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quinta-feira, 31 de março de 2016

Bendito Caminho


Uma alma nunca sabe quando vai tocar em outra
Um esbarrão, um toque sutil, uma palavra sem pretensão
Em minha alma foi o teu sorriso
Teu sorriso veio como um cobertor quente
sobre minha alma esquecida ao relento da solidão
Teus olhos serenos me encorajaram e, sorrindo,
gentilmente me arrancaram do medo
A vida nunca é fácil _dizem
Mas tuas mãos, sempre entrelaçadas às minhas,
me fizeram mais forte
Choramos e algumas vezes
esbarramos numa ou noutra frustração
Mas em teus olhos sempre encontrei a leveza da força vital
Bendito sorriso que nunca se fechou entre nós!
Benditos olhos serenos, amizade e compreensão!
Benditas mãos que nunca desistiram das minhas!
Olha, amor: já estamos velhos
e toda nossa vida teve o peso de um sorriso
Bendito foi o meu sim para desbravar a vida contigo!

segunda-feira, 28 de março de 2016

Fire Escape


Logo teu saldo de amor diminuirá
Pois sinto caírem meus últimos grãos de areia
na ampulheta da vida
Não te amarei mais. Não por maldade, querido,
mas é uma ilusão acreditar que o amor vive na morte
Terás de ser forte e cativar novos amores pela vida
Contudo, podes descer as escadas de emergência
sempre que a saudade apertar
Não, meu bem, sentir saudade não é fraqueza
Chorar é humano, permitir-se é digno
Corra do incêndio da dor a cada inverno
Esconda-se em nossas lembranças no porão de teu coração
Não te deixarei amor, mas em ti deixo a minha força
O olhar obstinado sobre a conquista
O repúdio ao que é corrompível e enganoso
Honre a nossa guerra, mantenha quente o nosso sangue
Perpetue incansavelmente a busca pela lealdade, justiça e paz
Que renovem tuas forças a cada primavera
e logo hás de perceber que o amor nunca morre,
pois está escondido nelas.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Leva-me contigo


Leva-me contigo
nas estrelas de teus olhos, no silêncio revelador
Pisa sobre as pedras com ternura, guia-me com leveza
Traga-me flores, brilhos e alento pela manhã
Sinta-me em tua pele
como o toque delicado de uma borboleta azul
Vejamos o Sol adormecer no mar
como adormeço em ti a cada alvorada
Leva-me contigo
nos sonhos mais secretos, nos desejos mais intocados
Guarda-me da chuva, do frio, do inesperado
Sinta meu gosto no teu suor, lágrima, sangue, saliva
Deixa-me correr em tuas veias,
tatuar tuas células, nutrir teu coração
Canta para mim
Veja-me dançar rente ao precipício,
ao som desse nosso amor sereno e urgente
Agarra-me para a vida
quando minha fé estiver por um triz, eu suplico
Leva-me contigo.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Toque de Formosura


Parir-te
Colocar-te para fora de mim
Seria um alívio não ter tua vida sugando a minha
Foi numa noite de verão que tornei-me uma mendiga
Recebi esmolas de tuas mãos,
carinhos contados que sobravam nos teus bolsos
Becos escuros 
Multidões de desconhecidos
Labirintos espelhados
Dos céus apenas o silêncio
Vivo no inverno perpétuo
Agarrada ainda aos trocados que recebi naquela noite de verão
Morrendo todo dia sem saber por onde andas
Sinto inveja dos olhos de Deus, que podem ver-te dormindo
Desfiguração 
Verão dos infernos 
Exaustão
Maldito óbolo, toque de formosura, compaixão dos meus olhos tristes
Ah, quem me dera parir-te, colocar-te para fora de mim!
Enlouquecer de culpa
Mergulhar na insanidade por deixar-te livre
e livre prosseguir para o inferno sem lembranças tuas.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Sem olhar para trás


O impossível aconteceu: o grande coração congelou
A última gota de felicidade perdeu-se na ganância humana,
subiu aos céus e fez-se pedra: chuva, nunca mais!
Se morre um poeta, que diferença isso faz?
Deram tiros nas estrelas, envenenaram os cachorrinhos
Estão todos com seus fones sem ouvir a própria alma
Encerraram a beleza da vida nas engrenagens do relógio
Quebraram seus dentes, arrancaram seus cabelos
Furaram seus olhos, cortaram sua língua
À sombra das horas repousa o cansaço sem fim
Deitam-se para morrer, em absurda desesperança
Todos atrasados, paralisados pela correria
Eis a era dos pesadelos reais, dos apocalipses matinais!
Há muito sou invisível entre toda essa gente gris
Aumento o som e imperceptivelmente saio de cena
Sei que não há tempo para o luto, não há tempo para ser amado
Sem olhar para trás, corro deste mundo horrendo de agonia
deixando sobre a mesa _para ninguém ler_
esta minha derradeira e libertária poesia.