Seja muito bem-vindo ao Copo de Letras!! Sirva-se sem moderação. ;)

domingo, 20 de setembro de 2015

Lembranças do dia em que nasci


O mundo está tão calmo, parece sorrir com a tua chegada. Ilusão.
As águas de março escorrem pelas janelas
enquanto abres teus olhos para a vida que te deram
O dia está quente,
uma manhã de outono que arde e chove, és mesmo contradição
Deus hoje te amaldiçoa com amor animal:  
hás de andar um tanto sozinha, serás poeta
Isso não te trará nenhum mal,
sorrirás tão forte que o inverno te temerá
Serás ave andando pelo chão,
podendo ir ao céu sempre que ele lhe convidar _e convidará!
Vejo em teus grandes olhos que és fera,
vais chorar somente quando for madrugada
Até as folhas secas do outono te adorarão,
elas serão teu código com Deus
Serás o melhor e o pior exemplo  
Mesmo na primavera, não te abrirás
Serás a partitura, mas permanecerás muda,
pois nunca lhe compreenderão
Serás o que presta e também o que não presta
O tudo, o nada. Jamais o que resta
Terás cada dia uma forma:  
hoje cigarrro, amanhã cinzeiro. Cama, travesseiro.
Taça, vinho. Águia, ninho. Isca, anzol. Breu, farol.
Quadro, parede. Fome, sede. Nudez, timidez. Delírio, sensatez.
Nenhum canto desse mundo lhe será estranho,
caberás em todos, menos em si mesma.
Então sorria, e finja, e sinta e seja
E goze, e plante, e adore, e cante
Mas muito mais: escreva.
Proteja teu amor insano, queira ou não queira,
pois o mundo é injusto, logo saberás
Não te iludas com o que vês,
lance teus grandes olhos sobre o que ninguém alcança
Dance na chuva que ora cai,
violentando o mundo com a tua presença
Oriente-se pelo Sol, feito um girassol
Ofereças a paz de teus olhos e esconda o puro caos que tens no coração
E assim serão todos os teus dias por aqui
Irradiando força e luz àqueles que se alimentarão dos teus raios
Morrendo sozinha sob as estrelas ao som do silêncio.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Quando a vida real até parece Aposta



Dia desses pulei cedo da cama e fui dar uma volta na Avenida Paulista. Estava na cidade a passeio e queria sentir de novo a energia daquele lugar. Sim, é um amontoado de concreto, o ápice da urbanidade, mas paira uma atmosfera muito forte sobre aquela avenida e só quem já passou por lá sabe do que estou falando.

Era manhã de domingo. Entrei numa livraria imensa, estava acontecendo dois lançamentos de livro ao mesmo tempo. Coisas comuns na maior cidade do Brasil. Coisas que nunca vi na minha cidade, no interior de Minas Gerais.

Fui direto ao café e pedi um mocha quente. Não importa quantos mil graus Celsius estejam fazendo, eu sempre peço um mocha quente, é meu preferido. Ah, e pronuncia-se "móca" e não "môcha", como parece.

Peguei meu mocha, num copo lindíssimo e me sentei num banco alto, que compunha uma das mesinhas redondas do café. Fiquei observando os autores em suas mesas, distribuindo sorrisos e autógrafos, pousando para fotografias. Fora o entra e sai de dezenas, talvez centenas de pessoas à livraria.

Livraria é um lugar sagrado. Falei na atmosfera magnífica da Avenida Paulista, agora cê imagina a atmosfera de uma livraria na Paulista! Jesus!

Eu, absorta no meu café e absorvendo cada partícula daquele lugar, demorei um pouco a perceber que, bem na minha frente, entre mim e os autores próximos à entrada da livraria, havia um homem me fitando. Quando reparei, fiquei meio incomodada. Sempre fico. E também não achei nada de mais nele. Como eu não tinha um livro, sequer um folheto para me agarrar e fazer minha melhor cara blasé, fiquei mesmo desconcertada e comecei a prestar atenção em qualquer coisa. Me distraí alguns minutos reparando a emenda do tampo de madeira da mesa onde eu estava.

O homem continuava a me examinar, mas eu não dei a menor chance.

Até que duas eras de milênios depois, uma moça se aproximou dele. Ele ficou de pé e a abraçou longamente, muito feliz. Começaram a conversar. Falavam espanhol. Logo entendi a situação: ela era irmã dele e eles não se viam havia tempos. Nossa! O idioma espanhol é meu fraco, à primeira palavra pronunciada por aquele homem, foi como se luzes, anjos e corais invadissem o café e sorrissem e brilhassem para mim. De repente o homem figurou-se num ser maravilhoso e eu morri de vontade de conversar com ele. Mas àquela altura, ele só tinha uma coisa a fazer: matar a saudade de sua irmã, era como se eu já não estivesse mais ali. E não estava mesmo.

Em poucos minutos eles se foram. E eu fiquei ali, com a minha melhor companhia, com aquele copo lindíssimo e dois dedos de mocha esfriando.




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Quando a vida real até parece Piada


Marcela saiu do quarto e foi até à cozinha pegar um copo d'água. A princípio não foi notada, mas quando pediu licença pra tia Alda dar acesso à geladeira, todos, em uníssono começaram a criticá-la:

- Até que enfim saiu do calabouço, menina! _censurou sua mãe.

- Nossa, pensei que tivesse morrido lá dentro! _ironizou o tio.

Marcela, meio constrangida na cozinha de sua própria casa, deu um sorrisinho, bebeu um pouco da água e completou o copo para voltar com ele cheio para o seu quarto. Antes, porém, parou no corredor e ouviu sua mãe dizendo:

- Ai, gente, liga não. Essa menina é muito antissocial. Estamos todos aqui e ela lá, trancafiada naquele quarto o dia inteiro, lendo livros.

- Minha irmã é esquisita, bicha estranha!

- Realmente, ela nem interage com a família. _criticou tia Alda.
...
...

E logo fez-se novamente o silêncio daquele encontro de família para o almoço de domingo. 

Cada um voltou a prestar atenção no seu próprio celular.