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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Química


Nós, humanos, tais quais os elementos químicos
temos nossas propriedades e características que,
em contato com outros elementos,
são modificados
Sim, somos mutáveis
Mutantes
Alguns contatos nos esquentam
Outros, absorvem o nosso melhor
Outros ainda, nos fazem explodir e
poucos nos tornam mais nobres
É-nos impossível manter-nos intactos,
tampouco voltar ao estado original
Impossível
Porque a gente sempre fica com um pouco
de quem também leva algo da gente
E dependendo da dosagem, a paz evapora
_ pura reação química.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Pedrinha por Pedrinha


Era noite quando chegou aquele par de olhos calmos. 
Eles mais que me olhavam, me perscrutavam.

Eu, que não andava _atropelava_, me senti atraída por aquela maneira de ser olhada como uma minúcia da natureza. E aquele esboço de sorriso que quase se formava _mas apenas quase_, me deixava sem saber se era contemplada ou repreendida. 

Meu instinto dizia "se joga". Já aqueles olhos, bem, não sei o que aqueles olhos diziam _mas diziam.

Perdi o sono. 
Cultivei girassóis.
Velhas músicas passaram a ter novos sentidos, me entregaram sonhos, quereres e a sede de ser imiscuída naquele par de olhos calmos.

O instinto é forte, atendi. 
Entretanto, dei de cara com uma muralha. 
Aquele par de olhos calmos sabia muito bem como se resguardar.
Minha natureza exigiu-me os explosivos, mas o que recebi daqueles olhos perscrutadores foi tão somente um cinzel e um martelo.

"Sim, se queres meus olhos pousando sobre a tua vida, nada de explosivos. Ouça a chuva, ouça o mar e, serenamente, enfraqueça minha muralha. Pedrinha por pedrinha. Tens paciência? Qual será o tamanho do teu querer, olhos urgentes?"

Nunca imaginei que a calma me desafiaria, que minha natureza seria confrontada tão limpidamente. Mas como tenho um coração disposto a tudo que o emocione, cá estou, cantarolando velhas músicas, com o cinzel e o martelo nas mãos, retirando pedrinha por pedrinha dessa muralha que guarda aqueles olhos calmos que fazem dos meus, incandescentes.

De dia faz Sol, os girassóis vibram ao som do mar.
De noite chove, eles dançam para mim.
E a cada amanhecer a muralha fica menos fortalecida.

Aquele par de olhos calmos tem uma força indizível, capaz de mudar a minha natureza insana, num desafio de calma e conquista. 

Nada de explosivos.
Com serenidade, logo o alcanço.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Uma Tentativa de Deus



Talvez esse vento
que levanta as cortinas do meu quarto escuro
Seja a única voz nessa noite silente a me encorajar,
uma tentativa de Deus
de me impedir de desistir

Em posição fetal,
com o rosto grudado no travesseiro molhado,
me rendo ao cansaço de resistir e sou desligada do tormento de viver
Sem ver, me encolho de frio,
viro o travesseiro,
cubro minha cabeça,
tento me esconder da vida
Mas poucas horas depois
o Sol já irradia e me arranca do esconderijo,
me cospe na rua,
me obriga a ser forte e iluminada
Então distribuo paz aos corações aflitos,
tenho conselhos bons e mantenho um sorriso de criança feliz
Sou a fonte de um encorajamento que não serve em mim,
por isso eu doo, indiscriminadamente,
a quem vier buscar

E as noites chegam,
malditas, elas sempre chegam
De porta fechada, me atiro na cama
ou me encolho no chão mesmo,
como uma garotinha assustada,
que precisa desesperadamente de um abraço,
de alguém que diga apenas que tudo ficará bem
Minhas mãos estão molhadas de dor,
estou tremendo, encolhida no chão
como um mendigo envergonhado da vida que tem

Talvez esse vento
que levanta as cortinas do meu quarto escuro
Seja a única voz nessa noite silente a me encorajar,
uma tentativa de Deus
de me impedir de desistir.