “Rei” e aquele sorriso fácil e branco de Maria Rita, era tudo hipnótico, magnético.
Eu ainda era uma bobona tímida demais para pedir qualquer coisa para eles, lembrando que àquela época, tirar uma foto não era coisa simples como hoje em dia.
A nobreza então se despediu de nós e desceu as escadas, embrenhou-se na multidão para visitar seu Viana, do outro lado da rua. Meu pai ficou bravo comigo porque não pedi sequer um autógrafo, mas como ele era bem cara de pau para isso, foi à casa do seu Viana, identificou-se como o pai da menina muda que estava no canto da sala da dona Gilda, queimou de leve meu filme, mas voltou glorioso, com meu autógrafo em mão!

Mas o que mais me marcou naquela noite de realeza não foi outra coisa senão ter sido chamada pelo Rei de “broto”. 

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione - Introdução



Existe um pensamento que sempre me visita, principalmente quando estou dentro de um ônibus cheio de gente, na fila de um banco ou noutra qualquer.  Esse pensamento me diz que as pessoas são um universo particular. Ainda que anônimas, mimetizadas em meio às outras, cada uma tem um mundão dentro de si. Medos, arrependimentos, orgulhos, saudades, pecados, alegrias íntimas... e então, sempre que o povão se junta, eu fico observando as pessoas, suas feições; imaginando se estão indo trabalhar, se gostam do emprego ou se estão desempregadas; se têm família, se estão indo para casa, se haverá alguém as esperando, enfim.

Certa de que cada um tem a sua própria história, evidentemente, eu tenho a minha. Muito embora eu tenha aprendido com a vida a não me expor às pessoas, todas as que conhecem algumas de minhas muitas histórias (apesar de eu não ter tanto tempo de vida assim) ficam realmente perplexas com o tanto que já vivi.

A questão é que Shakespeare tinha completa razão quando afirmou que “a maturidade tem mais a ver com os tipos de experiências que se teve e o que você aprendeu com elas do que quantos aniversários você celebrou.

Verdade. Já vivi algumas décadas a mais que registra minha certidão de nascimento. Vou contar algumas delas. Por quê? Não, não sou um ser superior, tampouco um exemplo a ser seguido. Não sou mais que a portadora de uma alma inflamada, inquieta, que precisa de muito espaço para [sobre]viver no sistema, e que não mede esforços para conquistar esses espaços, ainda que isso signifique ferir muita gente, a começar por mim mesma, ainda que pareça que eu esteja dizendo que eu atropelo qualquer um para ter meu espaço, não é nada disso. Estou me referindo mais a ausências e silêncios que ao egoísmo de ferir pessoas por mim mesma. Sim, até hoje, já feri muitas pessoas com meu silêncio, muito mais que com minhas palavras.

Sou também uma pessoa premiada por ter a mãe e a filha que tenho. Enfim, sou a protagonista de histórias que destoam do comum e, por isso, vou me contradizer e me expor um pouco. Como anunciei na fanpage do Copo de Letras há algumas semanas, dividi meu relato em 15 capítulos, que serão publicados sempre aos domingos a partir de hoje, 01º de Fevereiro, findando dia 10 de Maio.

São 15 capítulos resumindo minhas melhores ou mais marcantes experiências de vida. Alguns são lembranças boas, um “causo”, por assim dizer. Outros, no entanto, são lembranças que eu preferiria não ouvir de outra pessoa, muito menos contá-los em primeira pessoa, ou por serem constrangedores, ou por serem deveras doloridos, enfim. Eu tenho certeza de que à medida que a leveza for me deixando, dando espaço ao peso de vivências tão doídas, muitos se espantarão, já que sempre impuseram a mim famas como “cara de rica”, “metida” e coisas afins.

Agora vou começar a contação de história, da minha história, maquiada de poesia. Espero que ela dure até o último capítulo.