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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Olhos de Menino


Sei bem quem está mandando no jogo:
o fundo da taça me diz
Diga-me como desejas que seja, atenderei ao teu clamor
A noite é gelada, teu corpo inteiro grita por um abraço, um colo
Queres o calor de algum certo par de olhos
dispostos a lhes compreender sem mandar a conta
Eu poderia te abraçar tão forte
que te faria esquecer o que te trouxe até aqui
Reconheces esta estrada?
Eu também
Reconhecemos muito bem os anjos que nos guardaram pelo caminho
Te abraçarei ainda mais forte
quando faltarem palavras e incompreeenderes a compreensão
Sequestrarei teu coração, não pedirei nada em troca, nada!
Nada me afastará dos teus olhos de menino
Estes, cheios de lembranças tristes e de sonhos pueris
Não vou te invadir: eu espero
Não vou te quebrar: inteiro te quero
Sei bem quem está mandando no jogo:
o fundo da taça me diz
Quero-te em dor, em desespero, isso não me assusta
De sofrimentos sou feita e por isso afasto os que não sabem sofrer
Não vou te mandar a conta, tampouco exigir-te atenção
Percorra o mundo, livre te quero
Dolorido, sangrando, mas ainda vivo
Não te exigirei um sussurro, um carinho
Hás de vir como criança animada,
como o menino carente que és
Que exibe coragem e potência,
mas que delira com o amor como o destino inalcançável
Acho graça...
pois tens o amor bem nas mãos,
mas ainda és menino para que isso eu te revele:
tens o amor bem na palma das mãos!
Mas vá acreditando que quem manda neste nosso jogo sou eu
És menino:
somente no tempo devido
saberás que tens todas as regras do jogo nas mãos
porque nada é o que parece ser
Sou mulher, és menino
mas é a tua existência que mantém vivo o meu querer
És o que me desafia a insistir na vida,
como o prêmio inesperado
a sorte imprecisa
Meu menino forte, imprevisível
Percorra o mundo, nada teu me afasta
Pago o preço que for
para nunca mais ter de volta meu coração por ti sequestrado.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Tempero Fatal


Eu queria ver o que acontece lá fora
quando me tranco aqui dentro e fecho meus olhos
Será que te conheces o bastante?
Sabes qual é o gosto do teu próprio sangue, da tua própria vida?
E se parássemos de fingir agora?
E se abraçasses a verdade ao invés de fugir?
Eu bem conheço teus gostos todos: sangue, vida, suor, saliva
e sei exatamente o que acontece lá fora 
quando me tranco aqui dentro e fecho meus olhos
De olhos fechados chego mais rápido ao teu coração _e ao paraíso
Há caminhos que conheço por puro instinto
Tens o gosto preferido, do tempero fatal
Teu silêncio me conforta e nada teu me agride
Nada exijo, nada reivindico se posso adormecer saciada em teus braços
e me iluminar com o brilho dos teus olhos famintos
Sei que te farto para a vida toda
Não sintas culpa por viver enquanto outros estão mortos em vida
Não contenhas a felicidade enquanto outros ainda choram: tudo há de passar
Se meu sorriso te encoraja, se meus sonhos te animam,
prove do teu próprio sonho para em mim acreditar
Hás de encontrar minha verdade dentro de ti mesmo
Pois te conheço muito mais que supões
e te quero muito mais que deixo transparecer
Sim, eu sei o que acontece aí fora
quando me tranco aqui dentro e fecho meus olhos
Sei dos delírios, da saudade, das vontades e fomes que sentes
Sei que o sono demora, que as horas se arrastam, que a paz se nega
Eu sei
Então feche teus olhos e se atire no precipício do meu coração,
banquete preparado para tua vida insaciável
Permita-te correr o risco da queda, 
chega de fingir que essa calmaria te sustenta
sei que doses homeopáticas não são teu forte
Sei que teu nome é coragem
Abraces o que viveu dizendo que almejas
Feches teus olhos para que nossos corações se alcancem de vez,
para que se devorem e se fartem em plenitude 
naquilo que buscaram por toda a vida:
o tempero fatal do fogo que nos mantém vivos e amados.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Na Rota para o Inferno

