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domingo, 29 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (09/15)

“Palavra , palavra,
se me desafias, aceito o combate.”
(Carlos Drummond de Andrade)
A maioria das pessoas que escrevem guarda seus escritos e os mostra, timidamente, para um ou outro, de vez em quando. Pelo menos a maioria das pessoas que escrevem, que eu conheço. Eu, naturalmente, não fugi à regra. Escrevia, guardava. Mostrava às vezes para um professor ou outro, uma jornalista, pessoas que eu julgava serem de confiança e competentes o bastante para fazerem um julgamento. A verdade é que quando se trata de poesia, a quem se pode atribuir tal competência, se a poesia é a expressão de um sentimento que genuinamente é da alma? Com o tempo aprendi que o que me toca, não vai, necessariamente tocar outra pessoa. Vivo me surpreendendo com isso. Escrevo algo que julgo confuso ou razoável e chovem feedbacks incríveis. Por outro lado, quantas vezes já escrevi poemas que me arrepiaram, que mexeram comigo e ninguém comentou nada acerca dele. É imprevisível, simples assim.


Em 2004, com meus 23 anos, guardando poemas desde os onze, eu já tinha um caderno bem recheado deles. Um dia, ao chegar à faculdade com meu namorado, o Villinevy, ele leu um cartaz que divulgava um concurso nacional de poesias para acadêmicos e me encorajou. Eu, obviamente, ri da cara dele e disse que jamais venceria um concurso, ainda mais de nível nacional. Para mim ele estava sendo tendencioso, em depositar em mim tamanha capacidade. No entanto, aceitei o desafio. Parei em frente ao cartaz e anotei todas as informações para participar. A data de inscrição estava muitíssimo próxima, eu precisaria correr, faltavam 02, 03 dias no máximo. Eu disse a ele que me inscreveria só para provar que não daria em nada.



Podendo enviar até 03 poesias, no dia seguinte, fiz uma seleção de 05 e pedi à minha mãe para ler e me ajudar a escolher. Ela leu a primeira, com certa impaciência. Na segunda linha da segunda, ela me devolveu e disparou:

- Quem tem que decidir isso é você, tudo o que você escreve é bom. Manda qualquer uma.



Fiquei super triste. Isso me pareceu desdém, desinteresse. Fui para a faculdade, sentia meu coração batendo nos ouvidos. Não fui pra sala de aula sem antes colocar aquele sentimento estranho para fora, não era capaz de esperar a madrugada chegar para vomitar. Me sentei perto da mesa de ping-pong, no pátio e escrevi: 



ESTRANHA INTIMIDADE



“Seu colo, talvez, seja o último que eu reconheceria.
Mesmo à luz do dia, eu não o saberia.

Da cumplicidade que nunca tivemos

é que sinto mais saudade.
A sua voz não me é tão familiar.
O menor gesto de carinho me constrange.
Não conheço o caminho que leva ao seu coração.
Eu não sei cantar a música da sua alma.
Acho que nunca soube te amar.
O que eu te ofereço, você não aceita;
talvez porque não compreenda.
Somos um projeto de plenitude.
Entretanto, nem todos os projetos prosperam;
alguns tornam-se irrealizáveis.
Papel queimado.
Vela derretida.
Fim da linha.
Resta somente um mosaico lancinante de remorso,
saudade, vontade, culpa.
Tenho ódio da minha infantilidade,
que me impediu de ser uma filha mais próxima.”



Por ser a poesia mais recente, a enviei juntamente com outras duas. Dias depois, para a minha surpresa, concorrendo com outras cento e três pessoas de todo o Brasil, “Estranha Intimidade” levou o primeiro lugar, no XVI Concurso Nacional de Poesia da FAFIMAN – Faculdade de Filosofia de Mandaguari (PR). Foi o estopim para os meus chegados começarem a me “cobrar” um livro. E claro, eu tive que aguentar as provocações maravilhosas do Villy, meu namorado encorajador! Verdadeiramente eu não me inscreveria se ele não tivesse me desafiado. Quebrei a cara, venci. Espero quebrar a cara assim muitas vezes ainda pela vida. 



Ao saber do resultado do concurso, liguei para minha mãe pra contar a novidade. Ela foi meio fria, me deu aqueles “parabéns” meio assim. Foi seco e reto. Poucos anos depois, soube de uma grande amiga dela que ela contou para um monte de gente sobre o concurso, na maior felicidade. 

