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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Quando a vida real até parece Poesia



Revendo fotos de família, reparei que Jaider, meu primo, sempre estava de olhos fechados. Ladeado pelos seus três irmãos que sorriam fazendo chifrinho uns nos outros ou simplesmente com cara de sono, não importava: Jaider sempre estava de olhos fechados, muito apertados.

Um dia perguntei pra mamãe por que ele era o único que não interagia com o momento da fotografia. Ela me respondeu que Jaider fechava os olhos porque acreditava que fechando os olhos não apareceria nas fotos.

Senti uma pontinha de piedade da inocência dele e um orgulho ainda maior. Muitas vezes, fechar os olhos não nos livra, mas bem que alivia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Mundo Particular


A gente não sabe muito bem quando magoa
Nem o quanto
O tanto 
Por quanto
Me diz quantos desentendimentos
reverberam dentro de um silêncio cortante
Já contou quantas lágrimas
morrem, por noite, no travesseiro?
Quem sou eu hoje depois de tudo isso?
A gente gritava que se amava, mas chovia
Nós não escutamos a nossa própria verdade
e passamos a dormir ao lado de uma fria mentira
O brilho de nossos olhos se apagou
De repente sentimos o peso da vida
A música que sorria, chorou
Perdemos a variação das nossas felicidades
e tão somente dos olhos pra dentro, em segredo,
repetimos quantas vezes as antigas!
Dias em que sorríamos
Brilhávamos
Implicávamos tanto um com o outro, e era tão bom!
Criamos senhas, códigos, coisinhas só nossas
diluídas em cafés, docinhos, acordes,
revistas, pétalas, poesias servidas no frescor das manhãs
Música desfilando de batom vermelho no espelho
Velas e incenso aclimatando o nosso espaço
Mas o Sol se escondeu
A gente gritou que se amava, mas chovia
Era o nosso mundo particular que ruía
Quem somos nós depois de tudo isso?
Devoção, vontade ou orgulho?
Já contou quantas lágrimas
morrem, por noite, no travesseiro?
Ora, chega de saudade
Vem, me dê a mão
Prometo que se a chuva voltar
vou te abraçar apertado
e dizer no teu ouvido
que te amo
Sem precisar o tanto
O quanto
Por quanto
Juro que não soltarei a tua mão,
não te deixarei partir nunca mais
Deixa chover, deixa o céu desabar
Surgir o segundo Sol, ter eclipse lunar
Ah, meu amor,
só não deixa de acreditar.

sábado, 22 de agosto de 2015

Incêndios

Em todo coração
há uma chama crepitante.
Sua natureza
é incendiar tudo o que é seco
ao seu redor.
Mas que penumbra é essa,
em que vivemos!
Os corações vão contra
o próprio instinto,
e acostumam-se
a queimar em linha reta,
com pouca luz
e brilho nenhum.
Por fim,
morrem em seus próprios pés:
reles borrões de cera derretida.

domingo, 9 de agosto de 2015

Comemorar o Dia dos Pais não é pra Qualquer Um


Todo Dia dos Pais é a mesma coisa. Eu recebo felicitações pela data. Dizem que faço parte de uma categoria chamada “pãe”, a mãe que também é pai. Não tenho estatísticas para apresentar, mas arrisco a dizer que mais de 90% das pães queriam ser apenas mães e não planejaram agregar a função de pai para si.

Hoje muitas “pães” estão com o coração partido porque viram seus filhotes eufóricos para entregar para seus pais a cartinha feita na escola, e eles estão passando o dia fora. Tão pequenos e inocentes, eles ainda não podem compreender que o mesmo pai que lhes beija o rosto, lhes nega um agasalho ou um remédio porque excede o valor da pensão.

Fico lisonjeada que reconheçam minha batalha, mas vou lhes contar o pouco do que só eu já vi, sendo “pãe”.

Já vi minha filha, ainda mui pequena, esperar o dia inteiro pela visita de seu pai que, simplesmente desligou o celular e não apareceu.