Publicado no Facebook dia 18/05/2016
Hoje almocei num pequeno café, próximo ao meu trabalho.
Havia umas seis ou sete mesas, um lugar pequenininho, de atendimento maravilhoso, tudo propício para o aconchego.
Logo senti-me uma estranha _normal isso.
Eu era a única que não estava usando o celular.
Todas as pessoas estavam ignorando a comida, que esfriava sobre a mesa. Todas.
Todas!
Do lado de cá fiquei pensando...
O que estamos alimentando hoje em dia?
Vi pessoas engolindo suas comidas sem percebê-las, nitidamente sem sentir o gosto do que, visualmente, estava lindo!
O que nos mata? A fome ou uma bateria arriada?
Onde foi que perdemos a capacidade de priorizar as coisas, as pessoas, os sentimentos?
O toque na tela tem nos deixado intocáveis.
Para que lado do inferno estamos indo, meu Deus?!

sábado, 14 de maio de 2016

Na Esquina do teu Coração

Hoje absorvi o Sol como um girassol
Escolhi o lugar rejeitado, ensolarado
Sentei-me e deixei-me queimar
Arder
Ouvi meus pensamentos fervilhando
E quando pensares que estou em tuas mãos,
posso voar, evaporar, desaparecer
Cuidado,
não sou o que pareço ser:
vulnerável, fácil, na palma de tuas mãos, não!
Mas sou surpresa, sonho bom, realidade impensada
Eu estarei te esperando há milhões de anos
na esquina do teu coração, quem há de prever?
Talvez eu te veja testando centenas de novos beijos,
gozos rasos, um punhado de “bom dia” comuns
Eu estarei te esperando há milhões de anos
na esquina do teu coração
A gente sabe quando toca o ponto exato do corpo, da alma
Não me importam os tamanhos dos teus fantasmas,
simplesmente me farei maior
Não me importam as lembranças das melodias,
eu sou um novo significado delas,
da própria vida, do teu respirar
e até do teu querer permanecer respirando
Vais me encontrar no fundo do teu copo, da garrafa, da tua alma
Da noite escura que teus olhos alcançam
Eu estou no fundo do teu ser,
sentada, à espera que percebas,
que sou teu girassol, teu gole, teu Sol
Tua existência barata e profunda
Não havia nada até que surgimos e acendemos a luz da vida
Então me cubra de carinhos nesta noite,
dê-me asas para voar sobre teus sonhos empoeirados
Vou amanhecer ao teu lado,
encaixada em teus braços
Esmaecendo as lembranças que ainda pensas amar
colorindo o novo dia com novos sonhos e devaneios
Sim, sou maluca, louca, insana
Quero o impossível, quero as cores do mundo, impensadas
Quero aquilo que nem sabes que sentes
Quero explorar teus sentidos, teus máximos
Quero aquilo que pensas conhecer, que chamas de destino, de amor
Quero o que não tem nome
Porque o amor do mundo não me interessa
Quero o simples, o louco, o inominável
Teu coração local, forasteiro, presente, intocável
Quero tua vida, liberdade, cheiro e anseio
O que nunca deste a ninguém por incompreensão, ingratidão, devaneio
Aceito
Porque sou o que nunca tiveste e talvez não saibas lidar
Mas sejas simples, livre, 
Simplesmente livre
e terás em mão 
minha alma, minha vida e respirar.


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Do Lado de Dentro


Silêncio não se faz quando respiro
Minha cabeça tem pensamentos estrondosos
Minha existência é um grito de vontade
Eu entrei na tua corrente sanguínea
Cheguei sem previsão e explodi diante dos teus olhos
Para calar-me
terás que me beber, gota a gota
Devorar com os dentes cada sonho de fogo 
que te impede a calma antes de dormir
Se queres arrancar-me dos pensamentos
fatia a própria pele, como quem enlouquece para se livrar de uma tatuagem
Se não queres me tocar, corta-te as mãos
Se não queres sentir, 
arranca o coração do peito, ainda quente e pulsando
Pois em vida não te livrarás
Estou do lado de dentro, imiscuída no teu sangue
Escorro pela tua face temperada pelo teu suor
Se me corta, cresço de novo
Se me afoga, ressurjo como uma sereia de cauda reluzente
Se me mata, renasço feito Fênix, em teus pensamentos mais insanos
Se me prende, 
desapareço e volto borboleteante em tua pele quente, 
com toques de leveza e incêndio
Quantas tentativas já fizeste de te livrar?
Quantos desvarios e febres tens só de imaginar?

