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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Carta para quem tem medo de Amar


Eu entendo.

A vida, desde cedo, te sacudiu, te jogou para o alto e saiu de baixo. Você caiu, se machucou muito na primeira vez. E isso se repetiu. E aconteceu de novo. E de novo. E de novo.

Então sua alma começou a sangrar.

Eram os teus sonhos se quebrando, as tuas esperanças trincando, se rompendo, formando cacos que se amontoavam por dentro. 

Uma avalanche de contratempos, imprevistos e pesadelos te engoliu. E para se manter vivo, você decidiu respirar curtinho, para não mais ser percebido pela vida, para manter a falsa paz e seguir em frente.

Teu coração se afundou no mar dos cacos de tudo aquilo que você quis ser e não pôde. Submerso no entulho dos teus restos, teu coração apenas existe. Paralisado, entrevado, proibido de disparar por qualquer emoção que sinta. Teu medo de que ele se fira ainda mais o impede de se entregar.

Eu entendo.

Eu entendo que você me machuca para se defender. Eu entendo que você me fere para me proteger de si mesmo. Também entendo que não é por não querer. Você quer, e muito, mas tem medo da dor, eu entendo.

De cacos sou feita. Fui remontada com abraços apertados e com a força gentil de algumas gentes loucas que não desistiram de mim. 

Saiba que alguns pedaços se perdem para sempre. Outros, se multiplicam, isso eu não sei explicar, mas acredite: a gente consegue se refazer, apesar da dor. 

Talvez você nunca entenda por que insisto em mergulhar ainda mais profundo ao encontro de teus pavores mais cortantes e mortais só para resgatar teu coração. E sei que isso te apavora porque você sabe que vai doer, te apavora porque a dor vai te lembrar que ainda está vivo.

Mas não me importa. Pode gritar nãos. Pode me agredir com teus silêncios, fazendo cara de quem está indiferente, eu não ligo. E se te parece que sou movida à coragem, digo-te que está enganado. Sou movida pelo medo. É o medo de te saber morto em vida que me atrai com urgência para livrar teu coração desse entulho de cacos perfurantes e inflamados.

Eu entendo que para você tudo ficaria melhor se eu desistisse e voltasse daqui de onde estou, mas já estou ferida, desde o primeiro toque. Voltar daqui me mataria, voltar daqui seria desistir e desistir não é opção.

E quando enfim teu coração estiver longe dos cacos e teu sorriso finalmente for verdadeiro, então hás de entender que, para ser livre, precisa deixar doer. É o preço que a vida cobra de quem ela escolhe jogar para o alto e não socorrer. A dor vai te humanizar, vai colocar o sangue de volta ao caminho que ele deve seguir e te fazer forte. Então você há de entender que cada um tem uma loucura dentro de si. A minha é não desistir de você.











quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sobre a única certeza da Vida


Dizem que a única certeza da vida é a morte.
Hoje esbarrei nela. Perdi alguém querido. Perdi meu avô.
Era o último vivo, dos quatro.
Não tenho muitas memórias dele, já que cresci no Espírito Santo e ele morava nas Minas Gerais.
Nos encontrávamos uma vez ao ano, sempre na época do réveillon, mas isso foi até os meus dez anos. Depois que vovó morreu, o vi, no máximo, umas 04 vezes.
Tenho memórias vagas, de seu jeito calado, tipicamente mineiro.
Lembro-me de seus ofícios com madeira, dele de short verde na praia e também de sua caligrafia perfeita.
Canhoto por natureza, destro por obrigação.
Devo a ele minha sinistralidade, isso eu herdei do vô Zé Nunes.
Embora não tenha grandes momentos para me recordar de nós dois, o sentimento é triste.
É como se quem abriu caminho para as próximas gerações, aos poucos foi ficando para trás, dando lugar aos netos, bisnetos. E de repente, a gente olha para trás e encontra desfalcada a retaguarda da tropa. A vida segue e seguimos sempre com mais gente adiante, menos gente atrás da gente.
A morte sempre esvazia o caminho.
A morte sempre enche o coração.
Enche-o de vazio, de saudade, de sentimento de orfandade.
O fluxo não para, o clichê maior diz que a vida continua.
É, continua.
Mas ela continua meio trêmula, duvidosa, carente de um colo.
Hoje mais que nunca eu queria a minha mãe, que com certeza tem infinitamente mais memórias de seu pai que eu de meu avô.
É estranho não sentir sua sombra sobre nós, olhar para trás e não ver presença, mas pegadas.
Há história, memória. O palpável já não mais existe.
Que Deus conforte nossa família nesse momento tão triste, tão cheio de certeza e nada natural. 

Desculpa vida, mas com essa sua única certeza ninguém lida bem.