Sorrindo, nesse momento enquanto escrevo sobre isso e me lembro dela, acho graça dessa postura dela. Eu compreendo que a vida bateu tão forte nela, e sempre, que ela não relaxa quando a vida alivia um pouco. É como se ela estivesse sempre a postos para um contra-golpe. Guerreira. Eu queria ter 10% da fibra dela. Às vezes me sinto igual a ela. Às vezes me sinto uma garotinha totalmente despreparada para a vida.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Bela Adormecida


Chegou do trabalho exausta. Da vida.
Foi direto para o chuveiro, como quem está com muita pressa. E estava.
Queria desvencilhar-se o mais rápido possível dos olhos implacáveis da vida.
Ainda eram pouco mais de cinco horas da tarde.
Bela saiu do banho, sua pele estava fresca.
Seu coração, exaurido.
A vida a esperava, de pé, na porta.
As duas se olharam nos olhos.
A vida mantinha uma expressão blasé, quase cínica.
Bela, por sua vez, tinha os olhos carregados de exaustão.
Ainda sustentando o olhar com toda a força do seu corpo, disse firmemente à vida:

- Pode ficar por aqui mesmo, na sala. Descanse sua mediocridade, eu vou dormir.

- Dormir? A essa hora?

Bela respondeu à vida com um olhar frio e censurador.
Entrou em seu quarto, fechou a porta atrás de si.
Deitou-se.
Cobriu a cabeça, numa tentativa inconsciente de esconder-se da melancolia.
Fechou os olhos.
Desejou não acordar nos próximos oitenta dias.
Na sala, a vida espreguiçou-se no sofá, sua expressão cruel logo se desfez.
No quarto, entorpecida pelo cansaço de ser triste, antes de cair no sono profundo, Bela ouviu risadas que vinham da sala.
Sim, longe dela, a vida era feliz.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Olhos Negros



Antes que as estrelas se diluam no céu negro
Antes que o desvario seja invadido pela pronúncia do dia
Vou beber todo o teu vinho
Vou me diluir nos teus olhos negros
Vou entorpecer o teu corpo sobre a nossa cama febril
Antes que as estrelas fechem teus negros olhos para sempre
Vou invadir teus ouvidos pronunciando gemidos
Vou te quebrar nos dentes feito uma bala de hortelã
Depois adormecer no teu cansaço, até morrer pela manhã

Fecho o livro e meus olhos negros
Ainda ouço teus gemidos se pronunciando em meus ouvidos
Oh, não! Estou adormecendo de cansaço,
Quebrada feito uma bala de hortelã
Entorpecida pelas estrelas diluídas no teu vinho

O voo não passava de queda livre
As asas que me deste jamais se abriram para o desvario
Então abro meus olhos negros e piedosamente sorrio
Camisa de força nunca me caiu tão bem.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Mamãe, a vovó tá beijando outra vovó na sala!


Mais uma vez os crentes de plantão estão chocados. A bola da vez é o beijo gay, exibido na novela das nove. Daí começaram os ataques doídos nas redes sociais: “isso é agressão, não vamos tolerar isso. Nossos filhos não podem ver essas coisas.” Até parece que os crentes não conhecem o livro de Apocalipse, porque né, do jeito que estão em choque, parece até que eles não foram avisados que tudo isso que está acontecendo iria acontecer.

Agora eles estão se unindo em abaixo-assinados sem fim para tirar a novela amaldiçoada do ar. Difícil... não boto fé que isso vá acontecer. Em todo caso, atacando especificamente o beijo gay, os crentes deixam bem claro o seu estúpido preconceito. Nunca vi abaixo-assinado contra a traição, a pornografia, a corrupção, a violência, os assassinatos das novelas. Qual é o peso? Qual é a medida? Filho matar o próprio pai com um tiro nas costas, pode? O herói disparar, em horário nobre, um sonoro “FELADAPUTA”, antes de matar à queima roupa seu arqui-inimigo, pode?

Suponhamos então que o abaixo-assinado da bênção seja aprovado e a novela seja suspensa. O que se ganha com isso? Meu Deus! Vivemos em qual mundo, o de Alice? Quem quer poupar seus filhos de ver beijo gay na televisão, sinto muito em informar: vai ver na vida real. Eu vejo quase todo dia. Já vi na praça, dentro do ônibus, no terminal rodoviário, no shopping, no cinema, sempre lotados de gente. Não foi nas baladas, nem nos becos não. Então, a menos que seu bebê more dentro de uma bolha, alheio a tudo o que acontece, não tem escapatória: ele vai presenciar isso um dia. Seja hoje ou semana que vem.

Mais uma vez eu vejo os crentes cometendo o velho erro de sempre: oram quando têm que agir, agem quando têm que orar. Se Deus é amor, se o mandamento maior foi que nos amássemos como a nós mesmos, que postura é essa, onde aparece o amor nisso? E aquele papo aranha de que não são contra os homossexuais, mas contra o homossexualismo não tá colando. O desamor da nossa realidade prova isso.

