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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Quantos Donos tem o Mundo?


As ilhas eram nossas
Os campos de girassóis eram livres
Aves raras flertavam com o céu, 
golfinhos dançavam como queriam
O mundo respirava sem aparelhos 
e seus pés tocavam o chão

Quanto tempo eu dormi?
Quem mentiu antes do amanhecer?
Quem se fez primeiro dono?

Acordei em um pesadelo
Há cercas, muros, rótulos e patentes
Todos somos ilhas particulares
Os girassóis foram encerrados em estufas 
e custam mais que nossas almas

As aves raras suspiram pelo céu através das grades
Os golfinhos foram dopados 
e dançam sincronias suicidas
O ar é solidão palpável e os corações, 
pedras baratas que queimam nas esquinas

Quantos donos tem o mundo? 
A quem pertenço desde a noite do fim?
Quantos mundos tem o dono? 
Quem decidiu falar por mim?

Negociam meus presentes
Financiam as guerras
Erguem muros, explodem pontes
Brindam à meia-noite com sangue frio o suor ardente
Amanhecem mais ricos os donos do mundo _ mendigos de si
E não deixam sequer um girassol sobre o nosso caixão
porque girassóis valem mais que nossas almas.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Fios Brancos


Basta examinar com um pouco de atenção, lá estão eles:
cinco ou sete novos fios brancos
Com eles, ele tem cinco ou sete novos pensamentos de suicídio
É desgastante fingir felicidade,
Manter um contimento convincente, por vezes, contagiante
Toda vez em que ele se encerra no seu quarto escuro
a criança fica do lado de fora
implorando aos céus que nenhum assassinato 
seja consumado do lado de dentro
Ele não tem dela a admiração,
é humilhado por sua piedade, que o dilacera
Então respira o ar pesado da revolta, isso é tão cansativo
O sorriso forçado lhe dói a alma
Acordar é o maior dos sacrifícios
Encenar, o seu ofício
Sua oração diária é generosa: 
que toda vida que lhe resta seja doada a quem realmente a queira
Ele sempre dorme na esperança de se salvar
salvando a quem freme por viver
Mas acorda
Escorado na solidão, se levanta
Sua energia é a saudade
Seu alimento, a frustração
Desanimado, se encara no espelho
Repara na barba e nas suas más notícias
Seus olhos são tristes e cansados,
mesmo sendo ainda tão cedo
Percebe um novo fio branco, perto da fronte
e um novo desejo de morrer aflora
Não que ele não saiba envelhecer,
mas sabe que é deplorável não ter um dia de juventude feliz
para dar em troca por cada dia de velhice solitária que dele se aproxima.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sonho ao Contrário


O poema é o sonho ao contrário, 
o brinde solitário do fracasso
É o eufemismo do pesadelo, 
a voz de palavras lindas de uma dor pungente
Parir poesias é uma aparente bênção, 
mas é um grande castigo dado a esses desgraçados, chamados “poetas”,
que caminham pela dor como o sangue corre pelas veias,
que sentem o amor como uma queimadura onde a anestesia não chega

O poema é o inconformismo em nadar raso pelas palavras, 
é o submarino da alma
É o sonho ao contrário, 
o pesadelo oferecido com fina beleza
É a desilusão traduzida, a saudade latente, 
a tristeza diluída, é a morte sorridente

Os poemas felizes têm seu encanto que, no entanto,
não sobrepuja o fascínio dos poemas que choram,
que sentem saudade, que morrem de vontade, 
que flertam com a morte, que ardem de sede

A dor do mundo vê o poeta e solenemente o reverencia
A tristeza precisa dele para ser traduzida em um poema
pois não quer ser lembrada como um pesadelo, 
mas como um sonho belamente triste que,
andando na contramão da felicidade, 
já não mais respira e ainda assim, vive.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Barulhos Interiores


De dia as angústias da vida são menos aparentes
Com os bem-te-vis animados, 
motores dos carros roncando nas ruas,
Com a obra do edifício ao lado 
e os passos do vizinho do andar de cima. 
Eu os ouço.
Sinto que faço parte de tudo isso sem estar presente.
Nunca estou presente.
De olhos fechados, vou ao lugar mais bonito. 
Aumento meus barulhos interiores.
Agora sou uma menina, no colo de meu pai, que me beija os cabelos.
Sinto cheiro do assado de Natal, 
ouço a canção que mamãe canta para me ninar. 
Arrepio.
Numa lágrima, 
a realidade bruscamente desliga meus barulhos interiores, 
arranca-me de meus pais.
Adeus, meus amores, adeus.
É hora de colocar a máscara e sair.
Ora vou. 
Sorrindo. 
Sofrendo. 
Morrendo. 
Sorrindo. 
Vou.
De dia as angústias da vida são menos aparentes
Com os bem-te-vis animados, 
motores dos carros roncando nas ruas,
Com a obra do edifício ao lado 
e os passos do vizinho do andar de cima. 
Volto a ouvi-los.
Fecho a porta, solto os cabelos, 
agarro com todas as forças a máscara que me defende
e sorrio para o vizinho do andar de cima, que encontro no elevador.
Já na rua, ouço os bem-te-vis em festa, 
o ronco dos motores dos carros parece mais alto
O edifício ao lado está cada dia mais imponente 
_meu mundo, cada dia mais solitário.
Sinto que faço parte de tudo isso sem estar presente.
Nunca estou presente.
Mas eu suporto um pouco mais disso, ainda é dia
e é de dia que as angústias da vida são menos aparentes.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Atração Solar


Quem me conhece sabe que eu sou fascinada por girassol. Além da beleza imponente, acho genial a sua relação com o Sol, essa coisa dele girar na direção do Sol. Gente, isso é lindo! 