Quantos caminhos já tomaste, em aceleração, para esquecer?
Pois beba teu sangue todo
Mate-se quantas vezes sentir-se arder
Lança-me no fogo e veja o que acontece
Grite até à exaustão
Tente exorcismo, suicídio, autocombustão
Hás de se acalmar quando enfim perceber
Que estou por dentro, sorrindo em cada célula da tua alma
Olhando-te profundamente
Esperando pacientemente que percebas
que isso, que parece um tormento,
é tão somente
a porta aberta para a tua paz.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Gente Presente


Correria é normal. Bastam dois minutos de prosa e logo se reconhece uma alma esgotada. A alegria de viver anda meio rara no mundo real. Estamos todos muito cansados, nos equilibrando entre os ponteiros do sistema, com saudade de um tempo que ficou ali, bem ali atrás.

Reclamar é normal. O cansaço é evidente, os problemas se agigantam. Nos perdemos entre corantes, conservantes, paralisantes de vivacidade. Corremos em câmera lenta. Corremos, mas não chegamos a lugar algum. A cama é o lugar mais cobiçado da nossa carne, sempre exausta.

Exigir é normal. Querem nossa atenção. Nosso tempo. Nosso sangue. Querem nosso sorriso, ainda que estejamos morrendo em dor. Querem nossa alma, mesmo a gente não sabendo em qual ponto da estrada ela soltou da nossa mão.

Falta leveza nesse mundo cão. Estão todos muito pesados.

Falta aquele olhar de pluma, aquele peso de borboleta sobre nossa alma, de gente que sorri com os olhos, abraça nosso mundo e em dois segundos transforma nossa angústia em cumplicidade.

Coisa boa é descobrir-se acompanhado, mesmo sem toque.
É saber-se observado de longe, é sentir-se apoiado no inferno.

Coisa boa é conhecer gente entendedora de silêncios, que não exige nosso melhor, que não exige nada, gente que se sente completa com a nossa presença. Por falar em presença, gente assim é presente. Presente da vida, com laço de fita vermelha, reluzente. É gente que chega quando estamos moídos, em mais de mil cacos, sem saber por onde recomeçar, já que temos que continuar na correria, ouvindo reclamações e exigências de todos os lados. Mas gente-presente-com-laço-de-fita-vermelha-reluzente sabe que o abraço ainda é a cola mais poderosa para remontar-nos, caco a caco.

Que na correria vazia dos nossos dias lotados não passemos batido pelo presente da vida. Abraços ainda curam. Neles, nossas almas se reencontram e retomam, aquecidas, a fria estrada.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Dissonantes

Por: Ronald Mignone e Ludmila Clio
(Mais um nosso!!)
O ar à nossa volta está carregado de vazios
Desprezos velados em silêncios cortantes, mas cotidianos
Tudo é morno
Caras de água, inexpressões insossas
Alianças congeladas, sonhos esquecidos, mistérios mortos
Não! Somos dissonantes!
Destoamos dessa realidade
Vivemos as delícias da rara cumplicidade
Disparamos olhares, docemente maliciosos,
que anteveem como morreremos saciados mais tarde
Nos provocamos com toques ousados,
muito bem disfarçados
A deixo ruborizada e quase me entrego ao vê-la tão desconcertada
Esses são nossos primeiros acordes vibrantes
Nessa escala em tom menor que nos compuseram 
São os prenúncios de nossas horas ímpares e incandescentes
Prelúdios do nosso momento mágico, da nossa melodia secreta
Onde nos tornamos um único acorde
e ensurdecemos as pausas
Com a bênção dos anjos, ao som de mil corais
No instante em que o universo nos assiste exceder todas as notas
Onde as palavras sobram, não faltam
Nossos corpos se devoram
e nossas almas se bastam.