Vejo o tamanho da imaturidade dos crentes quando apelam em correntes e posts ofensivos contra os homossexuais. Sim, acabam sendo contra eles, diretamente. Que estratégia imbecil é essa? É porque eu sempre fico imaginando o que Jesus faria. Imagina se Jesus tivesse Facebook, que loucura, mas imagina se Ele ficaria postando essas bombas cheias de moral, de ódio, de repulsa? Ou será que Ele fecharia a porta de Seu quarto e intercederia, secretamente?

O óbvio é que estamos presenciando um massacre virtual (e infelizmente real também), onde o diferente não tem vez. Que fique claro que eu não estou defendendo os homossexuais em si, mas a condição humana, que carece de amor. A revolução do amor deve ser silenciosa, isso não a torna ineficiente, tampouco omissa. Essa postura de repúdio dos crentes me decepciona. Os séculos entram e saem, mas o erro perdura. Povo de boca cheia de argumentos e de coração árido. O mundo é ódio puro, temos que fazer a diferença amando ao próximo e não execrando suas atitudes. Tirar a novela do ar não vai resolver absolutamente  nada. Ao contrário, só vai acirrar essa guerra, que não tem nada de santa.

Desconfio que essa revolta toda dos crentes em detrimento do amor ao próximo entristece o coração de Deus mais que qualquer outra coisa.

Ele só quer que nos amemos. Difícil?

sexta-feira, 20 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (08/15)

“Palavra quando acesa,
não queima em vão.”
(Quinteto Violado)


Escrever. Como eu amo escrever!

Descobri as primeiras sensações das letras na época das “composições de texto”, na escola, criando “início-meio-fim”. Não sei por quê, mas as minhas primeiras lembranças da escola já são de amor pela língua portuguesa. Talvez seja culpa do meu pai, que apesar da pouca escolaridade, nunca admitiu me ouvir falar uma palavra errada. Na minha infância, brincamos muito de conjugar verbos. Nós escolhíamos um verbo e começávamos a conjugação. Presente, pretérito, futuro. Futuro do pretérito, pretérito mais-que-perfeito, pretérito imperfeito. Também não posso deixar de mencionar a “tia” Mariza, minha professora das primeiras séries, que temperava os pratos de letras que meu pai me dava em casa. 

(Não posso deixar de dizer que a tia Mariza faz aniversário no mesmo dia que eu _por sinal, hoje: 22 de Março!_ e isso para uma criança que idolatra a sua professora não tem preço.)

Minha primeira poesia nasceu aos meus onze anos. Foi libertador me livrar de angústias tão densas, escrevendo. Creio que ser filha única tenha contribuído muito para isso. Aguentar a barra de manter um casamento (que não era meu) sozinha é um problema que nenhuma amiga minha viveu. Meus problemas eram diferentes. Eu era diferente.

Como de tantos escritores que eu conheço, minha gaveta começou a colecionar minhas poesias. Eu ia absorvendo dores, dramas, rejeições, saudades, desilusões e, numa madrugada qualquer, sentia a intimação urgente de uma inspiração avassaladora. Escrevia. A angústia passava. Eu dormia. Posso dizer tudo isso no presente ainda, porque acontece ainda hoje, exatamente assim. E não sei se tem cura. Acho que é um mal _ou bem_ vitalício.

Minha primeira experiência realmente impactante com as letras provocou a exoneração de uma funcionária pública. Eu tinha uns 17 anos. Fui tirar meu R.G. na delegacia e fui pessimamente atendida. Tem funcionário público que contribui com a fama ruim da máquina pública.

Foi uma verdadeira odisseia porque minhas digitais são falhas, até hoje. Tive que voltar à delegacia e repetir todo o processo mais duas vezes. Em todas fui tratada com descaso. Do lado de cá, fui contabilizando e registrando todo aquele desprezo. Nunca fui de rispidez ou barraco, Deus me livre. Decidi esperar o momento oportuno e desabafar da maneira correta: escrevendo. 

Na quarta vez em que voltei à delegacia para, enfim resgatar meu R.G., fui ignorada pelas duas funcionárias e tive que esperar nove minutos (contados no relógio) elas assistirem à uma reportagem no programa da Ana Maria Braga sobre implantação de silicone nos seios. Achei aquilo um absurdo sem fim. Elas riam e comentavam a reportagem enquanto eu estava de pé, com o protocolo na mão, sem receber um olhar sequer das duas. Era só uma delas conferir meu nome, ir à letra L e me entregar o bendito R.G. mas isso realmente só aconteceu quando a Ana Maria Braga chamou os comerciais. Indignada, cheguei em casa e escrevi um texto narrando tudo, desde nosso primeiro encontro na delegacia. O texto se chamava “O circo das identidades”. Nada mais propício que um circo para falar de palhaços, o que me senti naquela situação. 