E como eu sou uma pessoa extremamente solar, me identifico. Eu amo dias ensolarados, eu preciso de dias ensolarados. O Sol me faz bem, aquece minha alma, melhora meu humor. Então se eu tivesse que ser uma flor, decerto eu seria um girassol!

Hoje, fui ao supermercado comprar umas coisinhas que estavam faltando. Café, leite, banana, biscoito. Entrei na fila do caixa rápido, distraída com o celular. Quando dei por mim, a moça que estava à minha frente tinha um vaso de girassol na mão direita. Fiquei hipnotizada. Aquele amarelo real do girassol me impressionou. Aquele único e majestoso girassol, no centro do vaso.

Enquanto aguardávamos pelo atendimento, eu não tirava meus olhos daquele girassol. Coitado, tão ávido pelo Sol e enclausurado em um supermercado, cheio de luzes artificiais; confinado ao ar refrigerado, sem nunca conhecer a brisa fresca que paira sobre a terra farta, em algum lugar bonito e descampado por aí. 

No entanto, mesmo em adversidade, aquele girassol era magnífico. Silenciosa e discretamente magistral.

[...]

A vez da moça chegou, ela se aproximou do caixa.

O rapaz a saudou, tomou gentilmente o vaso da mão dela, rodopiou-o, procurando o código de barras que estava colado no fundo do vaso. Naturalmente, o girassol ficou virado para baixo, desconfortável, nas mãos de quem nada entendia de girassóis.

O rapaz aproximou o código de barras do leitor óptico, confirmou o preço do girassol à moça que, prontamente, o pagou. O rapaz colocou o vaso numa sacola, mas deixou o girassol para fora. Talvez para espiar alguma terrinha onde poderia ter nascido, crescido e imperado. Ou talvez para contemplar os últimos raios de Sol, que estava se pondo naquele momento, deixando o céu com a profusão incrível de rosas, lilases, laranjas e amarelos que poucos reparam.

Por um momento, tive pena do girassol que, com tamanho desdém era negociado, pago, comprado, adquirido. Tive pena do girassol por ser submetido à humilhação de passar por um leitor óptico. Tive pena do girassol por ter suas raízes sufocadas numa sacola plástica de propaganda. Tive pena do girassol que, apesar de carregar o próprio Sol no nome, jamais o vira antes.

[...]

Subitamente senti uma angústia avassaladora. O ar faltou, a ficha caiu: aquele girassol sou eu.

Deixa para Depois


Antes teve o leite, o mel, a ilusão, o erro certo
Ansiedade, resultado, sonhos, sangue, células, multiplicação
Nome, rosto, medo, plenitude, estrias, dores, a luz
Olhar de admiração, orgulho, dependência, emoção
Deixa o desprezo para depois

Antes vieram as palavrinhas, papinhas, lençóis, canções
Valores, cuidados, colos, remedinhos, beijinhos
Cumplicidade, parceria, amizade eterna, sacrifícios
Sensação de invencibilidade, união, noites perdidas
Deixa a estranheza para depois

Então explodiram os hormônios: novos amores, rebeldia,
outras certezas, tantas manias, desprezo, estranheza, volume nas alturas, insatisfação
Novidades, amizades indeléveis, risadas infinitas, sempre a ingratidão

Inacreditável. Teus olhos eram flechas inflamadas a cravar em mim
aquele olhar indolente, que silenciosamente me traía

Tudo ficou para depois do amadurecer, mas não pude esperar
Foi inevitável morrer, morri com teu olhar

Anelo que, ao menos minhas lembranças, não sejam por ti esquecidas
E se fores chorar agora, filha, agora já não precisa
Deixa a culpa para depois.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Avidando vou vivendo


Avidando vou vivendo...
Avidar: verbo que não mata, mas esmaece a vida
Sua primeira letra é uma porta fechada anunciando o não,
como o amoral, o atípico, o anormal
Avidar quase se encaixa no avivar, mas o V da vida o ignora
É a contra-mão do sentido de viver, é o quase morrer
É o existir _meramente existir_ na mediocridade do quase viver
Verbo que não se conjuga com vontade, mas escorrega ladeira abaixo

Avidando vou vivendo... Mas oras! Avidando não se vive!
Sou avida: um acento me salvaria, atiraria minha não-vida nos braços da avidez
Ou um breve espaço me transformaria, e eu seria o artigo definido da vida
Mas não há acento, não há espaço, nada que me salve ou me transforme
Então não me sento, não danço, não pronuncio, não descanso
E por aí sigo avidando, sem flutuar e sem tocar o fundo

Avidando vou vivendo...
No avesso da vida, na lentidão da contra-mão
Contando as horas num conta-gotas, numa ampulheta vazia
Criando verbos sem vida, verbos sem tradução
Conjugações de mim mesma, sem segunda ou terceira pessoa,
verbos que definem solidão.