Já vi seu pai suborná-la com doces, chicletes e até com a bicicleta que eu não poderia dar a ela.

Já vi minha filha se esmerar na escola fazendo o cartão do Dia dos Pais e eu mesma ir à homenagem na escola porque obviamente ele tinha algo mais importante que a própria filha para fazer.

Já fui de táxi com ela para o hospital, já incomodei amigos para nos buscar e passar na farmácia antes de nos levar pra casa.

Já passei noites inteiras em claro vigiando sua respiração e temperatura, sem ter com quem dividir a angústia e o cansaço.

Já comprei brigas com ela, impondo limites, sendo eu mesma a primeira e última instâncias da casa.

Já vi seu pai bloqueando-a do próprio Facebook e telefonando anos depois, falando em saudade.

Já desisti de brigar pela sua pensão porque entendo que isso não deveria ser compulsório, mas um ato mínimo de responsabilidade paterna, que fluísse do coração.

Já vi o rostinho dela muitíssimo frustrado por não poder ter tantas coisas que não posso lhe dar.

Já ouvi seu choro dolorido e abafado no travesseiro inúmeras vezes.
E tantas outras coisas...

Então quando você vir uma mulher que cria sozinha seus filhos, isso é um pouco do que está por trás dela: um amontoado de nãos, de mágoas, de frustrações, de cansaço e toda responsabilidade do mundo, pesando toneladas sobre suas costas. Um deslize e todo o mundo de acusações recairá sobre ela. Ser “pãe” é uma prova árdua de resistência, de competência, de sobrevivência. É dormir diariamente pensando no quanto a vida é dura quando não se pode contar com ninguém.

Hoje é Dia dos Pais e pouquíssimos homens podem verdadeiramente se orgulhar disso. 

Sigamos na luta!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

No Pain, No Gain!


Pode haver vida no que chamamos de amor?

Todo encontro é uma despedida de nós mesmos. Do que fomos até aquele momento, do que jamais seremos outra vez. E toda despedida é um reencontro com aquilo que deixamos um dia, acreditando estar acertando em cheio a felicidade. Nada disso. A vida é uma sucessão de erros, nada mais que isso. Quem diz viver em paz sabe que falta o tormento sacolejante da insegurança para manter-se acordado, vigilante. A paz que permite um sono tranquilo pode não ser paz, mas descaso, pouco caso, rendição. É preciso sentir na espinha o ardor imperceptível de que a energia não é o bastante para manter a vida acesa, flamejante e incandescente, e lutar por mais energia, e mais e mais.

Toda dor dói. 

Dói sentir a topada na quina do móvel com o dedo do pé. Dói o movimento dos cristais formados no interior dos rins. Dói uma sucessão de contrações para parir. Dói nascer. Dói crescer. Dói viver. Dói sentir essa dor que não tem rosto, que eu não sei o nome, a cor dos olhos e da alma. Dói esse mosaico de saudades inconscientes da segurança do útero de onde saí. Dói essa calmaria nauseante de quem sofre sem nem saber por quê. Dói a acusação da minha falta de identidade, mesmo tendo matrícula, sequência, certidão, numeral, registro geral, mesmo eu sabendo exatamente quem eu sou. Dói ter um coração onde é comum ter um código de barras. E é a dor que nos traz a certeza de ainda viver!

Viver dói. 
Passar pela vida anestesia.

Pode haver amor no que chamamos de vida?

Pois seja vida, seja amor, sem dor não vale a pena. Anestesia.

Tarde

Ele a acusava de mentirosa: 
'Você disse que me amava, 
ontem à tarde, não se lembra?'
Sim, decerto ela se lembrava, 
falara mesmo em amor que, 
na tarde passada, até a ela convencia.
Contudo, seu amor 
era tal qual uma nuvem de fim de tarde: leve, única, volátil.
Quando a noite chegou, 
já não mais existia.
Foi um instante de amor que passou.
Momento perigoso em que ela se
permitiu pronunciar o que ele mais almejava ouvir. 
Ele queria o céu. 
No entanto, com ele,
ela seria apenas uma nuvem.