Enviei o texto para um jornal local e ele foi publicado. Meses depois eu soube que havia uma mulher me procurando pelo bairro e algum vizinho especulador descobriu o que ela queria comigo, e me contou. Ela queria me processar em decorrência do artigo que lhe custou a cabeça e a boa vida de funcionária pública.

Busquei respaldo jurídico e fiquei tranquila. Naquela época a maioridade era 21 anos, eu só tinha 17. Ademais, eu não citei seu nome (até porque eu nem sabia), de modo que, se a delegada quis exonerar justamente ela, o que eu poderia fazer, meu Deus?

Numa tarde, a campainha tocou. Fui ao portão atender, era ela. Revoltada, me disse horrores. Me acusou de ter destruído sua carreira, que estava a poucos meses da aposentadoria. 

Até hoje eu não sei se ela realmente foi exonerada, acho que ela foi apenas remanejada ou punida, não sei se alguém é exonerado no Brasil por ignorar um cidadão para assistir televisão. Ainda acho que ela só jogou verde no intento de fazer a minha consciência doer. Mas não doeu não, viu?

E fiquei satisfeita quando soube que, na mesma semana da publicação do meu texto no jornal, a TV foi retirada da delegacia. Eu hein!? Vê bem se meu nariz tá pintado de vermelho, dona Silicone nos Peitos!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Eu Não Percebia


Ontem eu estava no céu
Te vi sorrindo, no meu jardim abandonado, 
colhendo os sorrisos que esqueci
Arranjaste um pequeno espaço na bagunça da minha vida
e até o tempo parou para nos ver dançando as músicas
que cantavas nos meus ouvidos ensurdecidos
Tuas mãos tiravam de mim o menor vestígio de medo
Apagavam com carinhos as lembranças de um passado gris
A incandescência dos teus olhos era o Sol a me aquecer
Teus silêncios declaravam a paz
Eras a própria vida me convidando a viver
Eu não percebia que eras o Diabo me conduzindo ao precipício
Onde não há nuvens de algodão doce, onde o Sol não se deixa ver
A altura da tua covardia era lancinante
Engolida pela vertigem, eu não sentia meus pés
Arrancaste-me a pele, fiquei exposta à tua frieza cortante
Teus sorrisos se esconderam nas duras pedras
Desesperada, eu quis partir em fuga,
mas fui arrastada pelo teu desprezo em movimento
Minha solidão era o céu, mas eu não percebia
Olá, inferno. Eu voltei.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Eu não ia dizer nada, but...




A moda agora é a tal da "liberdade de expressão". Que bonito!! Todo mundo se expressando. Seja propagando o ódio, seja repetindo asneira de um asno maior, seja expressando seu péssimo português em cartazes no meio da galera. 

A maioria dos discursos começa assim: "Eu não ia dizer nada sobre as manifestações/ impeachment/ intervenção militar, BUT..."

Xiu!! Fala nada não. Observe. Estude. Se inteire. Leia fontes seguras. Aja. 

Não saia repetindo por aí o que leu num site que você nem sabe qual é. Quase nada que se lê hoje em dia é confiável, sabia?! Ohh... Verdade, pois é, pois é, pois Zé!

Quem disse que quem cala, consente? O silêncio nem sempre é omissão, não. Você pode fazer silêncio tamanha a sua contrariedade à situação. Você pode fazer silêncio enquanto age, se melhora, estuda. 

Tem gente aclamando o inferno e nem sabe. O inferno tem mais de um nome, prestenção!

Isso que dá desânimo. Ver um mar de gente nas ruas gritando, "e-xi-gin-do" atos inconstitucionais. Impossíveis, para ser mais clara. 

Enfim, eu nem sei por quê toquei no assunto. Acho que, apesar de detestar as modinhas, me afeiçoei a essa tal de "liberdade de expressão".

domingo, 15 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (07/15)

“Eu sei que flores existiram,
mas que não resistiram a vendavais constantes
Eu sei que as cicatrizes falam,
mas as palavras calam o que eu não me esqueci...”
( Fera Ferida – Roberto Carlos)

No final de dezembro de 2000, no dia 29, Luísa nasceu. Foi o dia de maior sofrimento físico de toda a minha vida. Hoje eu já conheço os níveis de dor das cólicas renais, mas o pré-parto continua sendo a dor maior.

