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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre Guerreiros


Hoje deixo a poesia adormecida para falar da realidade, do dia a dia.

Nós mulheres saímos da cozinha e fomos para o ringue da vida. Eu fico estarrecida com tanta autoafirmação que leio atualmente, e me pergunto até que ponto a gente ataca para se defender.

As redes sociais são vitrines do orgulho de dar conta. Dar conta da casa, dos filhos. Do trabalho, da academia. Do tempo que se encontra para o happy hour com a make e o decote perfeitos. Dar conta da vida, de conquistar um espaço que parecia ser do outro, apenas do outro. Dar conta de ser linda, de ser atlética, de ser resistente, a que inverga-mas-não-quebra. Dar conta das contas, dar conta da dieta, do tempo, da grana, da saúde, dos problemas. Nunca a imagem de guerreira foi tão pregada.

Até bem pouco tempo atrás, homem não chorava. Hoje em dia, mulher não chora. Chorar é para os fracos e estrogênios são fortes. Implacavelmente fortes.

Tentando ser gatas, mais parecem patas com seus bicos sensuais _ironia mode on.

Tentando ser suficientes, dispensam publicamente as companhias, subestimam os homens e se orgulham de sua “individualidade” _eu chamaria de solidão, mas deixa.

Vejo diariamente uma enxurrada de legendas cheias de frases de efeitos, mas algo me grita que são meras tentativas de preencher um vazio interno, sabe? Aquele que camadas de maquiagem, litros de silicone, centímetros a menos na roupa regados a doses cavalares de bebidas fortes camuflam _quase que_ muito bem.

Não estou me colocando no alvo da discórdia, apenas hoje me peguei pensando no quê estamos nos transformando. Como se não estar bem fosse uma fraqueza. Como se não ter um corpo “padrão” fosse desleixo. Como se chorar fosse coisa de gente fraca.

Essa apologia à autossuficiência me fez perceber o quão solitárias estão as pessoas _eu disse “pessoas”.

Eu já vi guerreiro chorar, já vi guerreiro com medo, assustado, preocupado. Já vi guerreiro pedir colo, sair mais cedo para poder chorar longe dos demais. Já vi guerreiro pedir conselho, já vi guerreiro ter dúvidas. E eu nunca vi nenhum deles se gabando da sua força, da sua perfeição ou da sua autossuficiência sobre todas as coisas. Guerreiros se prostram. Guerreiros se arrependem. Guerreiros se cansam. Guerreiros choram.

Ah! Guerreiras também.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Maldito Costume


Não foi pela vizinha,
nem foi pelo porteiro
Não foi o frio,
não foi o desemprego
Não foi o tempo,
tampouco desespero
Foi o costume,
maldito costume
que apagou o brilho,
que abriu a porta para o tédio
Que permitiu pequenos desrespeitos
Que silenciosamente
fez pouco caso do carinho,
desprezou o amor
E assim se quebrou a promessa
Difícil acreditar
que onde jazem dois corações
já houve tanta festa.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Primeiro Passo


Dar o primeiro passo: eis o desafio.
O que é preciso para dar o primeiro passo?
Uma insatisfação gritante, uma vontade gigantesca de mudar, uma fé veemente.
Contudo, o primeiro passo é somente o primeiro passo.
Não se chega a lugar algum dando apenas um passo.
E eu nunca ouvi ninguém falar do segundo passo.
O segundo passo é o da persistência, o da querência constante, o da força.
Ele precede o terceiro passo, que precede o quarto, o quinto dos cem, dos mil que precisamos dar para realmente mudarmos de lugar.
Dar o primeiro passo é importante, mas não define muita coisa.
Na verdade, não define nada.
É preciso estar disposto a caminhar, feito a criança que descobre que andar é mais divertido que engatinhar, e desembesta a percorrer e desbravar todo espaço à sua frente.
Parar no primeiro passo é ainda mais frustrante que nunca ter se mexido.
É morrer na intenção.
O primeiro passo nada mais é que um quase.
E quase não é o bastante.