Suas primeiras palavras não foram nem “mamãe”, nem “papai”. Foram “te amo”. Acho que de tanto que eu repetia isso no ouvido dela, mais que qualquer outra palavra, eu lhe dizia a toda hora “te amo”. 

Deus foi tão detalhista, que me deu a Luísa nas férias da faculdade. Não precisei repor aulas ou pegar licença. Tudo iria muito bem, não fosse o tropeço de sempre... Eu ganhei a faculdade de presente. Um amigo da igreja decidiu me presentear, disse pra eu escolher o curso. Sim, eu recebo bênçãos que poucas pessoas recebem, reconheço. Escolhi História. Queria ser jornalista. Fiz História com o intuito de compreender nossa trajetória, queria ter esse diferencial, de ser uma jornalista com bagagem histórica. 

À certa altura, o pai da Luísa me pediu emprestados os cheques destinados mensalmente à faculdade. Claro que eles nunca me foram devolvidos. Claro que perdi dois anos da faculdade. Claro que perdi meu presente. Claro que perdi a credibilidade. Há relações que só vêm para nos fazer perder. É mister ter maturidade para perceber isso a tempo e sair fora o mais rápido possível, mas isso não foi o que aconteceu comigo. Abri os olhos tarde demais, quando eu já estava sem casa, sem família, sem igreja, sem credibilidade, sem sonhos. O fundo do poço existe, dentre outras coisas, para nos mostrar quem é quem na nossa vida, inclusive nós mesmos.

A lição número um que a vida me passou é que ninguém sabe o que a gente vive. Só vivendo pra saber. Tanta gente me chamou de louca quando soube da minha separação, mas quando meu corpo estava cheio de hematomas, meu nariz escorrendo sangue e minha barriga guardando um bebê de sete meses, que se remexia, se contorcia inteira e levantava minhas costelas, quem estava comigo? Será que alguém sentiu a dor daquela humilhação, numa incrível empatia?

E, meses depois, quando eu colocava Luísa para dormir às 18:00h, depois de chegar da creche e ficava ao lado dela na cama, pedindo a Deus para ela só acordar no dia seguinte porque não tinha nada em casa para lhe dar de comer? Não me lembro de ter alguém lá comigo dividindo essa agonia. Sim, estávamos sozinhas. Se alguém tivesse dividido meus fardos, decerto não me esqueceria. De modo que a vida dá a quem sofre o direito de não se explicar, de não se importar mais com pequenezas e tampouco de ficar se preocupando com a opinião do planeta. E sinceramente, o planeta não está acostumado com isso. As pessoas querem se meter. As pessoas precisam opinar, a gente pedindo ou não. Quando a vida te diz “você passou nas minhas provas” ela está te dizendo “viva o que tiver de viver sem se importar com os outros”. Isso não é dureza. Isso não é arrogância, embora o planeta rotule assim essa atitude.

Quando assumi essa postura de realmente não ligar mais para as pessoas, muitas coisas se transformaram dentro de mim. Via de regra, as pessoas não absorvem esse comportamento, ao passo que, me tornei mais seletiva. Fortes andam com fortes. No reino animal também é assim. Não existe empurrão mais potente que o sofrimento. Mesmo sem querer, disparei na frente. Quando as coleguinhas da escola estavam discutindo se a Maria Joaquina iria dar uma chance para o Cirilo, da novela Carrossel, eu estava desesperada tentando encontrar a maneira de não deixar meus pais se separarem.

Quando todos me condenavam como a “adolescente que engravidou do namorado”, eu estava dentro de quatro paredes sendo brutalmente espancada, protegendo minha enorme barriga.

Quando todos me viraram as costas, eu estava criando Luísa sozinha. Sem dinheiro, com pouca ou nenhuma comida.

Quando se chega a esse ponto, acredito haver duas possibilidades: ou você se revolta e se torna terrivelmente amargo ou você se revolta e se desafia a dar a volta por cima.

Rótulo é mania de gente preguiçosa, que não se dá ao trabalho de se aproximar e ver de perto a alma do outro. Rótulo é atalho. Rótulo é maldade. Rótulo é infundado. E é por não acreditar em rótulos que eu escolho meus shampoos pelo cheiro.

Pessoas também.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Alô? Privacidade, é pra você!


Eu ainda fico impressionada com a completa falta de privacidade que vivemos. Eu nunca sofri um acidente e fui filmada enquanto esperava pelo socorro, graças a Deus! Nem nunca apanhei na rua enquanto faziam a filmagem ao invés de me socorrer, mas sim, eu me sinto invadida todos os dias. Também me impressiona o quanto as pessoas estão despreparadas para ouvir verdades, de modo que, assumindo agora a postura de expor o que eu penso e estou sentindo, muita gente vai se sentir ofendida e vai me colar na testa de novo aquele rotulozinho chinfrim de “grossa”. Eu nem ligo. E por não ligar, fico mais grossa ainda. Pessoas querem que nos moldemos aos padrões, falemos baixo, sejamos cordiais, sorridentes e receptivos. I’m sorry, pessoas... eu sou uma porta. Minha privacidade vem juntinho com a saúde, no mesmo nível de importância.

Hoje pesquisei e tentei, de todas as maneiras, excluir a minha conta no Facebook e manter apenas a fan page, mas isso não é possível. Vou ter que continuar exposta na vitrine da loja das melhores intenções. Às vezes até me esforço para manter a meiguice. Posto coisas fofas, mas prefiro  as ácidas. Se me entendem ou não, eu não ligo. Mesmo. Infelizmente não sou muito sociável, mas o agravante é que eu não finjo ser. Isso espanta as pessoas (graças a Deus!). 

Eu ainda me lembro dos meus dias de criança, havia um telefone em casa. Era tão libertador não saber quem estava ligando e, melhor ainda, simplesmente não atender se eu não estivesse a fim. (Desculpa, mãe. Fiz isso inúmeras vezes quando você saía). Era tão boa a sensação de chegar em casa e abrir a porta correndo porque o bolachão estava tocando! Também era maravilhosa a sensação de sair e não saber se alguém ligou, ao passo que, era péssima a sensação de ligar e ninguém atender. Ainda assim, era diferente de hoje que, se quem atende é a secretária eletrônica da caixa postal, a gente nunca imagina que a pessoa está no banho ou foi à padaria da esquina e já volta. Não. Ou pensamos que a pessoa está esmagada debaixo de um caminhão (e sendo filmada por centenas de curiosos imbecis e insensíveis) ou que, pior ainda: ela simplesmente está nos ignorando.

Acho de uma violência sem fim essa coisa do WhatsApp ficar azul quando a praga da mensagem é lida. Acho medonho aparecer “visualizado” naquela mensagem que abri sem querer. Mas quer saber? Deixa ficar azul, roxo, vermelho neon, eu não ligo. Ignoro sem peso na consciência.

Desculpa, mundo. Eu ignoro mesmo. Quando eu não respondo é porque eu não estou teatral o bastante para ser meiga, e prefiro ficar sozinha. Pro teu bem, agradeça! As pessoas precisam entender, de uma vez por todas, que estar na minha lista dos contatos seja do Facebook, seja do WhatsApp, do Skype, não é credencial para invadir a minha vida.  Eu já perdi convites por ficar postergando a leitura de uma mensagem, eu já perdi até entrevista de emprego porque não atendi ligações exaustivas. No fundo, eu não perdi nada. Perderia se tivesse atendido, introspectiva  como eu estava naquele instante. Quando eu digo que odeio esse sistema e que ainda vou me safar dele, as pessoas acham que eu estou delirando, as pessoas ainda acham que minhas diferenças podem ser adaptadas. Não, não podem.

Se fosse o Bukowski falando ou a Clarice, o Renato Russo, o Ayrton Senna, a maioria compreenderia sua excentricidade e veemência. Mas, como sou uma reles mortal que está a anos-luz de distância desses seres iluminados, já estou preparada para as duras críticas.


Graças a Deus o modo voo existe! 

domingo, 8 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (06/15)

“Se você não pode ser forte,
seja, pelo menos, humana.
Quando o papa e seu rebanho chegar,
não tenha pena.”
(Dulce Quental/  Roberto Frejat)
Dos 18 ao 21 anos tudo mudou para sempre na minha vida. Aos 18 me apaixonei. Aos 19 fui mãe. Aos 21 me desiludi com a igreja. A partir de então, virei uma aluna especial da vida. As suas lições eram cada vez mais difíceis e exigentes de minha força para viver.

Me casei porque engravidei. Me separei porque fui agredida, de todas as maneiras: física, verbal, psicológica. O pai da Luísa nunca me deu força para continuar na música, na faculdade. Nunca me incentivou a trabalhar fora. Quando a gente amadurece e olha para trás, mal se reconhece. Foi o que aconteceu comigo. Sempre que olho para trás, me pergunto quem era aquela, por que ela aceitava calada tanta humilhação. Mas agradeço. Acredito que poucas são as pessoas que olham para trás e não se reconhecem em suas atitudes ou falta delas. Cada bomba que explodiu aos meus pés me amputou um pouco e me levou ao ponto de ter que trocar de postura, se eu realmente não quisesse morrer despedaçada. Foram tantas discussões, tantas acusações, agressões, privações. Definitivamente não fui criada com tamanho sacrifício para viver aquilo.

Ademais, fui praticamente convidada a ir embora da igreja onde nasci porque eu era “estranha”. Separada, endividada e com a pequena Luísa para criar, pedi ajuda financeira à igreja que, representada pelo seu pastor e um dos conselheiros, me informou que não me ajudaria porque eu era muito instável, do tipo que um dia chega cumprimentando todo mundo e no outro nem olha na cara. Sinceramente não vou comentar. Só digo que saí decepcionada e nunca mais voltei. Não senti falta da maioria deles e acho que ninguém lá sentiu falta de mim, já que nunca me procuraram. Lembro-me que isso aconteceu a poucos dias do meu aniversário. Ninguém telefonou. Voltei lá especificamente nove meses depois, para assistir à cantata de Natal. Coloquei na Luísa seu vestido mais bonito, fiz a minha melhor cara de esnobe insuportável e me sentei na segunda fileira. Me preparei psicologicamente para esse momento e, ainda bem que me preparei: apenas duas pessoas de uma igreja lotada vieram falar comigo com surpresa, como quem percebeu alguma ausência. 

Passei boa parte da minha vida acreditando que não seria capaz de viver sem a igreja, sem seu convívio. Hoje tenho certeza de que o ditado é corretíssimo ao dizer que “quando o homem põe o dedo, Deus tira a mão.” Bem, se serei crucificada por dizer isso, paciência. Que as igrejas entendam como quiserem, dentro de suas distorções e julgamentos. Ser rotulada de “esnobe e metida” por quem deveria ter me ajudado realmente despertou em mim a “metidez”.

É, no fundo, muito triste isso. Eu nasci na igreja. Até meus 21 anos, vivi nela, para ela e por ela. Não havia um compromisso em que eu não estivesse presente. Sempre puderam contar comigo. Já toquei piano em velório de gente que nunca vi porque não tinha pianista de plantão na igreja e eu estava lá, de bobeira. São coisas que chegam a ser engraçadas. 

Dizem por aí que a igreja assumiu uma postura de tribunal enquanto deveria ser hospital. Infelizmente é verdade. Depois que me bateram a porta na cara e me convidaram subliminarmente a me retirar, passei meses, alguns anos à procura de uma nova igreja, mas nunca mais fui a mesma coisa. 

Passei situações completamente duríssimas, sozinha. Com Luísa pequena, vi como era difícil viver sozinha, sem um apoio moral ou um plano B. Minha família sempre morou longe, em Minas. Até então eu tive a igreja como família. Doce ilusão. Nem a igreja está preparada para lidar com os diferentes, os “instáveis”, as exceções. 

Acredito em Deus sobre todas as coisas, mas hoje entendo que religião não tem nada a ver com Deus. Sinto falta da comunhão e acredito que há certas coisas que Deus só faz quando Seu povo está reunido. Vivi experiências que, sozinha em casa, jamais verei novamente, e sinto falta disso. Às vezes a saudade aperta tanto, que procuro uma igreja para ir, mas não estou vinculada à nenhuma, no momento. 

Não sei se um dia voltarei de vez, mas tenho uma certeza: Deus me guardou o tempo todo e não abriu mão de mim. Quando olho para trás e revejo certas situações, chego a sentir um estranhamento. Às vezes parece que aquilo tudo aconteceu há mais de cem anos. Às vezes parece até que nunca vivi nada daquilo. Olhar-me de fora, maquiada, bem vestida, sorrindo, é um prato cheio para julgamentos. O detalhe é que eu não estou nem aí pra eles.

A maior certeza que tenho é que Deus permanece no controle da minha vida.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sou Apenas


Sou apenas uma certeza duvidosa
O osso esquecido sob a carne, o osso abandonado sob a terra
A criança que sequer nasceu, a debutante orgulhosa no seu baile
Sou apenas o silêncio que grita, o sono ao lado do bombardeio
A tatuagem que se apaga quando choro
O amor que não acontece por causa do teu medo
Sou apenas a vida que corre silenciosa dentro das plantas
A flor arrancada que sobrevive afogada num copo d'água
Sou apenas um motor que corre para o precipício
A estrada sedutora que ninguém ousa correr
A paisagem deformada pelo vento, o frio que corta as faces quentes
Sou apenas a pele arrancada das unhas, o viço que protege a dor
A verdade que é dita sorrindo e ninguém acredita
A mentira que atrai a todos os mortais
A paz que atormenta, a guerra que alivia
O deserto inundado, a estrela sem brilho
A vela derretida, os cabelos cortados
Sou apenas uma inutilidade necessária
neste mundo em que todos deveriam ser,
mas apenas.

domingo, 1 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (05/15)

“Sou uma gota d'água,
sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não te entendem,
Mas você não entende seus pais.”
(Pais e Filhos - Renato Russo)

O clima entre meus pais só piorava. As discussões eram raras, mas eram estrondosas. A indiferença entre eles era abismal. E eu estava ali, entre os dois, ano após ano.

Eu via todo o esforço de minha mãe para me manter. Era a escola caríssima, aparelho nos dentes, aulas de piano, mas sinceramente, não via futuro na música para mim, não me achava boa o bastante. Até porque, uma das estratégias da minha mãe, era me comparar com outras meninas, enaltecendo-as. Ela acreditava que assim, despertaria em mim um espírito de superação, o que na verdade, suscitava em mim o contrário. Sempre tive a impressão de não ser boa o suficiente para a minha mãe. Anos depois passei a ter certeza disso. Eu comecei a tocar na igreja aos dez anos, era uma das pianistas do coral e da congregação. Uma das meninas da igreja, que começou a estudar piano depois de mim, já tinha o seu piano e, naturalmente, me ultrapassou. Foi a senha para a minha desestimulação total. Voltei às aulas ao longo da vida, estudei ao todo, por mais de 15 anos. Apesar da música ser a minha paixão maior, confesso que ando com os dedos mui enferrujados, mas sinto que ainda vou voltar para o piano um dia. 

Em janeiro de 1996, meus pais finalmente se separaram. Meu pai voltou para Minas Gerais. Apesar de ser a parceirona dele, nós nunca conversamos assuntos sérios, coisas do coração e da alma. Já com a minha mãe, eu tinha muitas dessas conversas. Naturalmente, tomei partido dela e a apoiei na separação. Eu era cúmplice de todos os seus sacrifícios físicos, emocionais e morais. Ela teve o cuidado de me preparar para uma mudança drástica no meu padrão de vida, a começar pela escola, mas eu estava de acordo, plenamente de acordo. Eu não suportava mais vê-los sofrendo e se magoando daquela maneira. 

Para a nossa surpresa, ganhei uma bolsa de estudos na escola em que eu estudava, a mais cara da cidade. Mamãe ganhou um emprego de servente lá. Não foram poucas as vezes em que, da carteira, eu a via passar pelo corredor com balde e vassoura nas mãos. Essa é a fibra que ela tem na alma. Eu não sei se eu encararia uma parada dessa. Fato é que minha mãe é admiravelmente forte, guerreira, e nunca mediu esforços para me dar educação que, segundo ela, era a única herança que ela poderia deixar para mim. E como eu agradeço por isso! Levei com muita naturalidade estar numa escola com todos os filhinhos de papais médicos, empresários do mármore e do granito, dentistas, advogados, engenheiros, publicitários e eu, a filha da servente. Isso durou por volta de cinco meses, posteriormente mamãe foi remanejada para outro setor. Mas para mim, isso foi muito tranquilo. Nunca sofri bullying ou qualquer outro tipo de constrangimento, ainda que interno, por conta disso. 

No entanto, como a vida estava batendo forte na gente, em casa tínhamos brigas horrorosas, agravadas pelos nossos gênios fortes e personalidades parecidas. Sentia saudade do meu pai, tinha a minha certeza de não ser o que minha mãe queria. Eram conflitos gigantes dentro de uma cabeça adolescente, naturalmente confusa. Nessa época eu já me sentia pertencer a outro mundo que não fosse esse. Eu já era inadequada para o sistema, mas não sabia me expressar, ao passo que, minha mãe não me compreendia, e na gana de acertar, me engolia com suas críticas e negações. Passávamos dias sem trocar uma palavra, a atmosfera era deveras pesada, quase bélica.


Meu Deus, como é difícil ser adolescente!! A gente pensa que o mundo é incrivelmente dramático, que o nosso cabelo é o mais indomável de todos. A gente pensa que é gorda demais, que é discriminada demais, que é burra demais, inferior demais. A gente também é invejada demais, mas não se dá conta disso. A gente detesta estudar e vai pra escola só pra ver a galera. A gente não vê a menor importância nas aulas de Geografia, de Matemática e acha todos os professores muito imbecis. Mas o pior de todos os achismos é mesmo achar que os pais não sabem de nada. É besta pensar isso porque no fundo a gente sabe que é com eles (e só com eles) que a gente pode e vai contar.

Na adolescência e por toda a vida.